Cartas de Viagem – Santana do Cariri

 

Santana do Cariri, Primavera de um dos melhores anos de nossas vidas.

Não havia ônibus para lá. O costume – ou a saída – era andar de topic. Ou van, como o povo lá do sul pode preferir. Não havia horários de saída e chegada. Não há, por sinal, tabelas com horários regulares. Região da Chapada do Araripe, semiárido brando, Ceará, Nordeste brasileiro, terra de Padre Cícero e Lampião, de História, histórias, estórias e guerras. O São Francisco passa longe. Semiárido brando (o que a constante leve brisa confirma) por conta da Chapada que circunda a região. De um lado de lá dela, é o pé da serra, aquela dos Gonzagas. (Não é “sertão” como chamam aleatoriamente, este lugar imagético tão usado e abusado que torna tudo uma massa geográfica informe e desconhecida, sem personalidade, o sertão dos filmes, novelas e seriados que não localizam, não nomeiam, não identificam – é como o “sul” para tudo isto que há para cá da Bahia – que jogam num mesmo tacho sotaques, costumes, paisagens, tradições, crenças e muito mais. Como dizem das Gerais, elas são muitas – o “sertão” também.) Enfim, não há nem topic que saia de Juazeiro do Norte, a mais populosa e desenvolvida da região, para Santana. Há que se pegar um ônibus, topic ou metrô de superfície (algo muito semelhante a um trem, insisto) até Crato, sua vizinha, e de lá, na sorte, encontrar uma topic para Santana. Na sorte, principalmente, para quem, como eu, não é daquelas bandas. Para quem lá vive, parece que é só no azar mesmo. Na sorte, topic do centro de Juazeiro até Crato antes da ponte, em seguida uma espera e algumas informações para pegar uma topic para Santana. Não havia ônibus, não havia horários, havia muita educação e pessoas extremamente prestativas. Naqueles dias eu já quase me acostumara e previa que sofreria um choque ao voltar para o sul.

Santana do Cariri. Terra de dinossauros, de fósseis, de paleontologia, da ponte de pedra, do pontal da Santa Cruz, da imagem de Sant´Ana Mestra na entrada da cidade. Por que ir para Santana? Por quê? Por tudo, por amor, por Destino, por aventura.

E a topic sai ali ao lado da ponte do “rio” de Crato e segue. Pessoas cheias de compras. Debaixo dos bancos há cebolas, tomates, trigo, arroz. Sento na terceira fila, ao lado uma mocinha e uma senhora. Fardos de comida entulham os cantos. Uma senhora no banco da frente segura uma bacia com uma bandeja de iogurte barato, manteiga e alguma outra coisa de geladeira. A viagem segue. No primeiro trevo uma família acena. Avó, mãe, um mocinho e três meninas pequenas entram depois de dúvidas sobre o itinerário incerto. A topic está cheia. A viagem se dividirá em três partes: da estrada principal até o segundo trevo, subida de serra com vista para Crato e vegetação de caatinga; do segundo trevo até Nova Olinda, paisagem menos árida, árvores mais altas, há verde para onde se olha, já no parque da Chapada, plano; e de Nova Olinda até Santana, surgem “pedreiras”, intercalam o verde e o árido na vegetação, a estrada sobe e desce. Descortinam-se, a todo momento, paisagens inesquecíveis. As cores são vivas e deslumbrantes numa combinação pouco comum. Em volta, a placa maciça verde e em tons de marrom, da Chapada – aquela mesma que é possível avistar da estátua de Padre Cícero em Juazeiro, onde Lampião ficou entrincheirado.

Meus olhos e meu coração se enchem com tudo o que vêem pelas frestas de janela que conseguem alcançar na topic. Mal mexo os pés, pois há coisas por todos os lados. Faz um sol lindo. Sinto-me, como todos os dias por aqui, estranha diante daquelas pessoas. Elas me olham. Elas me estranham. Meu vestido branco simples e uma sandália não chamam tanta atenção. Fica claro que não sou dali. E a pieguice é já amar tanto aqueles lugares. A avó da família que entrou por último está sentada ao meu lado, de costas para a frente da van, num banquinho de plástico. No último banco, de frente para ela, o mocinho. A avó sorri, conversam sobre o pai dele (com quem, pelo que entendi, ele mora em outra cidade), sobre os estudos. Ele foi para a cidade, morar com o pai para poder estudar. A avó conta como as irmãs sentem falta dele, a mais nova acorda chorando à noite. Ele está com ela no colo e faz brincadeiras. A avó e a mãe comentam sobre dinheiro, a mãe conta que vai pegar o bolsa-família semana que vem para pagar as prestações. A avó então insiste com o mocinho que ele deveria usar óculos, pois, nas palavras dela “acho tão bonito moço que estuda e usa óculos”. Toda aquela conversa é pungente demais. Cada palavra que me leva na realidade deles. Observo aquela senhorinha, os olhos, as mãos, o sorriso de orgulho pelo neto. Ela me olha, faz um gesto com o queixo apontando para mim e pergunta “quanto é?”. Fico confusa, eu acompanhava a conversa pensando que ninguém percebia. “Ahn?”, nunca sou boa nessas horas. “Quanto é?” ela repete o gesto e a pergunta. Na hora imagino que ela me pergunta o valor da passagem da topic e responde “Oito reais, eu acho.”. Ela sorri condescendente. Sinto que não era isso. Sigo a conversa e ela conta que perguntou lá na cidade quanto era para pôr aparelho, pois ele agora “precisa” disso – segundo a dentista é cinquenta reais por mês, mas só pode colocar se não tiver nada para fazer nos dentes. Eu uso aparelho, e então percebo que era isso que ela me perguntou. Me sinto uma idiota. Penso que a dentista também é uma idiota. Eu quero entrar na vida daquela senhora. Quero ver a felicidade que é para ela ver um neto, talvez o primeiro da família, estudar. Quero ver o que se passa na cabeça dela para querer que ele use óculos (que é um “remédio” só para quem tem algum tipo de problema) e aparelho porque projeta a imagem dele como alguém que está numa situação melhor. A estrada segue. Há um longo trecho de vegetação seca, nenhum verde, nenhuma sombra. Uma entradinha ou outra, distantes umas das outras, anunciam sítios em meio à seca.

E lá no meio da estrada a mãe avisa ao motorista onde querem descer. Quase não há pontos de referência porque quase não há nada na estrada. E é ali meio que no meio do nada, uma “esquina” com os restos do que era um bar, onde a topic pára. A poeira levanta, eles descem, arrebanham sacolas, vão pela estradinha.

As casas, as paisagens, a chapada, tudo me encanta. Já é Santana. Agora as pessoas já sabem que não sou dali e que quero ir até o Pontal da Santa Cruz. A topic não irá até ela, mas até o começo da estradinha que sobe para lá. A senhora do iogurte pergunta de onde sou. Digo que de Santa Catarina, a menina ao lado dela pula no banco “De onde de lá?!”, respondo e ela “Minha mãe mora em Itajaí, em dezembro eu vou para lá visitar.”. Pergunta vai, pergunta vem. A mãe foi para lá tentar a vida. Faz um ano que elas não se vêem, ela ficou com a tia e nas férias poderá visitá-la pela primeira vez. Falo sobre o mar, ela não parece interessada – aliás, sinto que toda vez que falo no mar, por aqui, eles não dão bola. A tia, a senhora do iogurte, diz para o motorista da topic me levar até o Pontal, pois ele irá até quase lá. Ela me convida para conhecer, na volta, as rendas e redes de bilro que ela faz. Pergunto curiosa pelas compras “Ah, tem que ir pra Juazeiro comprar. A compra que se faz aqui pra uma semana, compra o do mês lá.”. A topic pára na praça para ela descer, na esquina em frente há uma venda. Fico pensando naquelas pessoas que saem dali para ir fazer as compras, num sábado, dependendo daqueles horários misteriosos das topics. A topic ainda pára em umas três casas, o motorista entrega pedidos de compras. A topic vai esvaziando. Agora já estico melhor a perna. Perguntam o que eu quero fazer no Pontal, digo que quero conhecer. Eles dizem que há o museu ali na praça, digo que meu plano é vê-lo na volta.

Aos pés do morro do Pontal uma outra senhora com quem eu havia conversado desce. Ela me contou que dali, exatamente dali dos pés do Pontal da Santa Cruz em Santana do Cariri, já saíram várias pessoas para ir morar em Joinville. Umas para Itajaí também, mas todos ali têm alguém da família que foi para Joinville. “Um vai, diz que é bom, chama o outro. Aí outro vai visitar, gosta do lugar, resolve voltar pra ficar.” me explica. E assim sinto que o meu mundo é do tamanho de tudo isso.

Se pudesse eu descreveria o Pontal, a ladeira de subida, a vista lá de cima, o restaurante com comida deliciosa, a igrejinha, a trilha pelas pedras, os meus amados ticos. Santana cravou-se no meu coração naquele instante. Se pudesse eu descreveria e tomada pela emoção fotografei feito louca e deixei meu olhar perdido no horizonte como se quisesse – e como se pudesse – fincar tudo aquilo no peito e na alma.

Santana, terra da menina Benigna, de comida boa, de uma das paisagens mais belas do mundo. Desço de lá sendo outra pessoa. E nem a ameaça real de que sábado naquele horário não há mais transporte de nenhum tipo de volta para Crato me demove das profundezas do que sinto. Caminho pela pequena cidade, vou ao museu. Museu de Paleontologia. Vou, novamente, para outro mundo. Fósseis, fósseis, fósseis, ossos petrificados, histórias, dados, descobertas. Foi ali que encontraram o dinossauro brasileiro. Há um vídeo que passa ininterruptamente com o orgulho máximo de todos por ali, é citado pelos jovens guias do museu, aqui foi encontrado um dinossauro. Eis que no meio do museu há um dinossauro falso. Pergunto, ansiosa, sobre o dinossauro encontrado. Jurassic Park toma conta de mim. O dinossauro? Foi levado para o Museu Nacional no Rio de Janeiro. Sinto-me tão petrificada quanto aqueles fósseis. Rio de Janeiro? Um dinossauro no Rio? E eis que acredito que agora sim cabe muito bem a pergunta que poderiam me fazer quando decidi viajar até Santana: Por que Rio de Janeiro?! A revolta me toma em goles largos. Santana não é o primeiro recôndito encantador e belíssimo que encontro neste país que sofre com o desleixo da ignorância do povo e dos governos. Formulo revoltas. Formulo xingamentos sem fim. Não há dinossauros no Rio de Janeiro. Já havia sentido essas revoltas quando, numa maravilhosa conversa com o paleontólogo do museu de Crato, soube das agruras pelas quais eles passam para pesquisar e preservar os sítios, pois a maioria está em terras privadas e são usados para extração de materiais e quase impossíveis de serem visitados. Entre isso, há o contrabando, o comércio ilegal, o desprezo que todo ano leva milhares de peças a serem destruídas pela ganância. O coração que havia se expandido lá no Pontal sai dali engruvinhado.

Vou até a senhora das redes e rendas de bilro. Trabalho trabalhoso, lindo, ela me oferece suco, conversamos, pego o contato pois ela envia pelo correio. A menina timidamente ensaia perguntas sobre Itajaí, o sul… parece que ela se sente próxima da mãe ao falar comigo sobre um lugar tão distante e desconhecido. São elos que nascem e me deixam irriquieta. Na praça vazia, sento e queimo as coxas no banco escaldante. Tento desembaralhar todas as emoções do dia. Dia que vai findando e eu ainda não tenho como sair de Santana. Sinto que nem quero. Há em mim a vontade de ficar ali sentada naquela praça, esticar o pescoço para olhar para o Pontal, ver a chapada em volta, as casas… como se pudesse gravar cada detalhe, cada frase que cortou meu coração, cada pessoa que cruzou meu caminho. É preciso ir, porém. E, ao olhar a paisagem no caminho de volta, tenho a convicção de que é preciso, um dia, voltar.

Itajuba, do meu quintal à sombra de um sombreiro, no Verão de um ano que se desvelará.

Eleitos do Ano

Resolvi, neste clima de despedida de 2013, fazer uma lista. Não sou fã de listas. Meu mundo não é assim organizado. Fiz uma, ao meu gosto, dos eleitos do ano.

