As ilusões não estão todas perdidas, mas só no mundo virtual

Podem me chamar do que for… antiquada, provavelmente. Mas o mundo visto só por essas telas, o mundo à distância on line, o mundo dos contatos não imediatos de milésimo grau não é pra mim.

Sei que tenho estado virtualmente bastante presente. Faço isso porque gosto. Mas nem sempre. É uma ferramenta, meio de comunicação, entretenimento e tal. Até aí, tudo bem. Mas a coisa pára por aí.

Lembro que faz um tempinho (não muito mesmo) eu comecei um namoro. A coisa começou a desenrolar depois de nos conhecermos no jantar de aniversário de uma amiga em comum. Aí eu chego em casa, uma coisa, outra e chega mensagem no celular. Eu não conhecia o número e juro que nem lembrava quem era a criatura pelo nome (a amiga havia apresentado alguns naquela noite e eu não guardo nomes). Ele envia, eu respondo e descubro que ele e a tal amiga estavam no msn depois da festa e ela havia passado meu número de celular pra ele.

Pois bem, um crime. Porque celular fazia uns dois anos que eu tinha. Msn? Eu não tinha! Sempre detestei msn, aquele barulhinho chato que ele fazia quando chegava mensagem (meu irmão tinha e eu conhecia só por isso). Ah, claro, uns casos antes também tinham e inclusive teve aquele que só entrava no msn pra fazer merda. Foi o meio, inclusive, pelo qual ele arquitetou uma traição. Tinha como eu gostar dessas coisas, gente?

Bem, nunca fui fã. Mas eis que um caso desses aí foi evoluindo pra namoro e eu acabei fazendo o maldito msn. Aí o relacionamento ficava mais no msn do que pessoalmente. Isso não tem a minha cara. Ali eu já podia prever a desgraça que seria o final do relacionamento, quando nem por msn, nem por telefone, nem pessoalmente nos víamos mais. Esse acabou assim, por e-mail, depois de três tentativas (minhas) frustradas de terminar pessoalmente (e ele não entender). Então, né, nada mais justo do que fazer por um meio que ele “entendia”.

Para vários desses eu sempre disse: amor tem que ser alimentado todo dia. Todo dia. Simples assim. E não sou daqueles bichinhos virtuais… a coisa é viva. Bem viva. E é nisso que se ganha e se perde. O último ali, depois que eu abandonei o msn, ligava todo dia no mesmo horário. Oi? Algo todo dia do mesmo jeito no mesmo horário? O que é isso, trabalho? Escola? Não é pra mim. Aí ele viu que me irritou e… começou a mandar mensagens. Várias, todos os dias… Ah, santa paciência. Palavras? Eu as encontro nos livros. E, garanto, muito mais originais, lindas, interessantes e até gostosas do que a maioria das pessoas pode me proporcionar.

Adoro uma boa conversa, é verdade. Mas “conversar”, pra velha aqui, demanda uma linguagem toda especial de gestos, lugares, olhares, sons… não de uma tela.

Um grande amigo que nem fala mais comigo era o melhor exemplo disso. Conversávamos afú no msn (o único motivo pelo qual o mantive por um tempo e a ausência dele foi o motivo pelo qual abandonei) e eram ótimas conversas, assim como pessoalmente nas nossas excursões loucas e com muito sentido. Assim é com amigas de longa data que de vez em quando converso pelo chat do Facebook e que nos encontramos com frequência. Rola um papo, é óbvio, sem problema. Mas essa não é, nem de longe, a base forte da relação.

Esses dias, no Twitter, alguém deu RT numa frase que comparava o programa The Voice Brasil (o cara vai lá cantar e os jurados ficam de costas, só ouvem a voz) com você entrar em contato com um cara só vendo o pinto dele. Pois bem, muitos rapazes acham que é isso mesmo! Tu começa a conversar e lá vem o cara com a foto do dito cujo, ou entra em site de relacionamento e os caras não colocam foto da cara, mas do pinto em ação. What the hell?! Que eu saiba a coisa funciona melhor (bem melhor) em 3D e foto nenhuma faz jus, além do que, a velha aqui aprecia o conjunto, não só uma pecinha do quebra-cabeça!

A velha aqui ainda gosta de estar à beira-mar tendo conversas lúdicas sobre assombrações. Ou na mesa da praça de alimentação de um shopping conversando sobre a vida. Ou em frente a prateleiras de livros expondo dúvidas incomensuráveis. Ou, ainda, discutindo aquele filmão e contando fofoca durante uma caminhada. Além das conversas, nem preciso falar de outras coisas.

A velha aqui gosta de viver. Mas tem encontrado cada vez menos pessoas que topem isso.

Essas poucas eu valorizo muito. Aquelas que usam chats para pequenas e medíocres traições ou para encontros casuais… eu não as entendo. Diz uma das minhas amigas que é assim mesmo, que essas preferem se iludir. Guardadas as proporções, prefiro ficar com as minhas ilusões cara-a-cara.

Não uso msn faz muito tempo, o telefone tem recebido ligações não atendidas sistematicamente (porém não intencionais!), mensagens por engano (algumas até engraçadas), e cada vez mais eu sumo de um mundo ao qual provavelmente nunca pertenci, mas que era, numa boa dose, para ser agradável e útil. Enquanto ele for assim, por mim tudo bem. Mais que isso não é a minha praia. Ah, por falar em praia! Só não me convide pra um café. Os bons sabem disso.

