Eu preciso ter uma opinião sobre tudo?

Esses dias, observando algumas coisas, me perguntei: mas eu preciso ter uma opinião sobre tudo?

Já dizem as más línguas que opinião é que nem isso ou aquilo que cada um tem a sua. Eu dizia que opinião é uma merda, justamente porque cada um tem a sua. Mas cada um precisa ter uma opinião para tudo o que acontece?

Eu tenho essa relação de amor e ódio com a internet e redes sociais. (exceção o Twitter, pelo qual sou só amores) Aí fiquei pensando que os sentimentos de amor e ódio vêm do sentimento que eu nutro pelas pessoas. Tenho extrema dificuldade com as pessoas, todo mundo sabe. A internet e as redes sociais, principalmente, são feitas pelas pessoas. Talvez seja essa a explicação.

Tanto já se falou na superexposição, no excesso de compartilhamento da vida privada, do fluxo contínuo e caótico de informações e notícias. Não vou me alongar nisso. O problema é o que se faz com isso. Nenhuma rede social, desde o sucesso, entre os brasileiros, de um inóspito Orkut, vem com manual. Você faz o que você quer com a sua vida on line – e esse é um daqueles problemas e até perigos dos quais já tanto se falou e escreveu a respeito. Eu gosto muito do Foursquare, por exemplo. É uma rede social sobre lugares e muito já salvou minhas noites e fomes. Aí sempre tem aquele que diz que é perigoso dizer onde você está, blábláblá. Mas aí vai de você ter x número de amigos (“amigos” hoje, no mundo virtual, tomou uma dimensão conceitual diferente da qual estávamos – ou eu pelo menos – acostumados) na rede e de onde mais você publica. As ferramentas estão aí, nós fazemos dela o que bem entendemos. Ou não.

Etiquetas em redes sociais também são abundantes. Eu prezo etiqueta. Sou uma pessoa que foi educada e sigo até aquela coisinha linda de colocar a mão na frente da boca quando bocejo. Etiqueta em todo lugar é bom e faz bem. Por outro lado, sou amante da liberdade. E aí as coisas complicam.

Eu posso pensar o que eu quiser acerca do que eu bem entender. Nem por isso as pessoas precisam sair por aí jogando tudo o que pensam na cara (mesmo que virtual) dos outros. Eu sempre digo que ainda bem que as pessoas não sabem tudo o que me passa pela cabeça, melhor assim. Mas será que eu sou obrigada a ter opinião sobre tudo?

Você já deve ter reparado nisso. Eis uma notícia, um fato, um acontecimento. Em poucos segundos cai na internet e… todo mundo comenta. Trendings tratam justamente disso. Acredito que uma coisa é você comentar o programa de TV que você assiste, ou o jogo do teu time, ou a morte de alguém que foi importante pra você. Outra coisa é você se obrigar a comentar coisas das quais você não tem o mínimo conhecimento ou que não te interessam em nada.

Foi assim com a escolha do Papa. Eu acompanhei pela TV, eu sou católica. A escolha de um Papa me diz respeito de alguma forma. Eu conheço várias coisas a respeito das práticas e da história da Igreja Católica porque ela faz parte da minha vida. Fiz comentários sobre o acontecimento que foi televisionado ao vivo. E eu vi comentários, piadas, idiotices sendo postadas afú por pessoas que não têm relação alguma com a Igreja, e na vida das quais existir um Papa não faz absolutamente diferença nenhuma. Vi uma protestante escrever coisas de um nível tão ignorante (e é professora!) sobre o Papa que fiquei curiosa. Dias depois a mesma pessoa publicou uma imagem com dizeres sobre não importar a religião da pessoa, mas sobre ser chato. Hein? Eu acho chato quando as pessoas comentam coisas sobre as quais não lhe dizem respeito. Ou, principalmente, sobre as quais elas não têm conhecimento algum.

Choveram comentários de ateus sobre a escolha do Papa. Achei tão, mas tão, sem noção que me esforcei por ignorar. Pô, o cara não é ateu? Por que diacho se preocupa com o Papa? Deve ser algum trauma mal resolvido, só pode. Sobre o incêndio em Santa Maria, por exemplo. De um segundo a outro todo mundo parecia amar aquela cidade lá no meio do Rio Grande do Sul. Todo mundo parecia compartilhar uma dor que a imensa maioria das pessoas sequer vai passar perto durante toda a sua vida. De uma hora para outra todo mundo entendia até de espumas isolantes e saídas de incêndio.

Isso me lembrou um pouco aquela piada futebolística sobre os milhões de técnicos que a seleção brasileira tem. Não sou nenhuma entendida em futebol, mas um dia tive que perguntar o que isso queria dizer e me parece ter uma relação próxima. Mas o torcedor, pelo menos, conhece, acompanha, entende daquilo que fala.

E é aí que mora o segundo problema. Opinião é uma coisa, proferir a sua ignorância aos quatro ventos é outra.