Sorte e Azar eleita a música do ano. Na versão ao vivo com a qual me deleitei no show delicioso e inebriante do Barão. Foi a trilha do ano com “Tudo é questão de obedecer ao instinto Que o coração ensina a ter O resto é sorte e azar!” e eleito o mantra da sorte!

Arrested Development foi eleita a série do ano para os momentos “vou rir que o mundo tá sombrio”.

– Buster eleito o personagem “queria ter escrito um assim”.

– Thiago Lacerda, no cinema e na TV, eleito o “quero um pra mim” do ano.

– Purefoy, no The Following, eleito o “suspiros” do ano.

– “Oh, Jack!” eleita a minha frase no escuro do ano.

– Telepatia com mami a 160km de distância eleita o “é muito amor” do ano.

– Torta de legumes da mami eleita o “quero mais” do ano.

– Tomar sorvete depois de longas caminhadas aventureiras pela Ilha sob sol forte foi eleito o “puta que pariu, por que eu fiz isso?!” do ano.

– Vestido 38 eleito facilmente o “YES!” do ano.

– Ir ao cinema sozinha impulsivamente foi eleito o “o mundo não é lugar pra mim, tchau!” do ano.

– E-mails não respondidos foram os “expectativa é um saco” do ano.

– Santana do Cariri eleita a “preciso voltar”.

– Dar um fim num caso de quase amor tumultuado foi o “você pode superar isso” do ano.

– Discutir em redes sociais foi eleito disparado o “não vou mais fazer isso” do ano.

– Belo Horizonte foi eleita o caso mal resolvido do ano.

– Março, novembro e setembro (nesta ordem) eleitos os meses do ano.

O Prisioneiro eleito o livro do ano.

– O passado foi eleito o “sempre bom te ver” do ano.

– Escrever foi eleita a paixão do ano – agora definitivamente correspondida.

– Santo Elias e São João Nepomuceno, aquele que não tira os olhos de mim, foram eleitos os santos do ano.

– Lagoa do Peri foi eleita o “ali no meu quintal” do ano.

– Frequentar academia foi eleito o “quem diria” do ano.

– Twittar, por incrível que pareça, foi eleito o “preciso maneirar” do ano.

– Cachaça (a mineira e a do Sertão do Ribeirão) foi eleita o momento “fazendo festinha em mim mesma”.

– Só beber sozinha e em casa foi eleita a melhor decisão do ano.

– Falar verdades para pessoas próximas foi eleita o “deixa pra lá” do ano.

– Belchior foi eleito o “só ele me entende” do ano.

– Perder o show do Benito de Paula em São Francisco do Sul foi eleito o “as pessoas são muito fdp” do ano.

– Sagitário foi eleito o signo do ano.

– Pais solteiros e mãos foram eleitas as obsessões do ano.

– Veloster foi eleito (sem tirar o troféu da Dodge Dakota vermelha, mas juntando-se a ela) o carro que me dá tesão.

– Festa da firma em fotos postadas afú nas redes sociais foi eleito o “sério? As pessoas realmente gostam disso ou tá todo mundo fingindo?”.

– Editar foi eleito o “olha, eu ainda sei fazer isso!”.

– Minas Gerais, as minhas Gerais, foi eleito o “eu quero, eu posso, eu consigo” do ano.

Parade´s End foi eleita a minissérie do ano.

– Piscianos (sim, mais de um) foram eleitos os “não era pra ser”.

– Vitor, Seu Napoleão, aquela senhora na topic, o Eli e o Elias foram eleitos com louvores o “certas pessoas mudam a vida da gente, vocês mudaram a minha”.

– Dar tudo errado foi eleito o “dá tudo sempre tão certo” do ano.

– Conversas com taxistas foram eleitas o “vê só!” do ano.

– “O coração está vazio e ausente. Os negócios vão bem.” foi a frase do ano da agenda.

– Por falar em agenda, conflito de datas e prazos foram eleitos o “te vira!” do ano.

– As duas estrelas cadentes que vi este ano (uma no Campeche e outra sobre o Rio Paraná) foram o “só me falta uma coisa na vida”.

– O Destino foi meu companheiro fiel com quem caminhei o ano inteiro de mãos dadas.

– Colher milho perdida no meio do milharal foi o momento “alegria de quem parece ter cinco anos” do ano.

– Sinais foram eleitos o “eu sempre acreditei” do ano.

– Querer seguir e o sentimento de não ter voltado foram eleitas as dores do coração.

– Decidir ter um filho foi eleita a coragem do ano.

– A chuva (tipo a de hoje) foi eleita a “de novo?!” do ano.

– Desejar tanto aquelas conversas no quarto de costura foi eleita a prova de que o impossível existe.

– Elogios foram eleitos a desconfiança do ano.

– Pessoas recém chegadas ao Instagram foram eleitas as “tua vida não é fotográfica, sorry” do ano.

– Eu nunca conseguir dizer o que devo foi eleito o “tu é uma anta” do ano.

– Sadok foi eleito o “finalmente um esmalte que não lasca no primeiro dia”.

Meu Passado Me Condena foi eleito o “vi o trailer, ri, gostei, fui assistir para entender o fenômeno das comédias no cinema brasileiro contemporâneo e achei constrangedor”.

– Os Gonzagas e Milton Nascimento foram eleitas as trilhas das viagens e sentimentos redescobertos do ano.

– A morte foi eleita (depois de tantas visitas frequentes) a “não fez falta nenhuma!” deste ano.

The Deep Blue Sea foi eleito o filme terapia do ano.

– Ver a lua cheia nascer atrás da Ilha do Campeche foi eleito o “corre, olha a onda!” do ano.

– Tomar banho de mar geladíssimo nos Ingleses com um pinguim foi eleito o “depois não sabem porque eu moro na Ilha” do ano.

– Ter que dar respostas que eu não tinha foi eleito o desafio intelectual do ano.

– Passar pelo risco de vida dentro de casa e saber que ninguém me socorreria e que nem dariam pela minha falta tão cedo foi o momento “a vida pode ser engraçada” (ironicamente) do ano.

– “Força, fé e cabeça no lugar” foi eleito o mantra de quando os astros estavam desalinhados.

– Minha boca maldita foi eleita, como sempre, a praga do ano.

– Minha fé foi eleita a “Deus tira até vaca do meu caminho” do ano.

– Sonhos escancarando as portas da realidade foi eleito o “vem, gostoso!” do ano.

– Os sonhos, aqueles dormindo, foram eleitos a hiper realidade do ano.

– O luar do sertão foi eleito… bem, a canção diz tudo.

– Excessos e desperdícios foram eleitos os “preciso mudar” do ano.

– Paisagens inesquecíveis foram eleitas “a vida é isso, não há mil palavras nem dez mil imagens que dêem conta”.

– As pessoas confiarem em mim e se abrirem tanto comigo foi eleito (novamente) o “não entendo isso” do ano.

– Homens casados e ocupados foram eleitos o “mundo triste este” do ano.

– A loucura do ano (nem as suas nobres concorrentes) infelizmente não pode ser anunciada aqui.

– Zoroastro Artiaga e Sinfrônio José (João Sinfrônio não dá) foram eleitos os nomes do ano.

– Ter escrito um livro de contos eróticos foi o trabalho mais divertido do ano.

– Decidir escrever mais um livro de contos foi o “trabalhar vicia”.

– Amores inventados foram eleitos o passatempo fútil do ano.

– As idéias geniais foram eleitas o “ufa!” do ano.

– Pensar em uma certa pessoa cogitando se ela também pensa em mim foi eleito o “já vi esse filme antes”.

Enfim, ainda tenho alguns dias para atualizar a lista. Alguns eleitos talvez não figurem aqui porque não valiam a pena. E este ano valeu muito a pena.

Os homens da minha vida – Temos todo o tempo do mundo: o sotaque dançante entre possibilidades

Foi mais ou menos assim.

Ela já o conhecia. Ela estava no balcão do bar da vida, alheia como era de costume, feliz demais com seus trabalhos, fazendo festinha em si mesma com tantas alegrias que encontrava pelo caminho. Ela é responsável. Ela é sozinha. Ela é feliz. E ela acreditava, pobrezinha, que tudo continuaria assim.

Ele apareceu ao seu lado no balcão. E como havia sido tantas vezes, o corpo dela despertou. Ela reparou nele. Nos traços, nas pernas, nas mãos. Mas ela é cautelosa. Observa e faz de conta. Ela não gosta de ser objeto do interesse dos outros, ela prefere interessar-se. Um redemoinho se formou. O balcão do bar estava mais movimentado. Ela saiu dali sentindo uma euforia estranha, era parte satisfação, parte alguma outra coisa. Ela não queria crer – mas crer era tão ela.

Ela partiu mas voltou àquele balcão. Voltou algumas vezes. Já não havia como negar. Ele a fazia rir – e sorrir. Ela se pegou pensando há quanto tempo alguém não conseguia fazê-la rir e sorrir. Diziam que aquele bar ia fechar em breve. Ela tinha pouco tempo. Ela já acreditava que ele retribuía o interesse muito menos veladamente do que ela.

Como diz a canção “Primeiro foi a música A canção fez você sorrir E logo à primeira vista O mundo girou pra mim”. Foram as músicas, disso não há dúvida. E foi o jeito, a proximidade, as confissões, as coxas, as mãos. E foi ter sonhado com ele na noite que ela havia saído do balcão com sensações que ela não usava havia tanto – mas tanto – tempo. Meses antes ela havia escrito – ela tem essa mania de escrever – sobre um caso marcante da vida dela: “As palavras, o jeito de andar quase cowboy, o rosto de ave de rapina, a expressão sorridente alegre, o sotaque dançante, o meio sorriso divertido. A sinceridade. Eu estava apaixonada.”. Ninguém entenderia, ela se apaixona em segundos. Ela se apaixona pelas palavras (as estima muito), pelo jeito de andar, pelo rosto, mas mais ainda por sorridentes alegres, sotaques dançantes (ela tem prazeres especiais por sotaques) e pela sinceridade. Ela se apaixona.

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Era o último dia que ela iria até aquele bar e ficaria horas ali naquele balcão. Na verdade, ela ficaria pouco tempo, mas inventou algo para ficar ali mais tempo. Era despedida. Ela gosta de despedidas. Queria uma especial. E eis que no meio de tanto barulho, de tantas conversas, ele veio com mais uma canção (ele não se cansava de cantar para ela, até nos momentos mais inesperados). Ela não deu muita bola para a canção, é verdade. Ela penitenciou-se inúmeras vezes depois por ter feito isso. A canção, aquela, e ela só soube dizer “ah, sim, daquele filme”. Mas ele queria dizer mais. Ele disse que era a canção do momento atual da vida dele. Ele citou o vácuo. Nos balcões dos bares da vida nós falamos dessas coisas. Ela não entendia porque ele a havia escolhido para abrir assim o coração. Ela perguntou o signo dele. Ela disse que estava no mesmo “momento” da vida, que também entraria no vácuo – os dois concordaram que viam a mesma saída para o futuro. Estavam no vácuo, poderiam sair do mesmo jeito, era proximidade demais. Ela disse que ele era muito sério, muito certinho. Ele não gostou. Fez de tudo para dizer que não era, que também detestava a rotina. Ela se gabou das conquistas do passado. Ela jogou umas iscas, ele mordeu. “Até o tempo passa arrastado Só preu ficar do teu lado” já diz aquela canção que ela ouviu mil vezes depois daqueles dias. Eles ali, naquela bolha no meio da multidão barulhenta, trocando confidências, olhando nos olhos, atropelando palavras e sentimentos querendo dizer tanto.

E ela foi pra casa. Ressoavam os trechos da canção à qual ela não havia dado muita atenção. E foi então que ela colocou-a para tocar. Sentou-se abismada. Ele queria dizer muito mais do que ela fora capaz de entender. “Todos os dias quando acordo Não tenho mais o tempo que passou Mas tenho muito tempo Temos todo o tempo do mundo” e ela via passar a conversa anterior, sobre idade, o tempo, a força da vida que nos leva…

Ela estava apaixonada. Mas nunca mais o veria. Não voltaria mais àquele bar. As circunstâncias assim o determinavam. Ela iria viajar. Passaria um tempo longe. Aquela história teve seu começo, seu meio e seu fim. Ou não.