Belezas peculiares

 

Um dia eu conheci uma pessoa que dizia que o bom na vida era ter histórias para contar. Tudo o que acontecia ele resumia nisso, em mais uma história para poder contar. Eu achava isso um pouco chato, afinal não preciso de platéia, prefiro viver e viver não exige que você conte para os outros – não precisa nem que você compartilhe os momentos – o que viveu.

 

E um outro dia me peguei reparando que conto muitas histórias e tenho uma infinidade de histórias para contar. Sou chata, todo mundo sabe. Mas volta e meia (e os leitores atentos já devem ter reparado) tenho uma história, recente ou do passado, para contar. Me imagino daquelas velhinhas que contam infinitas vezes as mesmas histórias… ou nem tanto, afinal, apesar da pouca idade (tá, eu ri agora) já são tantas e tantas… das mais tristes às mais divertidas.

 

Quem sabe um dia eu escreva um livro de memórias. Começaria compilando muita coisa aqui do blog, mas sei que aquelas mais tristes (e, sim, são cortantes e não são poucas) eu sempre evito. Só na minha cabeça que elas rondam e rondam…

 

Ter boa memória é isso, viver é isso. É ir colecionando imagens e palavras de tantos momentos.

 

Nem pensem tão bem da minha memória, ela anda me pregando peças. E eu nem sei o motivo.

 

Porém, sim… eu lembro de quase todos e de quase tudo. Vou anotando mentalmente sentimentos, sensações, fatos, ações, palavras… Não sei também ao certo o motivo, mas prefiro viver assim.

 

E nessas anotações faço associações que não deveria. Tenho a péssima mania de associar as coisas e as pessoas aos lugares. Então, me mudei de cidade pensando em mudar, assim, de alma. Na nova cidade (tudo novo pra mim, por lá) eu ia descobrindo, passeando, amando. E como isso me fez bem! Ali eu me sentia eu, eu podia olhar o horizonte. Porém, não deixei de vez a cidade que eu havia morado antes. Por algumas poucas (mas muito fortes) razões. E eis que pra lá vou frequentemente e a associação às coisas ruins sempre foi inerente.

 

Aí a vida dá muitas voltas e já naquela não mais tão nova cidade eu havia sofrido e passado por coisas muito ruins. Tem lá aquela universidade, o jardim daquele cinema, aquele píer, um morro ou outro, uma casa lá pro Sul, um bairro… e é impossível passar pelos lugares e não lembrar disso tudo, de vez em quando. Mas o coração aqui não gosta de coisas ruins… aí a rebeldia anti-dor começou a gritar. A idéia de mudar novamente de cidade pairava sobre meus olhos. E só eu sei o quanto, apesar das lembranças, eu gosto desta cidade. Conflitos, conflitos… Numa reviravolta da vida, criei mais um motivo para não gostar da cidade para onde sempre volto. Mas foi lá que me refugiei nos dias mais difíceis.

 

Esses dias passaram… e eu achei que precisava dar um basta. Dizia eu para algumas pessoas, por esses dias, que é errado fazer essas associações. Nunca, jamais, abandonar uma rede social, deixar de frequentar lugares, cidades, deixar de fazer isso ou aquilo porque alguém nos fez/faz mal. Ninguém que te fez/faz mal muda a vida por sua causa, para te evitar, para evitar o teu sofrimento. Por que nós devemos fazer isso? Talvez tenha sido umas das coisas mais difíceis (e em processo) que já fiz.

 

Vejam só, pisei novamente no CFH. Resolvi sair da toca em Joinville.

 

Tudo isso engolindo o pavor que há anos me toma pelo fato de correr o risco de encontrar esse ou aquele. Engolindo o pavor das lembranças. Não é fácil. Não mesmo! Mas busquei em mim aquela coragenzinha filha da mãe que de vez em quando eu tenho. Nem tanto coragem, mas gosto pelo desafio.

 

Talvez eu tenha repensado tudo isso depois daquele belo encontro no Subway. Fiquei pensando quanto a falta de pretensão me faz bem. Eu já deixei de fazer tanta coisa, de estar em tantos lugares por causa de outras pessoas! Perdi boas coisas da minha vida e não hei de me permitir fazer mais isso.

 

Porque, enfim, eu duelo com a idealização. Duelo com saber como a pessoa é e, ainda assim, imaginá-la ali diante dos meus olhos de outro jeito. E aí, um dia… eu canso da minha idealização, me canso de esconder quão pouco interessante ela é, me canso de tentar fazer dela uma pessoa melhor enquanto ela fica ali, sem intenção alguma de ser o melhor dela pra mim.

 

Com os lugares também é assim. O CIC não tem culpa dos babacas que já conheci na vida. A UFSC não tem culpa (ai, difícil essa) dos tipos mais variados e infelizes que por lá circulam. As praias da Ilha também não. Certos bairros não podem ser responsabilizados pelas namoradas idiotas que meus amigos insistem em ter.

 

É um processo que eu resolvi fazer para poder sentir a delícia de, depois de muito tempo, poder colocar os pés no Sebo Colin novamente e me ver feito criança boba fazendo festinha em mim mesma e arrebatando as prateleiras para voltar feliz pra casa.