Opinião não é, ao contrário do que eu tenho visto, uma coisa vazia, sem fundamento, incoerente. Eu formulo minha opinião através de informações, conhecimento, que eu possuo de algo ou alguém. Fora isso, é pura ignorância – e você resvala em expor seus preconceitos, problemas pessoais e coisas piores. Se você é ignorante acerca de algo, você não é a melhor pessoa para falar sobre. Eis que as redes sociais e a internet foram contaminadas por esse excesso de ignorância. Não é nem eu ser obrigada a dar minha opinião sobre tudo (às vezes eu também caio nessa burrice), mas eu falar ou escrever idiotices sem fim. Já diziam minha avó e minha mãe que religião, gosto e futebol não se discutem. Discordo, acho que tudo é passível de discussão. Levando-se em conta que discussão não é briga e que se deve usar de argumentos. Discussões são sempre bem vindas. Ignorância não.

Então eu, alheia a futebol, vejo ali a notícia sobre o time tal que perdeu porque fulano fez uma falta clara e já saio escrevendo sobre isso em todos os lugares. É tipo aquela pessoa que quando vai conversar só sabe falar sobre as últimas notícias, sabe? (acho mortificante) Não tem assunto, não tem interesses, não tem hobbies, não tem nem as (famigeradas) especializações: gira em torno do corriqueiro.

Não defendo aqui censura às publicações até porque isso seria impossível. Cada um pode fazer suas censuras (sem seus “amigos” nem ficarem sabendo) nas redes sociais como bem entendem. Me preocupa e incomoda o excesso de ignorância presente nas tais opiniões. Eu gosto de ler as opiniões alheias. Mas opiniões, no sentido literal, que tenham conhecimento e fundamentos. Por que diacho eu escreveria sobre o que está acontecendo com os índios de não-sei-aonde sem ter conhecimento nenhum ou baseada em um vídeo que todos estão publicando? Por que diacho eu escreveria sobre a novela das oito, a qual eu nem assisto, nem que seja para dizer que acho chata e por isso não assisto? Não pareceria excessivo? Por que diacho você escreve sobre o Papa se você não é católico e existir um nem faz diferença na tua vida? Não sou obrigada a viver dando uma pseudo-opinião sobre tudo. Nem nunca fui das mais ligadas em notícias. Também não sou daquelas alienadas (nem pretendo ser) que só vivem para o seu umbigo – aquelas que é tão fácil perceber que também não têm opinião nenhuma porque não têm conhecimento sobre nada.

Sei, e já disse isso aqui, que fiz o juramento de “libertar as pessoas da ignorância” lá na Filosofia. Ainda hoje não entendo porque nosso juramento diz isso. Nós nos libertamos da ignorância por vontade própria, o que não impede que sejamos auxiliados quando temos esta iniciativa.

Já diria meu pai (que sempre deve ter achado que eu tenho muitas opiniões…) que em boca fechada não entra mosca. As redes sociais às vezes parecem tão cheias de moscas que mal consigo vislumbrar qual é o prato do dia.

Porque aquele que nunca ouviu uma música do Charlie Brown Jr ou nunca tinha assistido um programa da Hebe, ao ver a notícia das suas mortes aciona sua metralhadora giratória de idiotices e dispara ignorâncias sem fim.

Eu só diria: não se obrigue a isso. Não desfile a sua ignorância pelas TLs da vida. É chato, fica feio, a gente até desiste de ser amigo no sentido real – porque no virtual, em dois cliques, você já estará oculto. Eu respeito, porém, quem fala com propriedade de algo, concordando ou não com o que é dito. Agora, respeitar a ignorância foge às minhas forças.

Eu não preciso ter opinião sobre tudo pelo simples fato de que eu não tenho conhecimento o suficiente para isso. Nem eu nem ninguém.

Change mine

 

I was watching a movie and Redford said to his girl: You want to change the world. Change mine.

Just like that: change mine.

I´m always thinking about movie´s dialogues. I don´t know if it´s because my work or just because I love the words too. I only know that I always do it.

And then I was thinking about how many worlds I have changed. Because I´m one of those who wants to change the world. And I know for sure I´ve had changed others worlds. I´m talking about guys, schoolchildren, friends and anyone else.

So I asked myself: does anyone changed mine?

I don´t think so.

Oh, yes, some people did the difference in my life, of course. But no one changed my world.

Have I met someone who wants to change the world?

This is the right question. I´m quite sure that the answer is negative.

I need someone who wants to change the world. So this one should change mine.

I´m a little bit tired of changing others worlds. But I´ll never be tired of wanting to change the world.

I realized that I want to look into his eyes and say almost the same words of Redford: You want to change the world. Me too. But change mine first.

A velhice, o aniversário do Garcia Márquez e os exercícios do tempo

 

 

Justifico minha ausência devido a compromissos acadêmicos… ou “prazos” acadêmicos seria mais adequado. Na verdade escrevi muito nas últimas semanas, enquanto matutava sobre tantas coisas e criava aquelas pautas imaginárias para o blog. Estava com saudade disso aqui. Não daquela escrita injuriante de quem falou o que e o que eu posso dizer disso. Cansa. Cansa uma pessoa como eu tão afoita por matutar…

 

Foram algumas pautas imaginárias, textos mentalmente escritos durante os banhos… a maioria disso tudo nunca passará por aqui. Tenho um imediatismo e uma inconstância que determinam isso.

 

Mas hoje em especial algumas coisas me fizeram lembrar de uma matutação que fatalmente viria parar aqui.

 

A morte. Eu tenho essa espécie de fascinação pela morte. Eu sei os motivos. Mas não é ela que me motiva escrever aqui.