Ela ouviu aquela canção todos os dias, pela manhã e à noite. Ela estava lá longe, no meio do quase nada e não deixou de ouvir. Talvez lamentasse não ter dado a devida atenção. Talvez sofresse um pouco por saber que não teria a chance de viver aquele amor. Talvez tanta coisa. E ela era sozinha. Era feliz. Entre passeios e trabalhos exultava feito pinto no lixo. Talvez aquela fosse a realidade dela: azar no amor, azar no jogo, sorte na vida. Ela não teria mais amores, era isso. O Destino a fazia resignar-se. Ela ouvia aquela canção e uma outra, pois por uns dias ansiou deveras declarar-se a ele – dizer sem rodeios e apostar na sinceridade que era sua marca, estava apaixonada. Porque ninguém entenderia, também, que ela ama sem exigir nada em troca, sem nem esperar ser amada de volta. E assim ela começou a deixar de ouvir aquelas canções… mas o player, nas longas horas de estrada, suspirava ao seu ouvido. Talvez ela já estivesse esquecendo-o. E isso era muito bom.

Entre russos e hollywoodianos a história caminhava para um fim típico dos primeiros. Ela poderia ter acabado aqui. Porém, em dias chuvosos, num lugar especialíssimo, entre coisas de tantos séculos passados, ela pensou nele. Pensou em como gostaria de levá-lo lá, como seria passear com ele por aquelas vielas, ficar no alto observando a imponente serra que cercava a região. Eles já sabiam que tinham certos gostos em comum. Ela sabia que ele iria gostar dali. Ela ansiava tê-lo. Ela criava diálogos, fantasiava abraços, ouvia risadas, esboçava sorrisos.

É preciso abrir um parênteses. Ela tem sérios problemas. Ela finge o tempo todo. Ela é forte – a vida fez isso com ela e ela não vai mudar, como diz aquela outra canção que, por sinal, ele também cantou para ela. Ela usa – o tempo todo – uma máscara para esconder sentimentos. Ela é extremamente desconfiada – com tudo e com todos. Ela é fechada em si mesma e não deixa ninguém se aproximar. Por isso é tão difícil saber o que realmente se passa com ela, é tão difícil entender suas ações, seus homéricos desvios de humor. Nem os mais próximos conseguem. Eu só posso falar porque vejo tudo de um lugar privilegiado – mas até eu me confundo, às vezes. Só narro tudo isto para tentar ajudá-la. Pois, me parece, ela precisa de ajuda. Mas, acreditem, ela jamais pediria ajuda.

Ela pensou abrir seu coração para alguém próximo. E o fez. De nada adiantou. Ela pensou abrir o coração para alguém ainda mais próximo, tinha certeza que seria julgada e condenada. Ela decidiu guardar tudo ali dentro, com a força que ela conhecia e com um carinho que ela jamais vira igual dentro de si. E assim ela voltaria da viagem, voltaria a outros balcões de bares, seguiria os caminhos promissores que com tanto empenho ela havia desbravado.

Não cabe aqui enumerar as tantas idas e vindas na crença e descrença dela sobre o futuro. Nem ela saberia descrever tudo o que pensou – nem o diário foi atualizado adequadamente. Ela pensava e repensava, esquecia, quase nem lembrava. Os bares foram alternando-se, era tanta coisa ainda para dar conta. Eram prazos, dias, viagens ainda, novas conquistas. Às vezes, num mesmo dia, ela nem sabia que estava apaixonada e em seguida se contorcia de vontade de que ele sentisse orgulho dela por algo que ela havia feito, pelos elogios que ela havia recebido. Parece doentio, eu sei. Talvez quase fosse.

“Todos os dias antes de dormir Lembro esqueço como foi o dia Sempre em frente Não temos tempo a perder” dizia lá a canção que ela já nem ouvia mais. Talvez tenha pensado sobre “A tempestade que chega é da cor dos seus olhos castanhos” com aquela dúvida gigante. Era o que ela realmente pensava? Ela pensava demais? Mas preferia lembrar dele com o “Temos todo o tempo do mundo Somos tão jovens”, se a vida deixasse, numa oportunidade ela diria isso para ele. Ela também acreditava nisso. Por mais que os outros não pensassem isso deles, ela só queria dizer para ele o quanto os versos também faziam sentido para ela.

E ela voltou. Voltou à vida. Voltou aos bares. E numa reviravolta do Destino ela o veria novamente. Ficou fora de si. Sentiu a ansiedade devorá-la. Recorreu ao álcool. Ela agora combinava os brincos com o colar – e ninguém perceberia. Quis transformar a ansiedade em atitude. Mas aquela outra canção foi mais forte “Esse caso não tem solução Sou fera ferida No corpo, na alma e no coração” e mais uma vez, infelizmente, ela abraçou-se a isso e calou-se dentro de si – como era de costume.

Não soube dizer o que se passava. Lá estava ela – que nem parecia ela – naquele mesmo balcão, naquele bar, e o máximo que fez foi observar com afinco as mãos dele. As mãos. Aquelas mãos. Não pensava nele, não se deu nenhuma esperança, não tomou nenhuma atitude. Só olhava para aquelas mãos. Esqueceu de onde estava, não ouvia o burburinho, só via e pensava naquelas mãos.

Chegou em casa desiludida com ela mesma. Frustrada. A alma, a parte que ela mais preza, e o corpo haviam exilado-se com o coração. Destino desconhecido, não deixaram rastros nem bilhetes. Ou seja, ela era só cabeça – que, sim, tem funcionado excepcionalmente muito bem. Eles ainda não sabem conviver, pelo jeito. Era a conclusão. Ela voltaria àquele bar – tinha uns dias para decidir mas já sentia que voltaria lá. No caminho para casa viu-se com as mãos entrelaçadas sobre o peito segurando a bolsa. Ela nunca fazia este gesto. Pensava com afinco em como ela sabia lidar tão melhor com o “nunca mais” do que com o “(para) sempre”. Não era sábio aceitar o convite para voltar àquele bar. Contudo, era quase uma questão de honra. Ela havia falhado, novamente. Talvez tivesse falhado porque a canção está certa, não há solução. Talvez ela queira dar a si mais uma chance. Talvez ela só queira observar aquelas mãos novamente. Talvez ela queira mostrar que é forte. Talvez… ela queira encontrar como dizer tudo o que há para dizer com duas ou três palavras e um olhar. Talvez ela só pense em como não estragar tudo, sabendo que não há como não fazê-lo.

Ontem uma taça de vinho não foi o suficiente para suprimir o desejo por ele. Sim, agora ela o deseja. Isto é novidade. E talvez seja isso que mova os moinhos. Não é nobre, mas ajuda. Ela não tem nenhuma forma de contato com ele, nem uma foto para a qual olhar antes de dormir. Ela tem memória. A taça de vinho não foi o suficiente para fazer com que ela não tivesse decorado na imaginação aqueles traços finos dos lábios, o corte rente do cabelo, o sorriso ponto final, os olhos curiosos, as longas pernas de coxas grossas, as mãos… as largas mãos morenas com unhas bem tratadas e inquietas, o sotaque… ela sorriu tanto ontem, durante o dia, ao lembrar o sotaque. O sotaque, o jeito de andar, mais ainda o jeito de sentar. Aquela espreguiçada que ele deu numa legítima auto-propaganda.

Ela ouve canções que dizem tudo. Ela pensa nele. Ela deseja ardentemente o “nunca mais” porque é tão mais fácil. Nunca mais vê-lo, nunca mais ouvir aquele sotaque, nunca mais aquelas mãos sobre o corpo dela. Nunca mais. Ela tem pouco tempo e nem sabe o que fazer. Ela frequenta outros bares, veste suas fantasias, não tira a máscara em público. Talvez ela esteja tramando algo, uma armadilha. Mas ela sabe que ele é arisco. É preciso, talvez, pensar. Talvez ela não queira nada disso porque deseja falar de desejos, abolir as palavras e resolver tudo com a sinceridade, um sorriso e um olhar. Talvez ela saia perdendo. Talvez não. E ela aprecia muito mais as possibilidades do que as certezas.

Ao seu Napoleão, negro, neto de escravos, oropretense

 

Se eu dissesse que certas pessoas, ou certos encontros, mudam a vida da gente, diriam que estou recorrendo a um clichê. Mas, recorrendo ainda a outro, o que seria da vida sem clichês? O senhor, Napoleão, mudou a minha. Eu acredito em Destino, o senhor também? Talvez o senhor, pelas labutas da vida, pela sua vista mal acesa, já não acredite em tanta coisa. Certo é que o senhor me escolheu ali naquela meia escuridão. Devo lhe chamar de senhor? Se a coisa desse brecha nunca nem saberia seu nome. O senhor chegou, falou, falou, sorriu de prazer com dentes alvíssimos, falou. Contou-me histórias. E já dizia aquele, que não basta termos boas vivências, nem sermos bons personagens, temos que ser bons narradores. E o senhor, Napoleão, é dos narradores que narram vidas, tempos, detalhes que seus olhos já não veem. Quando me disse para olhar para o teto, lá vinha mais uma história cheia de riquezas, de ouro, de detalhes e significados, seu pescoço alquebrado o deixou ali dócil com os olhos ao chão. Eu via o teto, meus vinte e poucos ainda me permitem malabarismos do pescoço e da coluna, e o senhor mal enxergando o chão me dizia mais sobre o teto do que eu conseguia ver.

Seu Napoleão, eu lhe ouvia e aquelas paredes e tetos e entalhes já se enevoavam diante das suas histórias. O senhor, corpo pele e osso, a sacolinha-mochila murcha nas costas, os poucos fios na cabeça, as mãos… as mãos finas e longas com unhas grossas e bem aparadas. As mãos apontavam, retorciam-se. A camisa xadrez já bem usada, os sapatos grosseiros. O senhor nem percebia minha atenção e já me guiava para o próximo santo. Se seus olhos escureciam, suas palavras eram cristalinas.

Eu não mudei nada na sua vida, seu Napoleão. Para o senhor eu era mais uma pessoa das milhares que por ali passam querendo ver e saber mais de tempos idos e de coisas que vão se perdendo. Fiquei matutando sua idade. Mais de oitenta? Não quis perguntar. Mistérios criam bons narradores. Eu poderia ter começado isso aqui dizendo que o senhor era negro. Negro neto de escravos. Agora eu quero lhe contar uma história. Quando eu era criança, seu Napoleão, minha avó tinha uma empregada negra, a Marta. Ela gostava muito de mim. Quando diziam “a negra, aquela negra” eu me doía e gritava já quase entre lágrimas “de cor!”. Ela gostava de mim e eu a via com encanto. Ela era negra. Foi a primeira negra que vi na vida. Ela tombava minha curiosidade. As palmas brancas, seu Napoleão, desafiavam minha compreensão de meninota. E meu avô um dia, seu Napoleão, fez a piada dos negros preguiçosos que quando Deus mandou tomarem banho, só lavaram as palmas e plantas dos pés. Nunca amei menos meu avô por isso. Nós dois, seu Napoleão, ali naquele templo de mais de duzentos ou trezentos anos atrás, com mais ouro que quase todas as outras do país e o que eu via era o senhor, sua cor, sua pele, seu avô. Seu avô que tirava as noites para construir o outro templo onde não podia ter ouro. Seu avô que não podia entrar aqui neste templo, o de pessoas com pele como a minha assim branquela, como a Marta não podia sentar-se à mesa de jantar conosco. Quando a via sentada na mesa da cozinha eu temia levar uma bronca mas sentava com ela. Tentaram, seu Napoleão, me fazer temer o senhor, a Marta, o seu avô. Quanto mais tentaram mais me aproximei de vocês. O senhor e eu ali parados diante do altar e nenhuma das suas histórias dizia que tudo aquilo havia sido construído por vocês. O senhor não se orgulhava do trabalho do seu avô, não ostentava suas obras.

Seu sotaque me impregnou, seu olhar vagava pela semi escuridão do templo. No meio da conversa o senhor se apresentou. Napoleão. Napoleão? Aquilo sim me deixou curiosa como as palmas das mãos. Napoleão. Nome para personagem. Negro, neto de escravos, Napoleão, oropretense de nascimento.