 

A coragem passa para o orgulho de poder assistir um bom filme, uma boa palestra, seja lá onde for. E se eu der de cara com aquela pessoa maléfica, uma das top 5 que já conheci na vida, eu vou rir e fazer de conta que nem vi. Ela não me importa. Afinal, se na minha colação de grau quem me deu o canudo e teve que apertar minha mão foi a criatura do departamento que mais me odiava, por que eu deveria me preocupar com alguma coisa? Já não tive provas o suficiente?

 

E é em exercícios de sobrevivência assim, conduzidos por altas doses de auto-análise e reflexão (e ultimamente de vinho também!), que eu encontro uma beleza peculiar da vida. A beleza de encarar as coisas e não se esconder delas. De dar a cara a tapa e saber revidar. Ou, simplesmente, de reaprender a viver. O processo não é fácil, mas eu detesto as coisas “fáceis” da vida. Eu gosto do desafio, do difícil, do complicado.

 

 

O Destino

Vejo ali no canto o Destino. Homem mudo, magro, cabelo preto lambido e um bigode igual o do Poirot, sentado numa poltrona Luís XV de veludo vermelho. Usa um robe bordô e me olha sempre atentamente com seus olhos negros. Não há como chantageá-lo pois ele olha através de mim para o futuro e é mudo: nunca me diria nada.

Reparo que, às vezes, ronda um riso-sorriso nos seus lábios. Em nada parecido com o da Monalisa. Os lábios. Lábios sensuais, atraentes. E deles nunca terei nada. E eu queria que eles, se não me contassem os próximos cruzamentos, pelo menos me explicassem os que já aconteceram. Ele brincca comigo. Ele sempre prepara as próximas surpresas com carinho e atenção. Quando me encontro próxima de mais um revés, ele sorri. Porque ele vê o que eu sequer desconfio.

Ele não me confiar as novidades e não ser passível de chantagem eu já entendi. Mas ainda me reviro na cama querendo que ele me confidencie as explicações. Já tem tanta coisa que eu não entendo… não quero não entender as brincadeiras dele. O Destino, este homem que me persegue, arquiteta encontros e desencontros que tiram o trem – eu que me conheço bem e me orgulho de ser tão dona de mim – dos trilhos violentamente. Acontecem os acidentes, o sinal do cruzamento que sofre apagão, o tropeço que rola a pedra que mudará a vida alheia. Este trem de pontualidade francesa, de tantas certezas e intuições. O trem que sempre sabe que vai. E mesmo assim eu olho aquele homem ali no canto, nossos olhares se cruzam e fixam.

Toca um saxofone suave, malemolente, sedutor. É assim que o Destino me atrai. Quando me aproximo, vem um violino arrepiante, atrás a me cutucar a nuca e me empurrar pra frente. O saxofone desaparece e já estou presa no som raivoso do violino que acelera o sangue nas veias. Não há volta.

Os homens da minha vida – a impossibilidade e je repars à zèro

Eu, do nada, perguntei: vamos jantar no Subway? E a resposta foi positiva. Mal sabia eu o que me preparava o destino. Lá fomos nós, conversa aqui, ali e chegamos na lanchonete. Às vezes eu esqueço o motivo de não sair em Joinville. Esta cidade me guarda surpresas impensáveis, até pra mim.

Abro a porta de vidro e um olhar me traz o passado. Eu com essa mania do sangue inglês de disfarçar o que sinto, vejo o dono daqueles cachos arregalar os olhos daquele jeito que, ó Deus, eu ainda conheço tão bem, virar a cabeça repentinamente pra fugir (com toda razão, como sempre) da memória do corpo (a melhor memória de todas), falar alto “sim, mas claro, azeitona” com aquela voz travada e o sotaque que, ó Deus, eu amei por tanto tempo e ficar revirando as mãos nervosamente, me evitando a todo custo.

E nós ali na fila, duas pessoas entre nós, meus olhos perscrutando enquanto os dele fugiam. Sempre fora assim, enquanto havia sido.

Tudo continuava igual, tudo, tudo. Bem, nem tudo. Ele usava tênis agora, não mais as sedutoras botas e o relógio era digital (estranhei muito isso) não mais de ponteiros. A pele. A pele estava bem mais marcada pelo tempo. Ele gosta do sol, um ponto em comum. Mais um. Ainda tinha uma caminhonete, ainda era casado (com outra, é verdade). E estava na cidade numa quinta-feira.

Eu me divertia, novamente (como sempre fora), ria do jeito assustado e fugidio dele. Falava com quem estava comigo com a cabeça em outro mundo. Igual como no passado. Eu ri à toa.

Sim, ele foi meu caso mais divertido. Ele foi o mais inspirador. Ele foi com quem mais aprendi. Foi ele o culpado por todos os meus planos daquela época – que fazem de mim o que sou hoje.

E ele ali, disfarçando, fugindo. E eu me divertindo. Ao sair, passando pela mesa deles somente aquela troca de olhar com um sorriso e um meneio de cabeça. E eu sorrindo.

Confesso que a volta para casa foi em suspenso. Minha cabeça rodava feliz pelas lembranças, o corpo adormecido de dias trancada em casa numa longa e quase interminável convalescença havia sido despertado por doces e aterradoras lembranças. Há muito tempo que eu não tinha nenhuma notícia dele nem sequer nos meus delírios imaginativos.