 

Lembro de já ter contado que eu e meu irmão quando bem novos tivemos a mesma idéia, de que seria melhor morrer ou matar-se antes dos quarenta anos porque envelhecer é um espetáculo para quem tem estômago. E lá na tenra idade não queríamos nos ver em decadência física e mental. Bem, ele teve o privilégio de não se ver diante do peso do tempo. Eu? Eu não escapei e tenho a nítida sensação, hoje, de que durarei muito tempo por aqui ainda e verei muitos irem antes de mim.

 

Aquela história de que somos uma máquina e que uma hora a coisa começa a pifar aqui e ali é uma baita verdade. Por isso que digo que para assistir à decadência e à velhice é preciso estômago.

 

Para quem não é próximo dos pais e avós ou é do tipo ingrato e desnaturado (não é o meu caso) o texto não fará sentido.

 

Chega aquele momento que você se dá conta que o quem cuida de quem se inverteu. Você percebe que não importa se você tem paciência ou não, você terá que fazer exercícios diários e constantes dela. Aquelas coisas que você tanto admirava neles e que te inspiraram já não são mais como antes. Os dons que eles tinham foram desmoronando e você precisa estar ali para dar conta do que eles nem lembram mais como se faz. Aliás, a memória será um espinho a te cutucar a todo momento. Eles terão certeza de coisas que nunca aconteceram, discutirão incansavelmente sobre coisas que nunca disseram. Te perguntarão dezenas de vezes a mesma coisa. O óculos? Esquecerão em todos os lugares e você vai precisar dirigir quando eles não forem encontrados, ou ainda ler as placas e preços no supermercado. Você se tornará algo assim como os olhos e ouvidos deles. E em alguns casos as pernas e braços. Aquela manha de gritar do quarto “mãe, traz sorvete?!” não será mais ouvida – e não, eles não estão te ignorando só porque querem te fazer perder a manha, eles já não ouvem mais como antes.

Você vai se irritar. Vai perder a cabeça. Vai achar que eles estão beirando a loucura e que você já deve ter se contagiado. Você vai explodir em algum momento – principalmente quando os teus problemas estão tão grandes e não há ninguém com quem contar, agora você não pode contar nem mesmo com eles – dirá coisas que não deveria, rolarão as lágrimas e um estremecimento fará com que eles se sintam culpados. Você terá a profissão de fé diária de mostrar para eles da forma mais leve possível que eles não são um fardo. E se arrependerá muito por ter deixado escapar uma frase qualquer que deu isso a entender.

Você vai mudar muita coisa na tua vida, na casa, na tua rotina por causa deles. Eles talvez nem percebam… mas você não vai jamais comentar isso. Eles vão precisar de você quando você estiver precisando de você mesmo, mais do que nunca. E você vai se colocar em segundo plano. Porque você os ama e já brigou muito com eles, já bateu de frente nos arroubos da juventude, já foi a filha rebelde e desobediente, já fugiu de casa, já deixou de telefonar – e agora nada disso mais importa: eles são tudo o que você tem. Vai ser aquele papel que ela derrubou e não conseguiu ajuntar, aquele peso que ele foi carregar e não conseguiu. Você vai se ver fazendo tanta coisa já no automático, sem nem perceber que virou parte da tua vida. Desde as menores coisas até as grandes decisões.

 

Quando eu via meus pais, achava que eles seriam daquele jeito pra sempre. O tempo, porém, foi chegando… se encostando ali, se ajeitando aqui… e chegou o dia de hoje quando percebi que eu já estou mais para o lado de lá do que para o lado de cá das manhas e rebeldias. Sabe, eu encontro um olhar que me chama para aquela fuga e na hora lembro da data da próxima cirurgia. Me peguei pensando se eu não estava usando-os como muleta para fugir de alguns chamados do Destino. Já não sei ao certo. Eu posso romper e deixá-los à própria sorte por alguns dias… e que eu aguente o estrago depois.

 

Ao mesmo tempo, eu ganhei a liberdade de ditar algumas regras. Numerar prioridades e imposições. Aí fica engraçado ver os momentos de teimosia deles e os silêncios diante da proibição de dizerem qualquer coisa sobre o que eu faço. Aliás, teimosia… e que teimosia! Só piora, definitivamente. Sim, eles vão insistir com você no A quando você cansar de dizer que é Z e aí chutar o balde e decidir pelo D. E você vai se pegar pensando: será que eu era assim teimoso quando criança? (porque aí talvez a vida tenha sentido e tudo se justifique: estou pagando meus pecados)

 

O mês de janeiro foi lindo e numa bela madrugada eu peguei um daqueles romances de banca de revista para me fazer companhia. Nunca pensei nisso de me identificar com nenhuma personagem literária, afinal não sou magra, alta e loira ou ruiva sardenta. Sempre foi mais fácil cobiçar os mocinhos e vilões. Quem acompanha o blog sabe que eu falava por aqui em fazer uma lista comentada sobre os personagens da ficção pelos quais sou apaixonada. Comentava isso com umas amigas quando uma delas disse que faria uma lista das personagens com as quais ela se identificava. Eu fiquei sem conseguir citar uma. Eis que me lembrei da protagonista desse romance que eu havia lido fazia poucos dias. Sim, eu me via nela – e não era só porque ela tinha sonhos eróticos com o Marco Antônio (e o Marco Antônio dela nem era o Purefoy). Era porque ela tinha cansado de relacionamentos que não entendiam que ela se doava para todos que ela amava e isso incluía a família, ela não podia fazer uma escolha entre ele ou a família. Aí ela só buscava sexo. Vivia com a mãe mas escondia isso e escondia a real situação de saúde da mãe. Por quê? Porque ninguém entenderia. Quando surgia um convite para um jantar ela declinava com uma desculpa qualquer porque tinha que ir correndo pra casa dar a janta pra mãe. Ela já havia desistido de acreditar que quem entrasse na vida dela teria que entrar de vez e corria o risco de não ser prioridade em alguns momentos.