E o senhor ainda veio me perguntar de onde eu era. Tive vergonha. A mesma vergonha que eu sentia sem querer quando desafiava as regras e falava com a Marta. Eu sou do sul, seu Napoleão. O senhor sabia que lá estão brigando porque querem tirar o feriado do dia dos negros? O senhor sabia? Enquanto o senhor me dava copos cheios de vida, histórias e delicadezas, lá eles não querem perder dinheiro com um dia – unzinho só – dedicado a vocês. Lá não temos templos como esses. Não tivemos ouro. Mas tivemos muitos como seu avô e temos muitos como o senhor, seus filhos, netos. Por lá querem, ainda, fazer que vocês não existem. Ainda querem que eu não fale com a Marta. Querem que eu dê gargalhadas da piada sobre lavar as palmas das mãos. E um clichê me cai bem, novamente, ao dizer que não quero ser como eles. O senhor, seu Napoleão, já está impresso na minha história. Como a Marta. E vocês nem têm idéia disso. Quando nos despedimos, seu Napoleão, meio às pressas para ainda dar tempo de ver o outro templo, o de vocês, com quase nada de ouro e pinturas belíssimas, o senhor falou na promessa de um casal do sul de na próxima levar um vinho para o senhor experimentar. O senhor também disse que faria de tudo para dar tempo de ir até uma mina – de ouro, escavada por escravos – comigo, que seria um prazer minha companhia. Prazer, seu Napoleão, é saber que o senhor existe. E desejo que meus conterrâneos aqui do sul possam, da próxima, levar um bom vinho acompanhado de notícias de um mundo menos rancoroso, seu Napoleão.

Crônica de um fim de semana na casa dos pais

 

Casa dos pais, depois que se é adulto, é aquela coisa de sentir-se fora do lugar e rememorar bons tempos idos. Depois de mais de mês sem aparecer por aqui e da última vez ter engordado um quilo em três dias comendo a melhor feijoada do mundo, vim. Pais pressentem as coisas no ar. E por aqui somos todos diplomáticos, ninguém fala nada – nem de dores nem de amores. Confesso que mesmo já tendo passado por tantos problemas por causa disso, prefiro assim. É o sangue inglês, é a curitibanidade. E aqui não lavo louça, não tiro o lixo, é o paraíso.

Como eu dizia, pais pressentem as coisas. E, bem, deixo as coisas na superfície, as que podem ficar por ali. Não sou fácil de ler, não confundam, não sou essa coisa Marisa Monte de ser.

Ontem o cachorro comeu o óculos (para longe e perto) do meu pai. Aí este passa por mim, depois de ter ficado o dia inteiro no jardim (e eu no quarto, coisa, aliás, que muito me lembra minha adolescência), e exclama como estou linda. Meu pai, aquele que nunca repara em nada. Eu disse nada? Pois então, em NADA. No domingo, começo da noite, ele passa de novo por mim e diz “como você está linda, filha!”. Não sei se ele nem lembrava que disse isso ontem (memória não é o ponto forte dele), ou se conseguiu admirar-se duplamente. Com a auto-estima de alguém apaixonada-ainda-não-correspondida-atolada-em-estudos-acadêmicos-depressivos quase respondi: o que umas horas no salão de beleza não fazem, né, pai?

Se tivesse sido num dos meus momentos de euforia-tenho-a-lua-em-sagitário-tô-apaixonada-indo-viajar-por-três-semanas-e-a-vida-é-linda eu já teria respondido: pô, pai (e lembraria do Popeye, como sempre), mas sou linda desde que nasci!

 

Sim, seria exagero, recém-nascidos não são lindos.

 

E no almoço de domingo, lasanha feita pela mãe (a única pessoa que realmente abala minha dieta tão rigorosa), falando da viagem ela me olha séria e diz: você só volta noiva de Goiás. Eu, apaixonada-por-alguém-que-nem-sabe-e-que-mora-na-Ilha-e-que-está-longe-de-ser-um-partidão, olho arregalada pra ela. Pode parecer normal, está cheio de mãe por aí que empurra a filha para um bom casamento, “bom” no sentido financeiro mesmo. E vocês sabem que desse tipo de partido Goiás está cheio – é só encontrar um usando uma bota de couro de jacaré. Mas minha mãe nunca foi assim. Nunca empurrou os filhos para casamentos, aliás, até empurrou contra casamentos e coisas do tipo. Minha mãe nunca nem incentivou nada dessas coisas. E agora do nada quer me ver noiva (eu, noiva?!), e com um “bom” partido. Ela já não notou que sou adepta dos desvalidos? Pois sou. Também, nunca me vi casada. Noiva deuzulivre. Respondo que não sou dessas coisas, ela sabe com quem está falando?!

 

Pais pressentem as coisas. Ou é a minha idade (a qual não aparento e isso é um baita problema do qual pretendo escrever sobre). Ou minha vida amorosa-errante. Ou seria amorosa-perigosa. Não sei. Vai que querem me ver mesmo casada. Seria porque tenho falado em filhos? Quero adotar, quero um ruivinho, um indiozinho e um árabe. Se Jolie pode, por que eu não?

Passei o dia jogada no quarto, remoendo distâncias e desamores, enquanto estudava com a cabeça sei lá onde. Tão adolescência isso. Mandei e-mails e mensagens para alguns nobres amigos. Só para lembrar que apesar de estar aqui, não estou morta. Por muitas vezes é a sensação que tenho quando fico um tempo aqui, a da morte.

Amores vêm e vão, casamentos não vêm, felizmente. Estudos, sempre, mas volta e meia acho que não é pra mim. Amigos sempre os tenho. Para cá sempre volto. Pais são para sempre e todo o sempre – e eles dizem que me conhecem, pero no mucho. Esse estado de anti-dieta, casa cheia, tanto tempo no quarto, sempre me faz rememorar, relembrar, me rever – no melhor sentido. Gosto de me rever. Não dizem que tenho a idade que tenho, mas, vejam só, deve ser porque continuo exatamente a mesma – remoendo as mesmas coisas. Nem crise tenho por ver amigos casados, com filhos, descasados e por pensar que na minha idade meus pais já tinham casa, filhos, emprego, diplomas, tudo. Acho que nunca quis tudo. Quero check-ins. Passagens de ida e ida e ida e uma de volta. Se eu não voltar não poderei ir novamente.

Voltarei para contar como foram as viagens, os cursos, as compras, quem conheci, os sorrisos que dei, os lugares que amarei eternamente, as fotografias que tirei. Voltarei para saber se ainda amo – se é que amo – e para rever os amigos.

Porque era domingo e levei três lambidas no queixo, fui afofada uma dúzia de vezes, brinquei de juba de leão com a gata laranja, ri da crise do meu cachorro diante das asas do passarinho – aquele pequeno ser pode voar, veja só, ele me dizia com os olhos. A lasanha de espinafre estava ótima, o amendoim com chocolate também. E me controlei. Malas quase prontas. Vida acadêmica em caminhos tortuosos.

Quem sabe depois de uns vôos, algumas horas de estrada, tantas coisas novas para os olhos e a cabeça o coração volte renovado. Quem sabe? Falta é aquela coisa que a distância consegue preencher bem.

É noite de domingo. Ligam a TV. Uma gata dorme em cima da minha blusa de lã preta. A outra faz piquete na mala vazia. Os cachorros aparecem na janela da cozinha pedindo biscoitos e pitangas. Eu ainda tenho que pintar as unhas, escrever mais uma meia dúzia de páginas, enviar uns e-mails, ler dezenas de páginas. Mas, como bom espírito adolescente, suspiro e coloco Belchior e Alejandro para tocar.

 

Quarto minguante

Eu sei, eu sei… nem vocês nem eu aguento mais versos que versam sobre coisas que… bem, deixa pra lá. Daqui a pouco será lua minguante e daí talvez o espírito mude e deixe de sofrer tantas dúvidas e hesitações. De dias intensos ficam alguns fragmentos:

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Entendi cedo na vida que as pessoas sempre precisam de justificativas, motivos e explicações. Nessas horas todos parecem ser bons capricornianos.
Ainda bem que a vida não é assim.

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Nunca entendi essas promoções de ligações “infinity”. Alguém fala infinitamente ao telefone? Nem começo de relacionamento aguenta tanto tempo de ligação. Eu ouço conversas alheias ao telefone. Sempre fico ouvindo e pensando na real necessidade da ligação. As pessoas falam banalidades, bobagens, ou nem têm o que falar. Não sou boa de estatísticas, mas pra lá de 90% das ligações para celular ainda começam com a pergunta “Onde você está?”. É a falta de costume ainda, afinal perguntar isso numa ligação para o fixo seria estranho.

Eu queria escrever sobre excessos. Tudo o que há de excesso na vida. Nem pensei no mais óbvio (e sobre o que já escrevi) do excesso relacionado ao consumismo e ao lixo, produtos que vêm com embalagens demais e tal. Pensei nos excessos aos quais nos entregamos (talvez) sem nem perceber. Você realmente precisa falar infinitamente ao telefone?

Há quem tenha três mil amigos no Facebook. “Amigos” ou conhecidos. Se duvidar até eu já “conheci” três mil pessoas na vida. Mas adicionar todas no Facebook? Alguém consegue acompanhar minimamente uma TL com três mil pessoas?

A vida é finita. Infinidades sem fim não parecem ser coisas da vida. Acredito que finalmente abracei o desapego e tenho exercitado a vida leve, o livrar-se de excessos – de todos eles.

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Florianópolis tem coisas engraçadas. O high society daqui rende boas risadas para bons observadores. Entrei num Lagoa cheio esses dias. No terminal da Trindade ele esvaziou um pouco e sentei lá atrás, no último banco (aquele que tem cinco lugares, onde eu detesto sentar). Reparei em duas mulheres, uma moça (dessas que não querem parecer muito moças) e uma senhora (dessas que não querem muito parecer senhoras), atravessando o corredor cheio do ônibus. Caracterização típica, tênis de marca cara, bolsa amarelona de marca no último modelo, calça jeans e camisetas de marca. Loiras, é claro (um dia hei de entender essa mania de querer ser ou parecer rica e pintar os cabelos de loiro – será pela associação com o ouro? – um dia hei de escrever sobre as personagens loiras e morenas dos filmes, como o de ontem, assunto o qual muito me interessa). A moça vinha bufando. A senhora, mãe da moça, se desequilibrava. Eis que a senhora diz, sem arrogância nem nada, pura constatação: “Nunca gostei de andar de ônibus”, se bate num rapaz e se joga no banco ao lado da filha – que está ao meu lado.
“Ninguém gosta, né, mãe” bufa rispidamente a detentora de toda a sabedoria do mundo. Olho para ela que parece não ver ninguém a sua volta, ou foi o excesso de maquiagem que escondeu alguma expressão.

Eu gosto. Eu adoro andar de ônibus. Até para viajar – um pouco menos, é verdade, quando não é viagem pelos meus trajetos conhecidos. Não me vejo andando de carro numa cidade. Me parece simples estupidez. Só. Cidade, pra mim, é à pé (adoro ainda mais), de ônibus ou de bicicleta. Bem, não sou “ninguém” segundo a sabedoria da moça. Fiquei pensando no que trazia a fala da mãe, pura especulação, mas, quem sabe… então ela já fora “pobre” e andara de ônibus. Ah, sim, porque ainda se associa pobreza ao ônibus em muitas cabecinhas. Como aquela imagem que circulava na internet sobre usar bolsa de marca e esperar no ponto de ônibus. Ando de ônibus e tenho bolsa até da M. Officer (estou vendendo-a, por sinal). Claro, não tenho nenhuma Louis Vitton – não acho bonitos os modelos. Nem, sei lá, nem sei as marcas direito. Mas tenho uma Nike, serve? Vejam só… você é pobre, anda de ônibus, mas tem bolsa de marca? E quem anda de carro e paga aluguel? É rico? Sei lá, gente… muita sabedoria unânime pro meu gosto.