Eu me divertia lembrando de tudo. Postei o fato, resumidamente, lá no Facebook. Me divertia em lembrar e relembrar, em captar cada detalhe, como aprendi a fazer. Contei a uma amiga, testemunha dos fatos e companheira da época.

Faltou perguntar se ele continuava no mesmo hotel. Porque os dias haviam mudado.

Só os dias?

Eis que me pego pensando durante o banho: nada havia mudado. Ele que me havia aberto todos os mundos possíveis diante dos meus jovens olhos, estava ali no mesmo lugar, pelas mesmas razões, do mesmo jeito.

Um peso no coração me abateu. Foi por isso que há tanto tempo atrás eu havia tomado uma das primeiras decisões mais difíceis da minha vida. Ele estava ali. Se eu tivesse dito “sim”, eu também estaria ali, na mesma, do mesmo jeito. Eu não era mais a mesma. Não cresci, é fato, mas não envelheci. Sim, eu faria tudo novamente hoje. Tirando o peso dos anos (bem, neste caso acho que empatamos), eu poderia sentir a mesma coisa por ele e não sou do tipo que diz “eu não faria de novo”. Faria, com muito (mais) prazer. E, provavelmente, me divertiria muito, novamente.

E aí, cai água do chuveiro e eu penso que esta história resume o fato do fim de todos os meus (quase ou não) relacionamentos: o caminho. Terminei todos (e, sim, eu sou a má que é sempre quem termina os dito cujos) pelo mesmo motivo, caminhos diversos a serem seguidos. Difícil colocar isso em palavras. Todos eles chegaram naquele momento em que eu segui, eu desejava mudar, ir para a direita, esquerda, pra frente ou até pra trás e eles… bem, eles ficavam (e ficariam, mostrou o futuro ao se tornar presente) no mesmo lugar. Garanto que posso encontrar todos eles a hora que eu quiser porque continuam com a mesma vida, exatamente igual – talvez apenas usando um relógio diferente.

E foi isso, até hoje, que me fez seguir sozinha: o fato de querer (e precisar) seguir. Eu não poderia ficar para discutir qual máquina de lavar roupa comprar, ou qual a cor da cortina da cozinha. Eu não conseguiria. Eu não consegui.

Eu não disse “sim” (nem nunca consegui dizer) a um casamento e aos filhos quando este não era, ainda, o caminho que eu traçava.

Vejam só, eu vou do desânimo à euforia em um olhar.

Terminei todos eles até hoje porque não consegui estar ao lado deles onde eles ficavam, e eles, definitivamente, não me seguiram. E, por que, ó Deus, esse azar no amor de cruzar com esses homens que param, que ficam e não vão?! Seja para qualquer lugar, mas não seguem, param, se acomodam, se satisfazem. Por quê?!

Há um que não é assim. Mas o destino é tão sacana com os encontros e desencontros (muito mais estes do que aqueles) que acredito na doce ilusão de um dia nossos caminhos cruzarem de vez. Acredito somente na ilusão, pois sei que é (quase) impossível. E, às vezes, me dou ao luxo de acreditar no impossível.

E de toda a felicidade legítima que eu tive naqueles cachos, naquele sorriso e naquele sotaque me sobraram as lembranças divertidas. Por que o destino cruzou nossos caminhos tão despretenciosamente hoje? Não sei. E prefiro não pensar nisso (vejo chifre em cabeça de cavalo, diria meu pai). Comentei que eu pensaria, obviamente, sobre o incidente do dia. Mas que eu não deveria me deter demais no “pensar”. E não devo. Quem me conhece sabe que eu sempre faço o que não devo.

Ao lado da delícia de lembrar e, de certa forma, reviver aquilo tudo de um passado até que distante, veio uma tristeza agridoce por vê-lo ali, um ídolo de pés sujos na lama. Ele que podia tanto, ali estava. E nada mais. Como flecha me acerta a certeza da minha decisão repentina na época. E se eu tivesse insistido e dito “sim”, sei que hoje eu não estaria com ele e provavelmente as lembranças seriam amargas num encontro assim fortuito.

Por que esse azar no amor, ó Deus, de não cruzarem meu caminho no momento certo? Sempre o homem certo na hora errada. Sempre caminhos embolados, um no fim e o meu sempre dando voltas. Por quê?!

E aí veio a madrugada, o vinho, a música, os amores que já senti, o chocolate e saiu tudo isso daí, todos esses pensamentos provocados pelo banho, por aquele olhar, por aquelas lembranças.

Só posso dizer que eles nunca entenderam e nem entederão. Se aquele um vai se tornar realidade, só o destino sacana dirá. Se o azar no amor é esse mesmo, mais caminhos desencontrados virão. Cenas para os próximos capítulos.

E toca agora aqui “Non, je ne regrette rien”.

Nunca um sanduíche do Subway me fez tão feliz.

Madrugadas

Eu poderia falar de tantas coisas nobres. De Política. De questões sociais. De História e de Cinema. Ou então contar alguma coisa do meu dia-a-dia, aquelas coisas que causam espanto, como diria o Gullar, e que fazem do poeta o poeta. Poderia escrever alguns versos, uma estória que habita minhas idéias. Ou poderia simplesmente satirizar alguma coisa. Sou péssima nisso, eu sei. Afinal, humor não é o meu forte. Gosto do drama, da dor, das coisas impossíveis, do inalcançável, das emboscadas.