 

Quando eles precisam de você mais do que quando você precisava que trocassem as tuas fraldas é que você entende a complexidade do envelhecer. Não é um envelhecer no sentido mental: eu sou velha no “modo de ser e de pensar”, várias pessoas dizem isso de mim, eu mesma digo já faz bastante tempo. É o envelhecer mecânico mesmo. E eu fatalmente lembrei do que eu e meu irmão pensávamos. Eu tenho alma de velha, mas só por agora é que a idade começou a mostrar as suas malditas limitações depois de uma sucessão de doenças. Elas felizmente passaram, mas os seus danos não. E eu não tenho mais quinze anos para ficar “nova de novo”. O pior do declínio é não conseguir aceitá-lo. É teimar em não acreditar no quadro que vê a sua frente. Para quem está ao lado neste momento é um exercício de choque e paciência sem fim. Com todas as letras e sem poesia: envelhecer é uma merda.

 

Quando eu soube que o Chorão morreu fiquei pensando que era um bom momento para falar disso, porque ele me fez lembrar, por vários motivos, meu irmão. Mas aí lembrei que hoje era aniversário do Gabriel Garcia Márquez, dia seis de março, mais um ilustre pisciano. Gabriel que me levou pela mão numa literatura difícil, desconhecida, apaixonante e que, posso dizer, mudou um tantinho a minha vida para sempre. Pouco conheço da vida dele, pouco li a seu respeito ou vi entrevistas. Amei as suas histórias com devoção de amante casta. Me entreguei a elas. Hoje, quando faz oitenta e tantos anos, Gabriel está senil, com algum tipo de doença degenerativa. A vida é uma merda. O homem que escreveu aquelas doçuras, que fez e faz parte da vida de tanta gente, que abriu horizontes de quem ele nem faz idéia, está vivo mas não pode mais, mesmo que a cabeça quisesse, escrever suas histórias. A idade, a velhice, a decadência chegam para ficar. Lembrei também do belíssimo filme E se vivêssemos todos juntos, francês. Delicioso, agridoce, pueril, doloroso. Nunca antes eu havia me visto rindo e chorando ao mesmo tempo durante um filme. Eu ria, eu chorava, eu me angustiava… não se escapa da morte, mas podemos escapar do fim despedaçante com a morte.

 

A morte nos poupa de ver tudo se esvaindo… de ver quem fomos ruindo aos poucos diante de um eletrocardiograma ou de um aparelho para surdez. A morte é aquele ponto final digno para a indignidade que nem dá mais para chamar de vida, em alguns casos. Por essas e outras que acho digno o suicídio. E quando alguém vem com aquela “tanta gente lutando pela vida e tem quem se mata” eu nem respondo, só penso cá com meus botões: lutando por qual tipo de vida? Lutando por quê? Se não morrer hoje, morre amanhã. O suicida toma as rédeas desse caminho sem volta. Não tem volta, mas tem fim. E o fim é nobre. Muito mais nobre do que chutá-lo raivosamente ou espernear diante dele.

 

É pensar no fim que torna tudo tão mais difícil e complicado. Você tira paciência e tempo sabe-se lá de onde, você esquece as horas de sono, você troca teus programas… porque o que te move é mais forte… e é isso que te impede de pensar no fim. Porque você sabe que tem a recompensa daquele sorriso quando você lembra de um detalhe que eles sentem falta, porque você já os conhece tão bem que nunca erra nos mimos, porque dar presente não precisa de data e parece tão natural pensar neles antes de pensar em você. Será que ser mãe é assim também, mas com muito mais angústia? Tudo me apavora. Mas eu sempre vou lembrar de trazer uma bomba de chocolate, umas sfihas, uns doces de damasco, dar um tênis de dia dos pais, comprar todas as corujas que aparecerem pela frente e lembrar das xícaras e chaveiros para a coleção. Só porque descobri que ser filha é muito mais do que eu imaginava.

 

 

Liberdade de Expressão – liberdade se vive

Eu já devo ter citado por aqui em algum momento uma frase que segue comigo já faz bastante tempo, desde o dia quando encontrei-a nas páginas de um livro que vagava solitário lá em casa.

“Posso não concordar com uma palavra sequer do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-las.” Sim, é Voltaire.