Lembrei até de uma cena, protagonizada por um cineasta “famoso” de Florianópolis. Já viram riquinhos da cidade quando levam o carro para arrumar ou coisa parecida? Ficam perdidos. O tal cineasta saiu de uma concessionária ali no Itacorubi e foi em direção ao ponto de ônibus (aquele em frente à Oi, sentido Lagoa). Chegou ali e perguntou para uma senhora “Como eu faço pra ir pra Lagoa?!”. Ora, ora… Queria que a senhora, com sua testa franzida e olhos arregalados pela ignorância do cineasta, tivesse mandado pegar o ônibus no ponto do outro lado da rua. Claro, ele aproveitou para fazer um comentário bisonho sobre a demora. Dica: vai pra Canas, a cada quatro deles passa um Lagoa. Ah, esqueci, se você faz cinema em Florianópolis precisa morar e ter sua produtora na Lagoa. Lapso meu, sorry.

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Cheguei esses dias na academia e vi um cartaz de promoção. Adoro promoção. Diz lá que se eu colocar o adesivo da academia no meu carro, concorrerei a cem reais em compras na loja da academia.

Carro?

Já comentei o que penso sobre academias com estacionamentos lotados? Não?
Qual a lógica em ir para a academia de carro? Com tanta academia, já deve ter mais que padaria, pela cidade, jura que não tem uma perto da tua casa? Ou você precisa ir na que está na moda? Mesmo assim, acha muito caminhar, correr ou pedalar trinta minutos, uma hora, para ir à academia? Mas então por que você vai à academia?

Incredulidade me tomou. E eu que vou à pé? E quem vai de bicicleta? Nós é que deveríamos receber incentivo e não sermos privados de promoções. Quem comete a estupidez de ir de carro ganha “incentivo”?

Devo ter me perdido em alguma curva da humanidade, só pode.

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Passei uns dias lá e cá entre as três capitais do Sul do país.

Suspirei ao voltar para a Ilha e ser bem tratada aonde quer que eu vá. É o moço da peixaria, os motoristas, cobradores (lá na Brava um me disse “passa, querida” – muito amor), a caixa do supermercado, o coitado da loja de utilidades que não conseguia achar o que eu queria, o pessoal da academia, o dono do restaurante que sempre simpático me deixa usar o banheiro quando volto de uma caminhada mais longa pela praia, os motoristas que param nas faixas, o moço lindo da padaria (tanta paciência ele tem!), os novos donos da floricultura ao lado de casa.

O povo ilhéu é uma delícia. Simpático. Receptivo. Conversador. Eu, curitibana, ainda me encanto com isso. É um povo que sabe receber. Está acostumado com quem não é do lugar.

Quando atravessei a fronteira entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul pensei que é fácil entender porque Santa é eleito o melhor Estado para turismo do Brasil há anos. Facinho. Além de lindo em tantos sentidos e com tantas paisagens, para praticamente todos os gostos, é um povo que faz diferença.

Nunca me senti bem tratada no Rio Grande do Sul. Nunca. Ainda dou chance. Povo que não dá informação, que faz tudo como se fosse obrigação. Bem, se há cidades que cobram taxa para entrar e sair já percebemos a “receptividade”, né? Aliás, ao ver isso por lá lembrei da discussão que houve no verão quando a prefeita de Porto Belo disse que faria o mesmo. (lá no RS eles cobram “pedágio” que na verdade é na entrada e saída de certas cidades, porque não é, definitivamente, pelas estradas) Em alguns casos parece interessante a idéia, mas que não ajuda na sensação de receptividade, isso é.

Ah, Santa Catarina… meu coração se derrete por você mesmo nesses dias de frio e chuva.

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Aliás, que inverno longo e interminável… fazia tempo que não vivia um tão frio e tão longo.

Menos de um mês para a belíssima Primavera.

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E aí, quem sabe, não teremos mais versos aqui pelo blog. Ou teremos, mas aí dependerá da fase da lua, das mensagens que receberei, das notícias, das viagens agendadas, do compasso desassossegado do coração.

Não faço promessas. Porém, findo esse inverno, as chances de menos versos, até menos posts, ou versos mais apaixonados, são maiores.
Nada contra o inverno. Mas gosto de variar.

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Agora é esperar pra ver o que o quarto minguante me trará.

Maratona Fotográfica de Florianópolis

A pauta do blog é assim como eu, nada burocrática, coerente, certinha, planejada. É volúvel, na falta de palavra melhor. Já prometi, em alguns posts, escrever sobre coisas que nunca apareceram por aqui. Não tenho compromisso com nada e essa é a melhor parte.

Tenho ali uma lista razoável de coisas sobre as quais quero escrever e volta e meia uma pula a fila. Detesto fila. Nunca fico numa fila. Enfim.

Ocupavam meus pensamentos dois assuntos sobre os quais pretendia escrever, na verdade três, mas nenhum deles estava maduro o suficiente, ou eu não estava com tesão o suficiente e eis que me deparo com a data de hoje: dia internacional da fotografia. Olho para a pauta e lá está, desde maio mais ou menos, a Maratona Fotográfica. Então, lá vai.

Ano que vem fará dez anos que, meio sem saber, me joguei para a Ilha. E, talvez, no mês que completarei dez anos morando na Ilha seja a minha despedida. Quem sabe. Nesses quase dez anos, participei de várias Maratonas Fotográficas.

Escrevo pouco sobre fotografia. É uma paixão antiga. É um amor. É um vício. É um impulso. E nesses tempos em que ando meio econômica nas fotografias (afinal, números não me importam – a questão dos excessos era um dos posts mais cotados para hoje) é um prazer extra escrever sobre elas. Não, não vou jamais me meter nessas discussões sobre a popularização da fotografia com celulares e câmeras digitais, nem sobre o que se perde com querer fotografar e filmar tudo, nem nada disso. Sinceramente? Acho bobo. Minha relação com a fotografia vem desde muito antes disso. E na minha família fotografia sempre foi assim. Por isso também que acho bobas essas discussões. Tenho pensado tanto nas “economias” que até sobre discussões tenho ponderado se valem a pena ou não. Vejam só. Nem eu me reconheço.

Bem, não lembro ao certo qual o ano que participei da Maratona Fotográfica de Florianópolis pela primeira vez. Lembro bem quando soube da primeira (não conhecia o evento), já meio instalada na Ilha, li uma notícia sobre, até me empolguei, mas não tinha câmera na época (boas histórias sobre isso) e me deram banho de água fria (como sempre quando se trata das pessoas a minha volta – mas já aprendi a lidar com isso). No ano seguinte, participei.

E digo: foi sensacional. Aliás, digo sobre todas as vezes que participei: foi sensacional.

Desde essa primeira vez, só não participei um ano. Motivos nada nobres, num período que tentei assumir outras vidas. Não eram pra mim. Voltei.

Participar da Maratona Fotográfica é uma experiência muito especial. Eu digo que é redescobrir a Ilha todo ano em dois dias. Sim, redescobrir porque de vez em quando, desde que pus os pés decididos a morar na Ilha, sempre me atiro a vê-la, descobri-la, senti-la, vivê-la. É das top cinco coisas que mais me dá prazer na vida. Segui sempre pelos meus passos, minhas vontades. E isso é importante pra mim.

Viver a Ilha é senti-la, olhá-la. E para o fotógrafo isso é essencial. Como eu dizia no post anterior, o fotógrafo diz muito mais dele do que qualquer ator ou modelo fotográfico. Nem quando escrevo digo tanto de mim do que quando fotográfo. Sabe, eu manipulo as palavras. Eu jamais usei programas para manipular imagens. Me contento com os recursos das câmeras, meus olhares e tudo isso que está aí em volta. Não sou, claro, fotógrafa de one shot. Com a maravilha da digital é possível escolher a melhor. Mas vim dos tempos da analógica, com moeda contada pra comprar filmes 24 poses e, bem, não dava pra desperdiçar.

Sim, sou conservadora neste ponto e prefiro as fotografias sem manipulação. No que, aliás, a Maratona é exigente.

Tradicionalmente a Maratona se resume a dois dias, algumas fotos (pode variar de ano para ano, entre doze e vinte e quatro), temas (às vezes amplos, outras vezes nem tanto), uma verdadeira correria e boa disposição. Uma vez foram realmente vinte e quatro horas initerruptas. Foi a vez mais desgastante. Pelos temas você percebe algumas intenções, afinal ela é promovida pela prefeitura. Mas desde a primeira vez que tive contato com a Maratona, a idéia que mais me chamou a atenção é “ver uma cidade que não é vista”, como foi a proposta deste ano. Por isso, não se fecham os olhos para os problemas da cidade, nem só se pensam as fotografias sobre o progresso e belezas. Eis o que me parece mais importante numa proposta dessas.

Fotográfos de qualquer lugar podem participar. Câmeras de qualquer tipo. Normalmente há divisão de grupo entre câmeras digitais e analógicas, às vezes entre profissionais e amadores.

Não participo pelos prêmios (só eu, né? como dizia um personagem de um filme ontem: é o único político que não se importa com dinheiro). Adoraria ganhar, é claro. Mas o desafio, a diversão, a correria, as fotografias: isso é que me interessa. Já ganhei prêmio por foto individual quatro vezes, se não estou enganada. Para ganhar conjunto acho que só estive no páreo uma vez. Não é fácil.

Ano passado fiz uma pesquisa no acervo da fundação cultural sobre as fotografias e apresentei uma exposição num evento sobre História Pública em São Paulo. Vasculhar as fotografias das maratonas de antes é um exercício maravilhoso para quem ama Florianópolis – e fotografia. A história da Maratona é preservada e permite muitas análises sobre a cidade, a cultura. Fico muito contente que a Maratona já esteja consolidada na nossa agenda cultural. Às vezes fiquei com receio que não fosse ter no próximo ano. Felizmente ainda não aconteceu isso.

Este ano duas coisas me fizeram querer escrever sobre a Maratona. Logo no começo do ano recebi um e-mail dos organizadores (mudou o prefeito, mudou tudo) perguntando quais sugestões ou críticas eu teria para eles considerarem para a de 2013. Eis que elogiei e fiquei com receio de grandes mudanças – às vezes posso ser muito conservadora, mas aí adoro mudanças e me adapto fácil. As mudanças não foram tantas, teve pela primeira vez uma especial para a participação de crianças, e eu fui, fotografei, me diverti, aproveitei, corri. Fiquei, novamente, feliz por ganhar uma individual.

A foto que ganhou não era, nem de longe, um elogio às belezas da cidade. É uma boa fotografia, dentro do tema. Eu gosto particularmente dela por alguns motivos. Aliás, ela até tem uma história. E por isso fiquei mais feliz por ela ter sido premiada. Eis o primeiro motivo, uma foto que “denunciava” (não gosto do termo) um problema da cidade foi premiada. Em alguns anos eu percebi que isso teria sido ignorado. O segundo motivo foi que, além da já conhecida exposição em algum espaço fechado da cidade, elas foram expostas em plotagens pelo terminal de integração do centro, o TICEN. Idéia sensacional. Eu sou cada vez mais contra que arte e cultura fiquem encarceradas em salões, galerias e afins. Recebi um e-mail da organização contando que eles fariam isso, mas como estava fora da Ilha, demorei uns dias até vê-la. Qual não foi minha surpresa ao ver a minha fotografia bem no pilar em frente ao ônibus que pego para ir para casa. Ganhar as ruas é uma emoção a mais. Ver as pessoas observando as fotografias é muito bom. As coisas precisam alcançar os outros. Como muitos escritores dizem, livro não é livro se não for lido. Eu diria isso sobre todas as artes, sobre toda produção cultural – e é no que muito insisto aqui, sobre audiovisual principalmente.

Eu não colocava fé no César Souza Júnior. Mas algumas atitudes dele como prefeito são boas. Infelizmente é política, e a ação da fundação cultural tem ligação com política. Não dá pra escapar. Porém, como diz lá o Aristóteles, só depois de morto é que podemos fazer juízo de alguém. Gostei das ações sobre a Maratona, como gostei que tenham tirado a fundação do Forte Santa Bárbara para lá instalar um museu da Marinha. Por que citar política neste post? Porque minha ingenuidade ficou lá atrás e sei que essas mudanças na Maratona vieram com uma mudança generalizada na organização do órgão cultural da cidade. Devo elogios à organização e às mudanças.