 

Eu posso contar que gosto das madrugadas. Conheci-as quando nova, bem nova. Ficava lá naquele outro quarto que nem era bem meu, adolescente bem precoce, portas trancadas, meia-luz. Era um livro que começava na hora de ir dormir, era a rádio – aquela mesma – que criava a trilha para as letras. Ou era a música – sim, aquelas – que me embalavam. O certo era que ali começava e não via o “tempo passar”. Ora, o tempo nunca passa, ilusão organizacionista humana. Apreensões, negações, aceitações, vivia com o coração aflito até a última página. E aí já era quase hora de levantar para ir para a aula. E a cabeça mais e mais aflita e presa ao coração que moía e remoía cada ida e vinda das páginas. Apagava a luz, andava pelo escuro pela casa grande, tomava água, ia ao banheiro, tudo maquinalmente, enquanto a cabeça se deliciava com a estória. Deitava, agora para dormir mesmo, e, às vezes, não dormia logo. Reinventava a estória, encarnava personagens, fazia uma alteração aqui, outra ali. Ou revivia a própria estória, me deleitando com novas imagens e sensações. E ali ficava, fim de madrugada, sorte era pegar no sono antes da mãe chamar para levantar. Muitas (e foram realmente muitas) vezes não conseguia levantar. Inventava uma dor, olhava pra mãe com aquela cara famosa ou simplesmente não levantava. Ela aparecia e perguntava: não vai? Não, eu não iria. Do mundo das estórias me jogava com toda a força para o mundo dos sonhos e neles ficava.

 

Foram tantas madrugadas assim… dos livros e da música fui aos filmes. Sofá, coberta, um vinho às vezes, e as mesmas reações, o mesmo corpo e a mesma cabeça reagindo a cada imagem, a cada personagem, a cada fala. De vez em quando a noitada começava num filme e terminava num livro. Como alguns dizem que começam a balada em tal lugar e depois vão para outro. Minhas baladas sempre foram essas. Para quem não sabe ainda, nunca fui para a “balada”, nem pra “night”, nem pra nenhum desses clubes, boates, dance clubs ou sei lá como se chamam. Nunca. Aliás, também nunca fui em festa da faculdade, nem antes, nem durante, nem depois de duas graduações e meia.

 

Mas já virei muita madrugada. Não queria ser indiscreta, mas nem sempre a companhia foram os livros, as músicas e os filmes e a minha própria companhia. Nem sempre.

 

E aí eu não entendo acordar cedo. Eu vejo a beleza do amanhecer, de vez em quando o contemplo. Raramente, é verdade. Mas sou apaixonada pelo pôr-do-sol. Aliás, parece que as 18h tem um poder sobre mim. Eu vivo melhor na madrugada, eu penso melhor, eu escrevo melhor… eu sinto melhor. Não pretendo nem quero explicar. Só sei que o silêncio, a sensação de vazio, de estar só no mundo é o que mais me atrai às madrugadas.

 

Eu preciso disso. E nem sempre todos souberam respeitar. Eu preciso viver algum tempo no mundo paralelo. No meu mundo paralelo. Senão eu não vivo. E não posso dizer que me sinto no meu lugar. Bem pelo contrário, como agora, meio da madrugada, e eu andava pela casa escura com a sensação de que faltava algo. De que falta algo. E só me espera a cama. Eu preciso sentir que falta algo. Eu não posso me sentir completa. Eu não posso me sentir satisfeita.

 

Nessas madrugadas já falei muito sozinha, já falei com os atores gostosos dos filmes, já xinguei os autores dos livros. Já fiz pipoca às 4h, uma vez na casa grande queimei (ou melhor: derreti) o pijama de seda no fogo do fogão, uma outra fiz no microondas e o cheiro era tão forte e nauseante que no frio abri toda a casa. Já conversei com meus peludos, discutindo as estórias, os meus sonhos, falando dos personagens reais que me atormentavam o coração. Eles ali, sempre ouvintes a tentar dormir, e eu a transbordar o coração daquilo que nenhum ser de duas patas jamais me ouviu dizer.

 

As madrugadas já me mostraram o que eu deveria fazer, numa encruzilhada. Já me impediram de fazer grandes bobagens. Já me levaram ao mundo dos prazeres inenarráveis. Já me tiraram o sono, me deixaram rolando na cama, quando eu tentei ceder e fingir que dormia e acordava como todo mundo. “O mundo inteiro acordar e a gente dormir” Gosto de ouvir as pessoas acordando quando estou pegando no sono, ouço aqueles que trabalham, os que estudam, os escravos de corpo e alma, minha madrugadeira mãe, meus vizinhos, os cachorros e as gatas, eu ali procurando o primeiro sono depois de um tempo rolando na cama com as estórias e os sonhos e eles a subir e descer escadas, a irem ao banheiro, a saírem de carro, a abrirem e fecharem as portas. Acompanho com um certo deleite ao saber que o mundo lá fora ainda existe e que eles vão mantê-lo funcionando por mim. Enquanto eles dormem eu mantenho, por eles, as estórias e os sonhos bem vivos.

X-polenta

 

E nas voltas que a vida dá, volteei muito nos últimos dias, tanto mentalmente quanto fisicamente. Aumentei um pouco aquela lista das coisas inéditas e pensei, pensei muito.