Quando li essa frase naquelas páginas, vivia uma adolescência conturbada, violenta, sofrida, agressiva, idealista, sonhadora, indagadora e muito contestadora. As pessoas já naquela época não me suportavam, não gostavam dos meus questionamentos, das minhas opiniões e muito menos da minhas observações acerca das coisas (e das pessoas) que eu via/ouvia. Naquele tempo, eu já me debatia entre as palavras no papel. Lembro de, no dia da Liberdade de Expressão de algum ano perdido no tempo (agora nem sei dizer em qual dia e mês ele é comemorado, mas procurem e verão que ele realmente existe), ter escrito algo entre a poesia e o desabafo. Sei que essa criação ainda existe, mas encontra-se distante de mim no momento. Hoje ainda algumas dessas pessoas têm dificuldade com o que muitos já chamaram de “personalidade forte” e que eu em alguns momentos preferi definir como voluntariosa. Daí já surge uma baita dificuldade de convivência comigo. Não tem que “compreender”, “aprender” ou “respeitar”. Tem que viver a liberdade.

Liberdade é assim. Você diz, pensa, faz o que bem entende. Eu também. Liberdade a gente vive. Escrevendo “o que bem entende” agora lembrei do Mill. O teu limite acaba onde começa o meu. Claro que tem tudo a ver com a liberdade. E no nosso mundo essas duas coisas vão parar lá nos códigos e leis.

Se bem me lembro já escrevi aqui sobre censura. Lembro porque houve uma história bem recente acerca de censuras nas redes sociais e, imaginem, aqui no blog. Eu já me auto-censurei por aqui devido a motivos poucos nobres. Não era para proteger ninguém, era para me proteger.

Indignação define.

Eu não digo a nenhum de vocês o que devem ou não publicar nas suas redes sociais, nos seus blogs, o que devem falar, o quanto ou como (e até em qual tom). Ah, mas vejam como a linha é tênue. Vocês vêm me dizer o que eu posso, o quanto, escrever, falar. Vocês têm, segundo a frase do Voltaire, todo o direito de dizer. Mas eu vou permanecer no meu direito de ignorar as censuras de vocês. Vocês não concordam com uma palavra do que eu digo, nunca esperei nem espero isso. Aliás, até prefiro que não concordem. O dia que alguém concordar com tudo o que eu penso/falo/escrevo vou me sentir muito mal. (lembrei do Nelson Rodrigues, é claro) Mas daí vocês virem me censurar, devo lembrar o Mill. O seu limite acaba em não concordar comigo, o meu começa em ter a liberdade de poder falar/escrever/pensar o que eu bem entender. Viram como é fácil juntar os dois?

Até porque não vejo vocês seguirem toda a frase do Voltaire, ficam só ali na zona de conforto de não concordar, mas jamais lutam pelo meu direito de dizer o que não lhes agrada.

Não vejo em mim maior dificuldade de convivência do que nesse tipo de pessoa. Se é difícil aguentar alguém que diz/escreve/pensa o que bem entende, daqui parece-me impossível, impraticável, conviver com quem censura os outros. Não serão, jamais, aceitas censuras. Em nenhum nível de relacionamento. De nenhum tipo. On ou off.

A rede social é minha, faço o que bem entendo nela. O blog é meu. A vida é minha. O corpo é meu. Antes disso tudo encostar no seu, será sempre meu.

Conviver, dizem, é essa via de duas mãos. Por isso tem tanto casal infeliz, tanta gente mal humorada, tantos corações rancorosos, tanto mais rugas do que sorrisos.

Hoje ainda me perguntei porque as pessoas, ao responderem “quem você é” (perguntinha básica de perfis sociais), elencam profissão, diplomas, méritos, posições, cargos, títulos. Você é os valores que você vive. Mas a maioria só consegue se definir por pedaços de papel com carimbos e assinaturas. Ou pelo contra-cheque.

Não entendo ainda o que querem dizer com “personalidade forte” ou “geniosa”. Só sei que as pessoas assumem um tom pejorativo quando falam nisso. A boiada está aí para quem quiser seguir. Desconfio de muitas coisas e mais ainda de muitas pessoas.

Tenho até a forte desconfiança de que quem mais censura (esses que não conseguem ver alguém dizer/escrever/pensar algo que não é corrente com o que eles dizem/escrevem/pensam) é justamente quem mais se auto-censura, quem mais se projeta sendo alguém que, definitivamente, não é. E faz isso por causa dos outros. São, normalmente, os que se preocupam demais com a opinião dos outros a seu respeito, que projetam imagens de um “si” que gostariam de ser – e, invariavelmente, não seriam se seguissem suas aflições, seus entusiasmos, seus prazeres, medos e ideais. Porque a liberdade está ainda mais presente nas ações. Quem não assume sua liberdade para “ser” jamais conseguirá entender quem o faz.

Em honra ao patrono do blog, eu que não sou das mais fãs de citações, deixarei mais uma das minhas (pouquíssimas) favoritas. Obviamente ela já deve ter aparecido pelo blog em outros momentos.

“Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.” (Fernando Pessoa)

Casais e azeitonas

 

 

Eu nem sei o que foi exatamente que me fez pensar nisso tudo. Não sei se foram as azeitonas, alguma conversa truncada, aquela cena daquele filme, a novela, a passagem daquele livro.

As pessoas jogam jogos entre si. Parece que, segundo alguns, faz parte da conquista. Não gosto de perguntas. Não gosto de me sentir num interrogatório. Às vezes acontece.