Voltando às fotografias…

Nunca tive equipamento sensacional de fotografia. Não acredito que só a câmera que faz as fotos. Conheço fotógrafos medíocres com equipamentos de ponta. Conheço fotógrafos sensacionais com câmeras fuleiras. Uma vez participei da Maratona e encontrei dois colegas do curso de Artes Visuais da UDESC, eu e um outro ganhamos em individual, ao que o terceiro que não havia ganhado (e tinha um puta equipamento) disse “ah, ano que vem eu ganharei porque vou ter um equipamento melhor”. Mal sabia ele o “equipamento” que eu tinha. Não é isso que ganha. Que faz diferença, em alguns pontos faz. E só. Fotografia, diz a própria história dela (só ver o motivo da comemoração da data de hoje), é muito mais que tecnologia.

Sobre as dificuldades… bem, não sou fã de muletas. Com excessão de uma vez que tive um carro para me levar pra lá e pra cá, participei todas as vezes de ônibus e a pé. Simples assim. E, aliás, mais adorável assim. Dispenso o carro. Sim, pegando ônibus na Ilha inclusive no domingo que é o dia da entrega com horário limite. O conforto e a praticidade não ganham meu coração. Gosto do visceral. Pode parecer discurso de looser, mas, enfim, quem me conhece sabe. Eu sei. E isso basta.

Acabo um fim de semana cansativo de Maratona feliz com novas fotos, gostando inclusive das que acabo nem escolhendo para enviar. Já me surpreendi e ri muito de uma das premiadas. Porque é assim, tem que sentir, ver, fotografar. A fotografia está nas pequenas coisas.

Sobre a premiada deste ano: caminhava pela Baldicero Filomeno, voltando de subir um morro para fotografar uns temas, quando começo a fotografar o esgoto a céu aberto. Fotografo de lá, de cá. Passa um senhor de bicicleta e fala alguma coisa. Eu evito prestar atenção, como faço com qualquer um que tente gracejos e afins na rua comigo. Mas ele pára e pergunta porque estou fotografando (não, eu normalmente não uso a camiseta que nos identifica como participantes da Maratona por motivos pessoais). Eu explico. E ele me conta a história da vala. A comunidade já reclamou dúzias de vezes para a prefeitura. É completamente aberta, risco de pessoas caírem, doenças, bichos. E naquela semana a prefeitura tinha mandado o cara cortar a grama em volta da vala, mas ele tinha cortado e deixado ali, ou seja, com o vento o mato estava caindo na vala e entupindo alguns pontos. As pessoas já tinham reclamado novamente e ele, ao me ver, pensou que eu era da prefeitura ou ia denunciar. Conversei com ele sobre o tema que eu fotografava e ele ficou feliz. Disse que tinha mesmo que mostrar aquilo ali que ninguém via. Agora, senhor (não perguntei o nome dele), posso te dizer que muita gente viu. Muitas pessoas viram na galeria, viram no TICEN. E vão ver aqui.

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Fotografia é um dos amores da minha vida por isso: é tanta coisa junto. Eu gosto das coisas assim, que não são únicas, que são tantas em uma só. E isso serve também para as pessoas. 😉 Serve pra mim. Não dá pra ser só uma coisa. Nunca.

(ps: as fotos mais “esteticamente” belas que já tirei nas maratonas não foram, à exceção de uma, premiadas, e isso é algo altamente elogiável.)

Agradecimentos especiais – semana “amo todo o mundo”

Eu ia me jogar no sofá por algumas merecidas horas de descanso entre dias estafantes de atividades intensas em vários setores da minha vida. Mas, entre as muitas pernadas que dei hoje, voltando para a casa com a sensação mais plena do mundo, uma euforia contagiante, sorrindo muito além dos lábios, escrevi mentalmente um post de agradecimento.

Eu poderia agradecer pessoalmente, enviar mensagens no Facebook, e-mails, telefonemas e sms. Mas, não. Quero colocar aqui cada um que hoje eu sinto a necessidade de agradecer.

Ano passado reencontrei no Facebook uma antiga amiga, a primeira amiga mesmo da vida, dos tempos do ensino fundamental no Elias Moreira. Já faz tempo moramos pertinho mas faz tempo que não nos vemos pessoalmente. Numa conversa pelo FB, cada uma contando da vida presente quando ela me diz que não esperava me ver trabalhando com cinema, que, naqueles tempos idos dos nossos doze, treze anos, ela achava que eu seria uma escritora. Talvez a Flávia não saiba, se não sabe vai ficar sabendo por aqui, mas a companhia dela das nossas leituras de Sidney Sheldon e afins foi muito importante pra mim. Nós líamos e trocavamos impressões, comentários. Foi a primeira pessoa com quem tive essa experiência. E é uma coisa sensacional! Até hoje sinto falta, às vezes, de ter com quem comentar os livros que leio, os filmes que assisto, as séries, as pinturas e esculturas… Ela foi a primeira e uma das únicas. Quando ela me disse aquilo ali ano passado, significou tanto, principalmente porque eu estava num momento “daqueles”. Agradeço à Flávia pela companhia lá no passado, por ter sido musa inspiradora de um poema meu (inédito!) de quando eu soube que ela estava grávida e pela fé que colocou em mim, antes mesmo que eu mesma acreditasse em mim.

Porque já estou naquela idade que não mudo tanto de alma, mas tenho algumas com as quais convivo. Troco uma pela outra, algumas já velhas conhecidas. E não tem nada mais difícil na vida do que acreditar em si mesmo. Eu demorei muito pra isso (e hoje ainda não digo que acredito completamente!). Sim, também tenho uma pontinha de necessidade que os outros acreditem em mim. Senão, me considero patologicamente louca.

Agradeço à Andréia por ter sido um encontro inesperado na minha vida, com aquele jeitinho calmo, organizado, certeiro. Canceriana e paulista, tinha tudo para nunca bater o santo comigo. Mas nas nossas longas conversas de vizinhas de quarto dizia coisas que me faziam pensar e acreditar. E isso vale tanto para o mundo acadêmico (colocar criadores no mundo acadêmico é complicado!) quanto para o mundo artístico. Lembro que numa das últimas provas do curso de Cinema cheguei a usar um trecho de uma das nossas conversas na resposta! Na última vez que nos vimos no ponto de ônibus da UDESC, ela me disse algo sobre o mestrado que ribomba todos os dias na minha cabeça – e chegou ao alerta máximo nos útlimos dias! A Andréia é o oposto de mim, pequena, inquisidora, bastante estudiosa, centrada. Sempre é um choque. E choques me fazem bem. Conviver com ela é sempre construir um pedaço da vida, com pensamentos que vão longe.

Agradeço alguns professores que me fizeram amar literatura, reflexões, arte. Não quero citar todos aqui. Tinha um que sempre me provocava, lia o que eu escrevia e desdenhava só para me deixar com raiva e me levar a fazer algo melhor. Funcionava! Eles sabiam que lá no fundão tinha uma pessoa com quem eles poderiam conversar sobre as coisas do mundo, enquanto a turma fazia os exercícios de inglês ou matemática. E, bem, por tudo isso perdoavam as colas que eu passava em algumas provas.

Me dei conta de que a lista é enome! Quero até agradecer ao moço simpático da agência dos Correios que me atendeu hoje e discutiu Cecília Meireles e José Saramago comigo.

Agradeço alguns amigos, uns até nem são mais meus amigos hoje. Não guardo rancor. Não tenho ódio de ninguém. Não guardo mágoa. Agradeço um em especial, que em longas e intermináveis conversas pessoalmente e por msn levantava minha bola, acreditava mais em mim do que eu mesma na maior parte do tempo, que nunca me poupava elogios, me chamava de doida, me chamava quando precisava de alguém que tivesse criatividade e competência, que dizia que eu deveria escrever um livro. Agradeço a três “exs”, os quais também guardo os nomes, por terem me permitido ser quem eu era, em conversas sem noção e deliciosas sobre filmes, músicas e livros, sobre a vida, a política, as pessoas. Um em especial me empurrou de um penhasco e eu sei que ele faz idéia do bem que me fez com essa atitude. Até hoje lembro daquele penhasco, paguei caro, mas vale cada dia. Aliás, foi nele que fui buscar, tanto tempo depois, inspiração para dar um fogo no trabalho dos últimos dias. E a inspiração, devo dizer, foi exatamente a mesma de tanto tempo atrás! Ah, agradeço também a dois “exs” em especial, que não acreditavam em mim, não me apoiavam, me viam com os olhos da vida deles e que, por isso mesmo, foram tão essenciais para que eu soubesse o que eu queria da vida. Já disse, não guardo mágoa, nem rancor, nem nada. Foram encruzilhadas no meu caminho. Quando me vi diante de ter que escolher para onde ir, tive que abrir mão deles, mas não abri mão de mim. E essa lição foi fundamental!

Santo de casa não faz milagre, por aqui muito menos. Mas a família, acreditando ou não, sempre aguenta (e vai aguentar!) minhas decisões e loucuras. Não tenho pena deles porque sei que eles sempre aguentam o rojão, é nossas especialidade: sempre sabemos que podemos contar uns com os outros.

Agradeço em especialíssimo à Erica. Amiga inesperada (pisciana, afinal) que surgiu aí no convívio longe da faculdade. Compartilhamos muita coisa em comum, principalmente essa ternura pelas durezas e dores da vida, mas somos muito diferentes. É minha lua em sagitário. Conversas literárias e cinematográficas! Compartilhamos uma cruz em especial: acreditar em si mesmas. É difícil. Ela não acredita tanto nela quanto eu (às vezes) acredito em mim. Mas deveria. Eu acredito muito nela. Se não fosse pelo apoio, incentivo, empurrão, insistência dela, não teria feito algumas coisas que fiz. Eu teria me apoiado na preguiça, no “não vai dar certo”, na procrastinação, na dúvida. Quero que ela lembre disso quando cogitar se apoiar nessas bengalas aí. A gente até sente aquele medo de vez em quando, mas tem que ir com medo! Nunca seremos as melhores (complexo pisciano) e isso não importa. Erica, muito muito muito obrigada! Por tudo! E deixo claro: eu também acredito em você.

Agradeço àquelas amiga que não discutem livros e filmes comigo, nem dão muita bola para tudo aquilo que eu penso em fazer e ser na vida, mas que me dão momentos de diversão, fofocas, passeios e que sempre estão por perto. Porque até eu de vez em quando só preciso me distrair. Não que os outros amigos não me proporcionem isso, cada um tem suas doses certas!

Agradeço à Cleuza pelas discussões, por ela ser quem é, por entender o que é termos sempre que nos reafirmarmos a todo instante, seja pela cor da nossa pele, seja pelo nosso trabalho, seja pelas escolhas que fazemos da vida. nem acho que só temos os cursos de Cinema e Filosofia em comum. Temos tanto em comum que vivemos discutindo quase tudo! Agradeço pelos elogios de sempre, sobre fotografias, textos, comentários. Eu tenho tanto problema com elogios que guardo todos! Acho que até hoje não agradeci a oportunidade de ter trabalhado ao lado dela no documentário “Semeadura” que foi fundamental pra mim (quem me conhece sabe que sempre falo dele) e que estreitou ainda mais nossa relação. Faço as coisas porque amo. Todo mundo sabe disso. A Cleuza foi uma daquelas pessoas que anos atrás acreditou em mim naqueles momentos que nem eu entendia que eu precisava fazer isso. Também quero dizer pra ela que acredito muito nela. Muito mesmo. Acredito que nossas discordâncias são muito mais importantes do que se concordassemos em tudo. Eu, pelo menos, não cresceria e não teria pensamentos e reflexões tão desenvolvidos.

Agradeço à Jules por se dizer minha fã. Vejam só, tenho fãs. Ou fã, né. Pelas poucas mas especiais discussões, pelos elogios. Agradeço à Fran, aquela menina de lindos cabelos cacheados que é minha leitora assídua, que foi mais uma virginiana a ficar curiosa com a menina branquela que só se vestia de preto e sentava no fundão da sala. Pra Fran eu sou a vida louca que ela não tem nem teria, mas que ela se diverte acompanhando. Agradeço pelos elogios às fotos e aos textos, mesmo eu sendo uma amiga tão pouco presente. Agradeço alguns que não são assim amigos do peito, mas que o mundo me permitiu contatos aqui e ali e com os quais discuto coisas que sempre estão comigo. Agradeço alguns dos leitores assíduos do blog, como não poderia deixar de ser, por volta e meia fazerem seus comentários em off e me darem retornos inesperados sobre muita coisa que eu escrevo aqui. Vocês são demais! Agradeço até mesmo aqueles que vivem me lendo (ficou dúbio isso) e nunca comentam, só de vez em quando deixam escapar, ou nem isso. Até vocês são especiais pra mim.