 

Pensei em uma pessoa que ronda minha vida e que deixou aquele sentimento de “um dia nos veremos novamente”. E os caminhos já se entrecruzaram de tantas formas que é impossível não pensar assim. Mas, talvez seja só mais uma ilusão. Ilusão assim, pelo menos, não machuca, não faz perder o tempo precioso dessa vida, nem faz de mim uma pessoa pior.

 

Pensei que quanto mais traço meu caminho naquilo que estou fazendo agora, mais penso no depois. O negócio é traçar uma meta, buscar muito as melhores condições para isso, abandonar o que for preciso, perder noites de sono planejando e estudando e não dizer que são sonhos, pois são objetivos.

 

Escrevo só para acrescentar à lista que comi x-polenta. Coisa de interior, no interior, feito por aquela italianada de interior.

Escrevo só para dizer que estou por aqui, mas cada vez mais longe. Jamais longe de mim.

 

 

Desabafo (e não é do Roberto Carlos)

Eis que chega o dia de voltar ao passado. Retomar práticas antigas como o desapego, o desprendimento e o desassossego. Eis que decido voltar àquilo que já fui, talvez nunca tenha realmente deixado de ser, e que deixei dormitando por razões infames.

Se tem coisa que mais detesto nas pessoas é esse arrastar-se da consciência pesada pela culpa. A isso, só os chutes.

Decidi voltar a uns dez anos atrás, retomar aquela rebeldia, reviver com toda a intensidade o espírito daquela menina que só se vestia de preto porque usava um luto pelo mundo, vivia trancada no quarto lendo livros, ouvindo música e sonhando com eles. É a ela que eu quero retomar com toda a vida.

Porque já vivi o suficiente para, entre o ideal e o real, preferir sem questionamentos o ideal e dispensar todos os “reais” que me aparecerem pela frente.

O que atravessou meu caminho e me feriu de morte? A hipocrisia. É, essa mesma. Essa que me fez num dia de fúria escrever num dos meus murais do tal quarto fechado “sejamos hipócritas” como um hino de escárnio.

Decidi não ser mais a mulher perfeita para completos idiotas. Decidi não ser mais a filha atenciosa, sempre presente e dedicada a pais que não me vêem, a irmã sempre e sempre ao lado para irmãos que acham que nunca passei dos cinco anos. Decidi não ser mais, num esforço sobrenatural, simpática com qualquer babaca boçal que cruza, todos os dias, o meu caminho. Decidi que estou cagando e andando pra todo mundo. Decidi que o mais nobre em mim só terá expressão com os animais e os sonhos.

Liguei o dane-se.

Decidi retomar os abaixo-assinados, decidi voltar a incomodar. Decidi mandar à merda quando e quem eu bem entender. Decidi que só vou usar o bom senso dentro da minha casa e, fora dela, só se houver completo retorno.

Lembrei que aquela menina que vivia de cara fechada e fone de ouvido sou eu, sem tirar nem pôr, e que não preciso mudar isso por ninguém. Lembrei que o homem que faz careta porque eu gosto disso ou daquilo, ou porque eu falo alto, ou porque bebo, ou porque faço piadas, ou porque sou obscena simplesmente é um merdinha que não me merece.

Se sou a fútil que adora bolsa e esmalte e isso incomoda alguém, me resta um peido.

Resolvi riscar da lista todos os que não têm consideração à altura de mim (ou da consideração que eu dedico à pessoa). Sim, não é mais o “mínimo” de consideração. Não sou maior abandonada pra viver de migalhas. Restos não me interessam. E ficar ruminando é coisa pra vaca.

Não me acompanha, ficará pelo caminho.

Estou cagando e andando para o dinheiro (como, graças a Deus, sempre fiz). Estou cagando e andando para o que as pessoas pensam (e falam, este tipo de gente sempre fala mais do que pensa) de mim. Estou meio Jesus, não nasci pra agradar. E farei piada com o que bem entender.

Aliás, não perdi meu orgulho, nem meu adorável amor-próprio, nem minha arrogância, nem meu narcisismo, nem meu egoísmo. Tem coisas na vida que nada tira da gente, ainda bem. Nunca serei unanimidade. Nunca deixarei de falar da vida alheia e dos idiotas deste mundo. Aliás, manterei sempre meu bom humor e alegria de estar viva. Sim, até nisso posso ser superior a muitos: estou viva e sei viver. Viver. E, como dizem, viver não é só estar respirando.

Vou, eu sei, atiçar ainda mais essa inveja que corrói os pequeninos deste mundo. Se deixarem, farei de tudo para atiçar ainda mais. Gosto de vê-los se retorcendo.

Vou cuspir de volta todo o veneno que me atingir. E ainda acrescentar um sorridente “obrigada”.

Vou rir do ignorante. Vou rir do pobre de alma.

Decidi não ter que ser nada. Não ter que ter nada. Decidi dizer mais verdades inteiras.

Lembrei que não fui eu que nunca amei ninguém, mas que esses pobres-diabos que andam por aí arrotando seus “te amos” é que não sentem com a cabeça, só com o estômago. Eu sei amar. Sei amar muito bem. Quem ama dá pérolas aos porcos. Quem sabe amar pode se dar a esse desfrute.

O comodismo nunca me infectou e eu nunca precisei de status, nem papel, nem teto pra referenciar o que se passa comigo.