Assisti dois capítulos de dois seriados que começaram suas segundas temporadas agora e fiquei analisando que, ao que parece, não sou só eu que penso como penso sobre relacionamentos. Casais não são felizes, como dizia um personagem de um deles.

Aí fiquei matutando sobre várias coisas. (e o post que estava para sair era sobre os dados da ANCINE e sobre como o brasileiro não assiste aos filmes nacionais – ou sim – e esse furou a fila) Liguei a TV para não perder a hora da novela das 18h (a melhor novela da Globo dos últimos tempos) e fui lavar a louça. Passava Malhação. Um casalzinho em crise. Eu me perguntei: essas crianças sofrem tudo isso mesmo? Sério? Ou é só na TV? Uma choradeira, gritos, promessas, te amos pra cá e te odeios pra lá. Pensei cá com meus botões que não posso esquecer de ensinar minha filha a nunca jamais sofrer por “amor”; definitivamente há coisas muitos mais importantes, sérias e dolorosas na vida. Definitivamente. Não posso esquecer. Vai que ela acredita nessas coisas que passam na TV. Aí juntei um capítulo de série aqui, outro ali, um filme acolá… lembrei da teoria da azeitona. Diz lá um personagem que o sucesso do casal está garantido se um amar azeitona e o outro odiá-la. No decorrer do capítulo (ou no seguinte), descobrimos que o tal casal que formulou a teoria na verdade se enganava. No primeiro encontro ela perguntou se ele gostava de azeitona ou se ela poderia pegar as dele. Ele disse que não gostava, só para que ela pudesse pegar as tais azeitonas. Eis que ela “confirmou” sua teoria sobre as azeitonas e ali provavelmente apaixonou-se por ele. Quando ele contou isso para o amigo, confessou que na verdade adorava azeitonas, mas nunca tivera coragem de contar para ela.

Casais são assim, vivem mentiras, vivem enganações. Diriam os chatos que, na verdade, cedem, ambos, um pouco ali, um pouco aqui. (nem pense em falar algo como “ah, mas há ‘afinidade'” – isso é palavra pra reality show) Eu até concordaria. (um momento para pensar em qual época da minha vida eu concordaria com isso) Não. Eu não concordaria.

Era sobre isso que fiquei pensando esses dias. O mais difícil, para as pessoas, é ser quem elas são. Sem invenções, sem mentiras, sem azeitonas, sem projeções para os outros. Um amigo comentou no Twitter um dia sobre as pessoas que se descrevem assim “sou eu mesma/sou assim do meu jeito/bobagens-sem-tamanho-e-sem-fim” e até quando iríamos ver isso. Até sempre. Damos ênfase a isso, somos quem somos, talvez esperando que as pessoas nos “aceitem” como somos. Vai entender porque alguém tem que te aceitar, mas, enfim, fica para outro post.

Porém, me surpreendo ao ver que, de fato, as pessoas não querem ser “aceitas” por quem/como são. Elas se fantasiam daquilo que você supostamente (invariavelmente se baseiam nas suas respostas e atitudes, até naquelas figurinhas com frases edificantes que você posta no Facebook, quem sabe – nas músicas que vocês ouve, o curso que você fez, os autores que você cita (ou deixa de citar), os filmes aos quais você assiste, sei lá, até a comida que você come) quer/espera de alguém. Por isso os interrogatórios, por isso observam teus passos, teus posts, tua vida, o tempo todo. O tempo todo.

 

Há quem pense que precisa disso tudo para conquistar alguém. E, realmente, às vezes funciona. Só, garanto para vocês, não dura. Ninguém esconde quem é (viu só?) o tempo todo. Você pode conquistar aquela menina ao puxar assunto sobre o filme que você sabe que ela adora (você ouvi-a comentando com a amiga, lembra?), convidar para aquele barzinho onde tem uma batata flambada que te contaram que ela é fã. Isso nunca será o suficiente. Antes de procurar a chance de despir-se das roupas para tentar encontrar mais coisas “em comum”, dispa-se das fantasias que você mesmo criou para ela. Não há garantia nenhuma de que ela ficará com você só porque você está sendo sincero – aliás, a sinceridade nunca é bem vista num relacionamento, prepare-se para o pior.

 

Eu já não tenho mais paciência para essas coisas. Aliás, nunca tive. Mas, sabe, a gente perde tempo na vida de vez em quando. Aí já digo que estou velha demais para perder tempo na vida – coisa, aliás, que sempre detestei. Não me dou mais ao luxo de perder tempo.

 

Nunca tente descobrir o que me atrai, o que me interessa em alguém. Como já não perco mais tempo com esses joguinhos, sei ser bem direta. Direta. (ah! o doce veneno da espontaneidade! – o que me faz lembrar que fiquei feliz pra caramba ao ter a palavra “veneno” tatuada na pele!) Nada de rodeios, invenções, perguntas. A vida torna-se bem mais simples quando a gente aprende com ela. Ou, até mesmo, quando apreendemos as coisas no ar. Veja só, poderia ser até com a Malhação. Seria o cúmulo da felicidade ver um adolescente perceber a bobagem sem tamanho de lágrimas e gritos porque o namoradinho dos teus quinze anos te traiu e você “nunca mais vai querer sofrer assim na vida” (foi uma fala da personagem).