Hoje, depois de mais uma missão cumprida, eu só sentia isso: necessidade de agradecer.

Citei mais especificamente as pessoas que estão por perto. Algumas nunca saberão que eu tinha o que agradecer. Mas eu sei o lugar que cada uma delas tem nessa trajetória toda. Fiquei parecendo uma grande mal-agradecida com tantos agradecimentos para colocar em dia. Não é verdade… não me julguem mal. É que em relação às pessoas sou de atos e não de palavras. Sempre as agradeci do meu jeito, com nenhum “obrigada”. Mas hoje eu precisava deixar esse jeito sem-jeito, meio tímido, meio sem graça, meio incomunicável e dizer com todas as letras.

Enfim, mereço agora aquela ida ao sofá. Mereço umas horas de descanso. Se não mereço, me darei ao luxo! Estou numa daquelas semanas “amo todo o mundo” e isso me faz um bem danado. Não poderia deixar passar a oportunidade de agradecer a quem merece, vocês que nem têm idéia do quanto são culpados por algumas coisas.

As Gerais

Eu queria escrever sobre as Gerais. Foi minha segunda ida até lá. Contudo, havia três problemas. O primeiro foi que eu não “voltei” de lá – me explico: cheguei em casa, na volta, sem a sensação de ter voltado, nem sei se isso é possível explicar porque é algo que eu senti, e um indício é a falta do mau humor que me acomete sempre que eu “volto”; o segundo era a insatisfação por ter visto tão pouco e por ter ficado pouco tempo, voltei como o sentimento de falta; o terceiro, muito mais interessante, é que meus sentimentos pelas Gerais tornou-se complexo.

Aqui não é um blog de viagens (acho que a Jules faz muito melhor lá no dela) e entendi, ao começar a escrever, que as Gerais para mim é uma questão de sentimento. Os motivos dela ter entrado na minha vida e das nossas relações tratam de sentimentos e estes, para mim, ainda são incomunicáveis. Não, eu não sei comunicar sentimentos. Felizes vocês que conseguem. Por isso tentei pensar nas observações, nos pensamentos, trato muito melhor desses.

Eu estava lá e amava e não sabia o que pensar sobre certas coisas e… mil sentimentos confusos. Foi assim. A viagem em si foi daquelas obras do Destino que fundam minha vida e sem as quais eu não saberia viver. Se 2012 foi do ineditismo, 2013 é o planejamento sem chão, o intuitivo, a fé no Destino – aquele velhinho safado. E eu só faço o que ele manda. Em algum lugar perdi medo, perdi vergonha na cara, perdi preocupações materiais.

Vou tentar elencar algumas impressões do pouco que vi das Gerais. E do tanto que não vi e achei que veria.

1. Belo Horizonte está alguns (poucos) graus abaixo do Rio de Janeiro no quesito caos. Os motoristas são muito loucos. A quantidade de ônibus pela cidade e principalmente no centro é absurda. Fiquei de cara que não há terminal de ônibus (pelo menos eu não achei nenhum e um motorista de táxi disse que realmente não há mas que vão construir – Copa feelings). A cidade é suja (e em alguns lugares o cheiro é nauseante) e ninguém parece se importar com isso. Dizem que é mania desse povo do Sul a coisa da limpeza – pois então que seja. É fácil e nem tão caro pegar táxi.

2. O povo belorizontino é barulhento.

3. O Mercado Central é fantástico. Pra quem virou cultivadora de pimentas aquilo lá é um sonho. De vez em quando dá aquela vontade de ir lá comprar umas. Ou um queijo da Canastra. Ou um pingo. Ou mais uma bolsa em couro, artesanal, daquela loja linda. Foi lá que comprei a bolsa mais linda da minha vida.

4. Não vi direito o pôr-do-sol. Ah, pois é. Essa parte foi bem difícil. O sol se põe cedo por lá. Um dia cheguei a vê-lo melhor na estrada, mas em BH (eu detesto abreviações e tal, mas voltei de lá soltando um ou outro “BH”) foi impossível.

5. Não se engane, chegar ao mirante das Manguabeiras não é tão “fácil”. Lá de cima a vista é realmente linda.

6. Aliás, conseguir informações com os belorizontinos é uma missão. Não sei se não estão acostumados com pessoas de fora (talvez não seja cidade turística, mas imagino que deva ter um bom fluxo de viajantes), mas há uma desconfiança, umas meias palavras e só.

7. Obras para todos os lados. Aquele ar “cidade planejada” passando por cima de tudo. Viadutos, trincheiras, obras faraônicas. Enquanto isso a rodoviária caindo aos pedaços e abandonada bem no centro da cidade – dizem que vão construir uma em outro lugar, mas só daqui uns dois anos. Copa feelings para todos os lados. Fiquei abismada que deixarão a rodoviária do jeito que está para a Copa. Nem uma limpeza e reforma?! Até a de Curitiba que estava bem melhor está sendo totalmente reformada. Ah, sim, vão usar aeroportos, mas para acesso às cidades históricas e toda parte mais “turística” de Minas o principal acesso é pela rodoviária. Confesso que não entendi. Aliás, a rodoviária dá aquela sensação de alerta. Aliás, eu que nem sou paranóica com segurança tive que ligar o sinal de alerta por BH. Sério. E com motivos.

8. Os entrecruzamentos das ruas planejadas é intrigante e, assim, apaixonante. Para que quadras quadradas, não é mesmo?

9. Mineiros. Não são lentos, não se enganem, meninas. São bem diretos até. Mas parece que leva tempo até você “conquistar” um – em outro sentido. Li tanto sobre a “hospitalidade mineira” e essas coisas, mas demorei para encontrá-la. Mas eu gosto de mineiros, não duvidem.

10. Museu das Minas e dos Metais. Apaixonante. Incrível. Não adianta eu tentar explicar. Você vai achando que é um museu como outro qualquer, mas ele é muito além. Sei que sou fanática por pedras e tal, mas não foi só por isso que me apaixonei. Ele tem aquela coisa que você vê bastante por lá: um avanço, uma modernidade gritante ao lado da preservação orgulhosa de uma bela História, de valorização mesmo do que eles têm pra contar. E isso foi o que mais me apaixonou pelas Gerais.

11. É assim: o novo e o velho, lindos, muito bem pensados, lado a lado. Isso muito me agrada. Um exemplo é a Academia Mineira de Letras, os dois prédios simbolizando isso.

12. Uma das primeiras coisas que vi: viadutos e estradas com nomes de escritores. Sorri instantaneamente. Nunca se perguntaram por que tantos nomes de políticos e empresários nas nossas ruas e vias? Então, eu já. Minas tem um elenco invejável de artistas e escritores. Quando vi o viaduto Murilo Rubião um pedaço da minha vida me veio à mente. Coisa que só vi lá, infelizmente. Copiem. (sim, tirei uma foto agarrando o Carlos e outra fazendo sanduíche de gente com ele e o Nava)

13. Sei que tem essa coisa dos mineiros pelo Rio de Janeiro. Consegui explicar pelo nível de caos que as aproximam. Aí reparem que BH é provavelmente a cidade brasileira mais bem localizada. Em uma hora de avião você chega a São Paulo, Rio, Brasília, Vitória. Ou em umas duas horas a Curitiba, Fpolis e outras. De BH em uma média de 500km você chega aos maiores centros urbanos do país. Para alguém assim viajante me encantei com isso. Tanto que quase segui para Vitória.

14. Sim, comi pão de queijo e queijo da canastra todo dia no café-da-manhã. Não caí de amores pelo prato típico contemporâneo que consiste em uma chapa com carne, linguiças, palmito, batata e variações. Mas foi o que mais comi lá. No Mercado Central há um bom restaurante de comida mineira (difícil de achar! me disseram que para o interior é mais fácil) gourmet. Pastéis pelo centro: 10 por R$7,90. Diz que não dá pra amar?

15. Inhotim. (um motorista MUITO louco, o Cardoso, nos levou – os ônibus saem da rodoviária todo dia pela manhã e voltam à tarde, bem pensado e organizado, mas o motorista me fez soltar palavrões durante a viagem e encolher, em alguns momentos, até o dedo do pé – e olha que sou bem acostumada com motoristas loucos) O comentário mental que me ocorreu em Inhotim: não parece Brasil. Ah, pois é. Quando vemos algo sensacional no Brasil logo corremos dizer que não parece daqui ou que parece algo dos EUA ou Europa. Complexo, né? Tudo tão limpo, organizado, genial que infelizmente foi o que me ocorreu. Eu queria um Inhotim em várias partes do Brasil. Preciso dizer que chorei ao entrar na galeria do Cildo? E que me emocionei deveras com a exposição da homenagem ao Lumière que esteve em Paris faz pouco tempo (já havia lido sobre ela e ao vê-la fiquei estarrecida). E as obras do Oiticica? A galeria dele me fez quase desistir de entrar e depois escrevi mentalmente uma associação com a vida. Fantástico. Tudo lá é tão pensado que os carros são elétricos (há carros disponíveis para idosos e pessoas que necessitam, fora essas condições é preciso pagar). E a das velas? E o modelo das casas dos franceses na África? Não, não citarei mil nomes de obras e artistas. Vão lá ver. Em alguns momentos infelizmente eu ouvi e vi atitudes de pessoas que parecem que não deveriam ir a um lugar desses, sério. E o tamboril?! Eu quero um pedido de casamento aos pés do tamboril, já me decidi. Assim: vão a Inhotim. Só isso.

16. Inhotim está cravado na cidade de Brumadinho. É uma sensação meio irreal mesmo porque há uma discrepância muito grande entre os lugares. Em BH a cissão entre “ricos” e “pobres” é gritante. A gente vê isso em qualquer cidade, é claro, principalmente em capitais, mas em BH parece que há um abismo ainda maior. Incomoda – no bom sentido.

17. Sabará. Amor. Amor. Amor. De tão lindo e de tão precário o cuidado e a preservação. Dentro da Igreja do Carmo me deu aquele nó na garganta. Era por ver o barroco (aquele dos meus livros de arte, História) ali materializado na minha frente e por perceber a dificuldade que há em mantê-lo. Pensei que um dia poderão não existir mais. E as pessoas que trabalham lá falam com amor das coisas. Os mineiros lá eram mais acessíveis. Subi o morro até a Igreja de Nossa Senhora do Ó. Fiz um pedido/promessa. Ou seja, em uns dois anos terei que voltar. Ela impressiona muito pelo tamanho, pela história e pela arte dentro. É fantástica. Todas são. E a casa do Aleijadinho? E as histórias sobre o túnel que levava da casa dele direto para dentro da igreja? Emocionante. (essa história, acerca da repulsão da sociedade da época pela deficiência do Aleijadinho me fez lembrar de uma história semelhante de um pai com seu filho lá das Sete Cidades, no Piauí) E a bancada de trabalho dele? E a Sant´Ana Mestra da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e do Museu do Ouro? A primeira pequena e com a virgem no colo, a outra imponente e com ela ajoelhada. Fiquei inebriada. E as histórias do Museu do Ouro e da Igreja do Rosário dos Pretos? Esta com sua construção pequena original e a “em construção” que foi abandonada por conta do fim da escravidão? Tantos lugares e fatos que me deixaram pensando em mil coisas – talvez por isso a dificuldade em “voltar”. Sabará entrou pra minha vida.

18. Pampulha. Se um dia foi, já não é mais tudo aquilo, né? Não sei, não me impressionou. Também nunca fui assim fã do Niemeyer. Igreja da Pampulha, de São Francisco de Assis: sensação estranhíssima entrar numa igreja projetada por um comunista ateu. Sorry, a coisa não fluiu. As pinturas do Portinari, por outro lado, são maravilhosas.