Lembrei que não posso abandonar meu erotismo, minha putaria, minha sacanagem, meu pervertimento, meu lado inteiro cruel porque as pessoas assim me imploram. Implorem seus perdões que estarão mais bem pagos.

Lembrei que aquela menina escrevia bem e que não estava nem aí para quem se incomodava com o volume da música que ela ouvia. Reassumi isso faz já umas horas.

Lembrei que remorso, vergonha ou arrependimento nunca fizeram parte do nosso vocabulário. E que assim seja.

Decidi esnobar os falsos moralismos. Decidi pisar nas baratas, só pelo passatempo.

Decidi dizer o proibido.

Decidi ter “maus modos” e, quem sabe, sentar de saia com as pernas abertas.

E nada, nadinha, de titubear.

O que eu sinto não importa a ninguém

 

Tem certas coisas sobre as quais eu não queria ter que pensar, muito menos dizer ou escrever. Sentir, então, nem de longe.

Enfim, como eu disse esses dias, o que eu sinto não importa a ninguém. Assim, simples.

As pessoas me cobram tantas coisas, me dizem como se sentem, me fazem perguntas… e eu tenho que aguentar calada que agindo assim elas só deixam claro que nem passa pela cabeça delas perder tempo com as minhas perguntas, com as minhas dúvidas, com os meus sentimentos.

 

Será porque eu sou forte? Porque eu escondo o que realmente sinto? Se sou forte, não sou por acaso. Se escondo o que sinto de verdade, não é uma mera característica pisciana. Tenho (muitos) motivos para isso. “a vida me fez assim”.

Eu não vou, nunca, substituir ninguém. Isso eu já sei… e mesmo assim me desdobro em ser mais do que deveria ser, só porque eu sei que certas pessoas fazem muita falta na vida de algumas pessoas que eu amo.

 

Sabe o que eu sinto? Que sou invisível. Na escuridão da BR, tocando alguma coisa brega no mp3, lágrimas silenciosas escorriam sem dó nem piedade diante desta constatação: as pessoas não me vêem. Eles partem da arrogância deles de que me “conhecem” e que, por isso, não precisam me “olhar” porque já sabem quem eu sou, como eu sou, o que eu penso e sinto. Não percebem que a mudança é mais eu do que qualquer outra característica. E aí se alguém que não me “conhece” me chama de otimista, os que me “conhecem” riem do descabido. Sim, já fui pessimista, já fui realista. Não sou mais. Simples assim. E quem me conheceu quando eu era essa ou aquela não me vê hoje.

 

E tudo que eu faço nada adianta. Então não reclamem da minha solidão, pois só ela me basta. Não reclamem dos e-mails não respondidos e dos telefonemas não atendidos. Vou ignorar aqueles que me ignoram. Não para fazê-los me “perceberem”, só porque eu canso. Eu canso de tentar mostrar, em gestos e palavras, tudo aquilo que não se dão conta. E olha que eu eu tento. Tento tanto… mas aprendi, com o cansaço, a dar fim às tentativas inúteis.

 

Enquanto olharem através de mim, é isso o que terão. Também sou boa com a indiferença. E, lembrem, eu mudo, sempre. Ou às vezes.

 

E eu não quero saber das suas dores, tenho cá as minhas. Tenho cá minhas saudades e minhas faltas. Tenho cá minhas lamentações. Convivo todos os dias, a todo instante, até dormindo, com elas. Levo-as para a praia, para a estrada, para o banho. E ninguém tem a menor idéia da existência delas. Não tenho mais nem amigos para ouví-las. Sim, lamento muito não ter mais nem um outro que antes ainda se importavam e tinham tempo para me ouvir. Nem meu anjinho mais pode me ouvir. E a solidão sempre me acompanhou. Amiga mais amiga que esta, impossível.

Já tentei ser tudo, hoje não quero nada.

 

 

Tenho ouvido demais o coração?

 

Pensando em, depois de tanto tempo, escrever…

Sei que deveria narrar longos posts sobre minhas últimas viagens, atualizar a lista de coisas que eu nunca havia feito e que 2012 exigiu de mim (afinal, como já dito aqui algumas vezes, o ineditismo bateu à porta), escrever um anúncio de jornal e tantas mais coisas.

 

O que me impede de escrever isso tudo? Nada. Não é a falta de tempo (para tudo há tempo nessa vida), nem nenhuma outra desculpa fácil. Não gosto de desculpas, já disse em algum outro momento.

 

Talvez me impeçam os pensamentos… ando tão ligada a eles. Esses dias ainda, em São Paulo, sozinha no quarto de hotel altas horas da noite lendo uma revista “feminina”, numa reportagem sobre morar sozinha avisavam para você não se tornar anti-social neste processo.

 

Eu me achava anti-social antes mesmo de morar sozinha (lá se vão muitos anos…). Será que piorei de vez isso? Será que nem para escrever para o blog, para quem me lê, me sinto sociável?

 

Será?

 

Ou as mudanças aqui por dentro, os pensamentos (ah! os meus pensamentos!), têm me mantido tão ocupada? Sei que escrevo aqui muitas coisas que penso, mas, no momento, não queiram saber quais são meus pensamentos. Não mesmo.

 

E, no fim, talvez eu continue a mesma de sempre.