 

Casais não são felizes. E dizia esta personagem que isso acontece porque eles não conversam e realmente ouvem um ao outro. Quem fantasiou-se para o outro jamais conseguirá fazer isso, serão sempre papéis sendo interpretados. Será sempre aquele desejo louco de comer azeitonas e não poder fazê-lo porque ele interpreta “the one” para ela segundo uma teoria (não vou jamais criticar teorias! tenho cá as minhas… eu não vivo sem elas, mas elas vivem sem mim). Isso me fez lembrar Sex and the City e o Mr. Big, ainda esses dias lembrei do filme porque fui assistir filmes em preto e branco na cama. Felizmente não tenho nenhum Mr. Big para supor genialmente que uma TV no quarto seria o supra sumo da felicidade de casal – tudo isso só porque… bem, assistam lá ao filme, ou leiam um outro post onde eu comentava isso.

 

Por falar em azeitonas, tenho uma relação esplêndida com elas. Quando criança era de atacá-las puras. Fiz a festa em uma feira na Argentina uma vez, eu e meu avô. Mas do nada fazia cara feia quando as encontrava numa salada, num prato. Nunca como azeitona na pizza. E já me perguntaram “mas você não gosta de azeitona?”. Veja bem, a resposta não é assim tão fácil. Eu ataco azeitonas no vidro na geladeira, assim, do nada. Porém, tenho uma indicação de receita na qual elas são protagonistas. Tentarei fazer ainda essa semana, se sobrar alguma no vidro. Se for para levar as respostas em conta, as minhas nunca são tão simples que caibam num “sim” ou num “não”. E, cuidado, transbordo espontaneidade e sinceridade – coisas que a humanidade abomina. Se eu quisesse interpretar algum papel, me dedicaria à vida de atriz e ganhava dinheiro com isso.

 

 

Eles são machistas, mas elas…

 

Chega a família, as mulheres colocam os pratos na mesa, alguns homens se revezam para servir as cervejas, todo mundo come, aí já começam a sair da mesa, as mulheres vão tirando os pratos, levando pra cozinha, umas ajudam as outras, uma começa a lavar a louça, a outra vai enxugando, outra guarda o que restou na geladeira. Enquanto isso, na sala ao lado, os homens continuam bebendo suas cervejas e vão preparando uma rodada de um jogo qualquer, ou ligam a TV num jogo de futebol, ou colocam as cadeiras lá fora para continuar a conversa. As crianças vão para um lado, as moças, obviamente, estão na cozinha onde rola aquele papo fofoca de família (Sabe a fulana?! Não tá mais namorando! E o bebê da fulana?), troca de receita, comentários sobre a novela. Os rapazes vão jogar videogame, ou futebol, ou assistem alguma coisa na TV.

 

A cena, infelizmente, é muito comum. Não sei se eu que vim de uma família um tanto rebelde e nem um pouco machista. Não sei e não entendo os relacionamentos de hoje em dia. “Hoje em dia” até parece estranho, porque parecem de algum século passado perdido no espaço. Eu não vi machismo na minha família. Não vi porque não havia. Tanto que é algo bem difícil de eu identificar por aí, e foi difícil nomeá-lo quando fui entender do que se tratava. Também não sei porque as pessoas se ofendem quando eu faço meus comentários sobre casamento. Mas, novamente, os farei.

 

A cena acima descreve a forma como muitos de nós fomos criados. Eu vi essa cena em famílias próximas. Eu comento sobre casamentos porque devo ter sempre achado os dos meus pais e avós um escândalo perto dos casais que eu vejo da minha geração. Falei em machismo, mas não vou deixar de citar os casamentos em que a mulher é dominadora e manda e desmanda em todos. Aquele tipinho de mulher (que normalmente casou por algum tipo de interesse, que não seria grandes coisa na vida não fosse pelas benesses do casamento, que manipulou o coitado até antes dele saber que se interessaria por ela) que é ruim, que mantém um frouxo no cabresto. Se tem mulher que se anula diante de um marido machista e babaca, há, também, aqueles homens bundões e frouxos que colocam o rabo entre as pernas diante de uma mulher autoritária.

 

E eu que não vejo um casamento nem de um jeito, nem do outro? E eu que vejo as casadas e casados a minha volta só reproduzindo essas situações e clichês?

 

Uma vez, na casa de uma pessoa, aconteceu a cena acima. Eu me neguei a ir tanto para um lado quanto para outro. Aquilo reproduzia o quê?

 