19. Sobre preços de entradas e fotografias: em Sabará tudo é um ou dois reais a entrada. Achei um absurdo. Eles precisam de dinheiro para manter as restaurações (de algumas igrejas lá se vão dez anos!), a manutenção. Postais também um real, tudo muito barato. Mesmo podendo claro que não paguei meia e comprei até postais. Na da Pampulha a mesma coisa (e também está precisando de reforma, há infiltração e tal). Eu não acho que pagar cinco reais seja um absurdo e as ajudaria bastante. Lugares como fortes e museus que têm financiamento cobram mais que isso por aí. Nas igrejas de Sabará só a dos Pretos permitia entrar com câmera (sem flash, é óbvio, quem entende sabe o motivo), a da Pampulha também não. O problema é que pode entrar com câmera, desde que não use flash, mas pela falta de respeito – RESPEITO – das pessoas eles resolveram barrar de vez. Acontecia que as pessoas entravam com suas câmeras e usavam o flash. Como eles não têm quantidade suficiente de pessoas para controlar os visitantes (ao contrário de Inhotim) resolveram proibir de vez. Isso me revolta. Claro que o babaca que não sabe usar uma câmera entra lá e liga o flash porque acha que está “muito escuro”. Na da Pampulha eu achei mais curioso porque dizia que havia “direitos autorais”. Eles disseram que há mas que o filho do Portinari não recebe. Fiquei matutando sobre direitos autorais e “reprodução”, porque afinal fotografar a pintura do Portinari não seria copiá-la, mas reproduzí-la. Achei que isso já tinha sido resolvido lá com o Benjamin, mas parece que não. Inhotim tem ingressos “caros” cerca de R$20 a R$28, mas às terças é gratuito. Sinceramente, pelo que oferece e por ser um programa de dia inteiro, não achei caro. O Museu das Minas também é algo barato, nem lembro de dois reais, mas fui na quinta-feira e era de graça. Como não amar?

20. Cuidado ao atravessar as ruas. Sério, há algo muito errado, inclusive com os sinaleiros para carros e pedestres, por lá. Ou todos estão desregulados ou eu não entendi a lógica deles.

21. Bares. Pois é, é a capital. Muitos, muitos. Mesas e mesas só com cervejas. Eu via e me perguntava: não comem? Futebol: são frenéticos por isso. Acho que a Copa lá será mais emocionante do que em qualquer lugar do país.

22. Sou uma amante dos horizontes. Ontem lia Rubem Alves (ah, esses mineiros…) e ele falava do amor dele por Fpolis citando que Minas tem mar, é só preciso saber encontrá-lo, no céu, ele diria. Pois eu digo que no céu, nos chapadões, no horizonte, nas linhas. Minas tem muitos mares. Por isso também senti falta de ir mais para o interior, ver os planaltos, ver as chapadas, ver mais serras e horizontes. Voltarei, é fato.

23. Um choque: é preciso pagar por tudo. Até pelo banheiro do shopping. Um contraponto com o item dos preços das entradas.

Vi e pensei muito mais, é claro. Nunca o bastante. Senti tantas coisas e sentimentos me levaram até lá… esses ficarão por aqui.

As Gerais fundaram em mim a sensação do complexo. Estou aprendendo a lidar com isso, mas sei que levarei algum tempo ainda. Pela segunda vez na vida ela remexeu as coisas por aqui. Desconfio que não foi a última.

Porque fugir sempre faz sentido e as cenas da vida

Dia desses ia voltar caminhando para a casa, à noite, sentindo todos os músculos do corpo – literalmente – quando decidi não voltar para casa. Outono na Ilha, vento Sul entrando forte e poderoso. Fazia frio, diriam uns. O vento é das dez coisas que mais mexem comigo. Às vezes eu tenho isso, vontade de fugir, de não voltar pra casa. E eu fujo de casa, às vezes conscientemente, às vezes não. Posso avisar ou não. Sim, já fugi ou saí sem rumo de casa muitas vezes, desde criança. Eu simplesmente saio de casa. Mas fugir e avisar não tem muita coerência, né? É que em respeito a minha mãe eu de vez em quando aviso “não te preocupa, vou dar uma sumida”. Ela já me conhece, sabe como é. Até aqui no blog já avisei que ia sumir. Às vezes deixo anotado num mural de casa que sai sem rumo, caso eu desapareça por muito tempo ou me aconteça alguma coisa, saberão o que foi. Uma amiga ainda esses dias me mandou uma daquelas imagens que circulam pelo Facebook que falava sobre isso. Aí encontrei essa e achei a minha cara. Tem até uma palavra pra me definir. (sim, também há essa obsessão por viajar)

 

tão eu, né?
tão eu, né?

 

E eis que naquela noite eu não queria voltar pra casa. Fui caminhando, passei a rua de casa e continuei… eu gosto do vento frio, ele faz com que eu me sinta viva, ele me revigora. Fui caminhando e pensando. No que eu pensava? Na vida. Tenho essa mania. Pensei em pessoas, pensei em atitudes, pensei em desânimos. Numa semana que o que mais me indignava era que eu não poderia falar com quem eu precisava. Sim, eu precisava de uma tarde conversando com ela naquele quarto de costura… e isso nunca mais vai acontecer. Nunca mais. Talvez, um dia, quando eu morrer, eu me encontre novamente com ela. Mas aqui, em vida, eu nunca poderei voltar àquele quarto. E tudo o que eu precisava era conversar com ela. Precisava ouví-la, precisava contar tudo o que me passa pela cabeça, precisava dizer como anda minha vida e ouvir o que ela acha dos meus sonhos para um futuro próximo. Enfim, eu não teria nada disso. Se eu não tenho isso, que é tudo o que eu preciso, então também não quero nada. Nem voltar pra casa. Fui caminhando e pensando. Quando as grandes coisas da vida não me interessam eu me volto para aquelas pequenas coisas que me rodeiam. E aí pensei em três cenas que eu havia presenciado naqueles dias na Ilha.

 

Cena 1

Me arrastando pelo centro, quase fui atropelada ao atravessar na Praça XV. Eu quase ser atropelada é normal por conta da atenção precária, mas dessa vez foi especial pela febre e intensas dores no corpo. Queria e precisava resolver umas coisas e comprar remédio. Tive que sair de casa. Me arrastava, como eu disse, pelo centro quando passei pela banca que vende maçã do amor e cocada. Eu amo cocada. Parei, perguntei quanto (pois é, a mão-de-vaca aqui já aceitou que três reais é um preço normal por uma cocada), escolhi uma (branca pura, please), a senhora foi pegar a sacola, eu fiquei catando o dinheiro na bolsa. Quando peguei a sacola ela disse “Obrigada, bom fim de semana pra você.” Ao que eu respondi na lata “Obrigada. Igualmente.”. Peguei essa mania faz algum tempo: sempre que a pessoa me diz alguma coisa eu respondo “igualmente”. Já surpreendi muito atendente de call center com isso, eles cumprem o protocolo com um “boa tarde” e eu respondo “igualmente”, eles chegam a gaguejar e de vez em quando até respondem um “obrigado”. Assumi pra vida, me desejou, desejo de volta – até porque se a pessoa está desejando algo de ruim internamente, vai ficar preocupada. Aí a senhora me disse “Obrigada. Quer dizer, bom fim de semana pra gente, né? (um sorriso) Nós merecemos.”. Eu sorri de volta e fui me arrastando em direção ao terminal. Ficou ribombando na minha cabeça “nós merecemos”. Eu não a conheço, ela não me conhece. E é tão fácil nos desejarmos um bom fim de semana porque merecemos.

 

Cena 2

Lá estava eu indo para um compromisso. Rio Tavares – Lagoa, entre dois lugares bastante habitados e movimentados da Ilha. Sentada no ônibus olhando pela janela, mp3 ninando. Três cavalos livres num tereno enorme (uma espécie de sítio) saem em disparada. Lindos, um todo marrom, um branco com manchas pretas e um branco com as patas mais escuras. Galoparam, galoparam, galoparam. Um luxo ainda com o ônibus em movimento como se fosse um travelling deles. Eu me senti extasiada. Um espetáculo. Ali, num dia de semana qualquer, na Ilha que tem essas belezas sem fim – para quem sabe apreciá-las. Não pareciam ter destino, não parecia haver motivo para a disparada, livres. Andar a cavalo é uma experiência indescritível e desperta os ânimos dos amantes da liberdade. A cena, tão linda quanto significativa, me voltaria à mente durante as longas horas burocráticas seguintes daquela tarde. Decidi até tatuar a palavra “liberdade”, em árabe, na mão esquerda.

 

Cena 3

Eu num ônibus novamente. Senta ao meu lado uma adolescente, snikker, calça skinny, moletom, mochila, cabelão. Digitava sem cessar no celular. Parênteses: tenho agonia com pessoas e seus celulares em lugares públicos. Faço cara feia pra quem fica falando alto no celular e não resisto – nem tento – a olhar o que as pessoas digitam nas suas mensagens. Sim, eu faço isso. Já vi muitas conversas por mensagens por aí. A maioria nessa coisa de casaisinhos bobos. Mas quando olhei a dessa menina franzi o cenho. Hein? Era assim “Talvez ele ficou chateado porque você não ajoelhou. Porque quando foi pro xangô Kamikarê a gente ajoelhou. Será que ele queria que a gente ajoelhasse?” (adendo: o nome do xangô ali não é o certo, na hora não entendi direito e não ia lembrar agora o certo) Confesso que quando li o primeiro “ajoelhou” pensei que ia rolar putaria na mensagem – já vi dessas também. Aí eu olhei de novo a menina, olhei a mensagem. Achei incompreensível. Ela estava mais pra uma adolescente fã de alguma banda de rock-pop. Que xangô era aquele? O que aquela menina andava fazendo? Sim, fiquei ali vendo a discussão sobre se deveriam ter se ajoelhado ou não e estupefata. Infelizmente tive que descer em pouco tempo.

 

Não foi uma semana fácil. Como as semanas começam aos domingos posso prever que esta próxima também não será. Ainda estou revoltada (com a morte, vejam só) de não poder ter aquela conversa. E, bem, a morte me faz não esquecer de certas coisas e datas. Imersa numa solidão imensa dispenso tudo e todos. Ao contrário do que as pessoas podem pensar, eu aprecio este estado. Aí ontem fui para o meu lugar favorito da Ilha, precisava ir lá para pensar, ver o mar, ficar só comigo. Fugi de casa. Como era sábado surgiram aqueles trilheiros de fim de semana e de loja de trekking. Ignorei-os tranquilamente. Quando vou lá lembro que já levei várias pessoas para conhecer o lugar, e que se eu levo alguém lá é porque essa pessoa é realmente muito importante para mim. Não sou dessas que vulgarizam atitudes. Aí fiquei pensando e me dei conta que todas as pessoas que lá levei não estão mais na minha vida, saíram pela porta dos fundos, não souberam honrar o valor que, um dia, eu dei a elas. A única pessoa que ainda está na minha vida e com quem lá estive foi quem me apresentou ao lugar. Eu? Eu continuo indo lá. Gosto de poder ir lá quando preciso ou quero. Já fui inúmeras vezes sozinha. Eu? Eu nunca faltei comigo mesma. Por essas e outras que a solidão é um negócio tão bom e faz tão bem.

 

Criei mundos mirabolantes, fantasiei futuros, construí diálogos. Fiquei algumas horas por lá perdida entre o passado, o presente e o futuro – o tempo, enfim. Senti falta das baleias, afinal é outono. Na hora de voltar, levantei e… os golfinhos estavam diante de mim. Sorri. Agora sim eu poderia ir embora. Minha vida é assim, eu vou esperando ver baleias, fico até chateada porque não as encontro, mas aí o Destino manda golfinhos. Nunca posso ter o que espero. O Destino sempre me surpreende.

 

Voltei saltitante e com pensamentos ainda a mil. A cigana, então, tinha razão: tudo ficaria para trás. E, sim, tudo e todos ficaram para trás. Agora é tão fácil perceber. Tudo o que aconteceu nos últimos meses foi para que o que acontecia antes tivesse fim, mas não seriam aqueles fatos que construiriam o futuro, seriam apenas meios para que as coisas novas viessem. Agora eu entendo. Ah, e não encontrei nenhum cobra coral. Isso foi o que me fez ter certeza da utilidade de muitos acontecimentos. Destino, você escreve certo com uma letra indecifrável, por isso eu demoro a entender.

 

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