 

Porque às vezes eu preciso pegar o caminho errado só para saber o que o certo tem de diferente. Ou eu tenho ouvido demais o coração? Talvez eu tenha esse péssimo costume de fazer o que sei que não devo para poder sentir o gostinho da transgressão. E não sei porque não tenho sofrido. A falta de sofrimento, a falta de preocupação com o que há de vir, as ausências, nada disso tem me surpreendido. Isso sim parece muito estranho.

 

Tenho deixado tudo a cargo do destino. E ele tem se saído muito bem, no tempo dele (que não parece igual ao meu), porém ainda não alcançou meu coração. Ando difícil até para ele.

 

Quem sabe…

 

 

O anti-herói Schmidt, a hipocrisia, eu e o “sempre”

 

Resolvi dar uma parada na vida fenética dos últimos meses. Bem, não resolvi, o corpo e a mente resolveram por mim e não conseguiram sair da cama como programado hoje.

 

E motivos não me faltam para tanto. Não faltam para continuar no ritmo frenético, nem para parar tudo e tirar umas horas de folga.

Eis que pela manhã estava trocando de canal e encontrei um filme que eu já havia começado a assistir. O engraçado é que ele estava passando bem no momento onde eu o havia largado das outras vezes. Pensei cá com meus botões que, enfim, eu deveria assisti-lo, pois foram muitas as vezes que ele me apareceu na frente. Acredito em sinais.

 

Talvez o filme não tenha nada de mais. Talvez até tenha alguns pequenos problemas de produção e de elenco. Jack Nicholson e Kathy Bates tiram de letra, mas o resto deixa a desejar. Talvez ele tenha uma visão exagerada do grotesco e caia no riso (constrangido) sem graça.

Talvez não.

 

Ao longo do filme eu não sabia se simpatizava ou trocava de canal. Parecia bobo demais. Era cansativo acompanhar o protagonista nas suas horas de solidão.

 

E lá pelo final eu percebi que tudo isso era intencional. Na sequência do casamento eu pude perceber tudo. O discurso do personagem do Jack Nicholson encerra um pensamento perfeito: casamento é a mais pura hipocrisia.

E, claro, adepta que sou de idéias anti-conjugais, vi a genialidade do filme.

 

Esses dias ainda pensava na questão: acho lindo quem resolve viver junto a vida inteira, que leva isso a sério, admiro mesmo e acredito quando elas professam isso. Só não entendo.

Porque, pra mim, a palavra sempre só pode se referir ao passado, nunca ao futuro. De um modo geral, para não criar confusão, a palava “sempre” e seu significado ficam fora do meu vocabulário. Assim é menos constrangedor, menos desagradável ao ser confrontado com o seu próprio discurso. E há tantas pessoas nessa babação de análise do discurso…

 

Ao descobrir que o seu casamento, que parecia perfeito – como todos, enfim, parecem -, era uma farsa, Schmidt se vê frente a frente com a hipocrisia que é o casamento dos outros e o eminente casamento da própria filha. “About Schmidt” é, então, um filme que remexe de leve – não com precisão como o colchão de água do futuro genro – com o pensamento nobre e vazio, atualizando que é sempre mais importante fazer o difícil do que cair no óbvio.

 

Além de fracasso e fracassado, o personagem não acredita que fez alguma diferença. Tudo seguia sua hipocrisia e sua obviedade. A filha casou, ele não impediu isso. Mas aquele menino lá longe era a diferença, era o além, era fugir ao óbvio do sogro que sustenta um casal fracassado. E ele só encontra isso num desenho óbvio (minha mãe adivinhou o que estava desenhado antes de aparecer a imagem) e clichê. Será que também na obviedade pode estar uma alegria?

 

Quem casa deve acreditar nisso.

 

Nicholson faz o anti-herói que não cede aos desejos da futura sogra da filha numa banheira de hidromassagem, o anti-herói que, por mais que o espectador espere, não faz um discurso inflamado contra o ridículo casamento com convidados ridículos aos quais a filha está se submetendo (talvez ela mesma já seja como eles). Ele volta para a casa, onde já não estão mais as coisas da esposa infiel, onde agora ele já consegue dar conta de arrumar e limpar, é mais sincero nas cartas ao menino que ajuda financeiramente em outro continente, mesmo sabendo que o menino nem o lê.

Ele foge ao óbvio que permeou seus 42 anos de casado. Sua solidão lhe parece mais interessante. Para o filme também.

 

É preciso aceitar a hipocrisia nas nossas casas, nas nossas vidas. Senão, fica quase impossível viver. Quase. É muito mais difícil encará-la sem o véu da hipocrisia. Talvez eu tenha algum problema e não consiga conviver plenamente com ela. Talvez me seja difícil conviver plenamente com qualquer coisa, com qualquer sentimento. Viver confortável só se for muito hipócrita. Eu dispenso.

 

Ainda pretendo voltar aos posts sobre as coisas inéditas que tenho feito este ano, e nelas vou encontrar a hipocrisia forjando seus caminhos.

 

Confesso que abri mão, este ano, de repetir coisas que já fiz no passado. Então, ao que parece, o ano tornou-se realmente inédito: tenho feito coisas que nunca fiz e tenho deixado de fazer coisas que já fiz. Não arruinarei nenhum lar por desejos bobos, não poderei dizer que nunca usei drogas… Só não consigo deixar de ser meio Schmidt e prefiro fugir do caminho do óbvio, como quase “sempre”.

 

 

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