Em casa minha mãe sempre fez de tudo. Meu pai também. Bem, meu pai nunca cozinhou, é verdade. Até agradecemos que ele não faz isso! (Reza a lenda que na lua de mel ele foi fritar um ovo para ela e não deu certo!) Mas meu irmão sempre fez. Meu irmão lavava roupa, cozinhava, lavava louça e até brincava de boneca comigo (se eu jogasse futebol antes com ele, e caso não brigássemos durante o jogo). Lá em casa a coisa sempre foi igual pra todos. Eu sempre tive mais amigos meninos do que meninas. Aliás, sempre achei menina chata. Fomos criados sem frescura, é verdade. Mas eu nunca na minha infância/adolescência estive diante de situações que me fizessem ver que meu irmão era diferente de mim só por ser menino. De vez em quando, na casa de alguém, em alguma situação extraordinária, alguém soltava uma “ah, mas vocês dormem aqui, os meninos lá”. Esse tipo de segregação, como se meninos de dez anos não pudessem dormir no mesmo quarto com meninas. Eu dormia no mesmo quarto que o meu irmão. Aí uma vez veio o papo de que ele agora era mais velho, então não poderia dormir mais no mesmo quarto. Hein? Minha mãe sempre dirigiu, sempre trabalhou. Se precisava fazer alguma coisa em casa (trocar lâmpada, essas coisas de “homem”) e meu pai não podia ou estava viajando, ela fazia. Por um tempo é claro que as coisas eram divididas. Cada um de nós fazia a sua parte. Eu limpava a casa, lavava roupa, cozinhava. Eu e meu irmão ajudávamos o vô e o pai a arrumar o carro. Tinha que carregar geladeira, lá íamos nós. Eu aprendi tanto as “coisas de menino” (que os meninos de hoje nem têm idéia) quanto as “coisas de menina” (que as meninas de hoje cada vez mais têm ojeriza mas quando casam são obrigadas a fazer).

 

Talvez isso seja a causa de tanta dificuldade diante das coisas que eu vejo. A maioria das hoje mulheres da minha geração não sabe nem trocar o óleo, não abre um vidro de conserva, não troca um chuveiro, nem sabe fazer consertos simples num computador. E a maioria dos (supostamente) homens da minha geração não lava louça, não sabe como segurar uma vassoura, não sabe fritar um ovo. Ah, o pior: eles também não sabem trocar o óleo, nem arrumar um chuveiro ou consertar alguma coisa que quebra em casa.

 

E aí tenho ouvido com frequência na TV uma coisa que me lembrou tudo isso. Homens dizendo (na ficção e em programas documentais) que quer casar pra mulher cuidar da casa, dos filhos, da família, dele. Quando a situação é abastada, eles fazem cara feia (e até mesmo proíbem) que elas trabalhem fora. Se a situação é meio remediada, eles exigem que elas trabalhem fora – com a condição de que continuem cuidando da casa, da comida, da roupa…

 

Sabe aquela história de que o cara casa pra substituir a mãe, com o bônus do sexo? Pois é. Pior é que dizem que com o casamento o sexo diminui (se fossem sinceros diriam que acaba). Nunca fui casada. (uma prece de agradecimento a todos os santos e a mim) Conheço muitos casais. Vi amigas casarem. Vi amigos casarem. Vi descasarem.

 

Uma amiga me dizia, na minha primeira visita à casa dela, já então no famoso “morando junto”, que ela trabalhava, ele também, mas ela chegava em casa, fazia a janta e ele esperava que depois da louça ela estivesse linda, cheirosa, sorrindo e com as pernas abertas. (palavras da própria) E ela me disse que teve que bater a real pra ele que a coisa não seria bem assim. Ela deve ter percebido a minha cara, por isso veio com aquela conversa de que já estava mandando nele, que mandava fazer uma coisa ou outra. Realmente ela (ariana…) era do tipo manipuladora, faz com que ele acabe fazendo o que ela quer. Quem é que aguenta uma ariana reclamando, né, gente? O cara corre fazer tudo o que ela quer! E não adianta, porque logo ela vai reclamar de outra coisa.

 

Aí vejo casados que se orgulham de te contar algo e acrescentam “mas ele/ela não sabe”. Oh, wait! Eu, que sou uma reles amiga (ou às vezes nem isso!), sei de algo que a pessoa com quem você divide a cama não sabe?!

 

Agora não entendi mais nada!

 

Não foi um casado só que vi fazer esse tipo de confidência. Não foi só sobre traição. Às vezes uma bobagem qualquer. Ela não contou pra ele, ele não contou pra ela… mas tem umas dúzias de gente por aí que sabem. Ao comentar com um ex que eu prezava muito a sinceridade e que não consigo fugir disso quando falo com as pessoas (olha, pra dizer a verdade, nem tento fugir!), ele disse que sinceridade era bom, mas numa certa medida. “Certa medida”? Sinceridade não tem medida, meus caros!

 

Vejam só, o cara cozinha, tem idéia razoável de limpeza e responsabilidade com a casa, é bom filho e tal. Tu não consegue considerá-lo machista. Mas aí tem aquele momento que ele solta “ah, mas é que é papo de homem”. Hum… o alerta acende. Ele não pode sair com você e alguns amigos porque rola papo de homem. Bem, penso cá com meus botões, esse coitado não sabe que tipo de conversa eu já tive e ouvi na vida. Aí, um dia tu encontra filme pornô no computador dele. Não, não tenho absolutamente nada contra pornôs e putaria. Não nego que assisto putaria na TV desde os primórdios da minha adolescência e via escondida as revistas de mulher pelada do meu irmão (eu até escondia em lugares menos óbvios depois que a minha mãe pegou a primeira vez, meu irmão não era bom em fazer coisas escondidas – ele sabia que eu via, porque depois eu mostrava pra ele onde estavam), não nego que gosto, me divirto e assisto mesmo. Pornô é coisa de macho? Pára, né. Também leio os romances de banca de revista (mas, please, os que têm mais sacanagem!). Todo cara que me conhece sabe disso. Já disse aqui, não foi à toa que me chamavam, pelas costas, de pervertida e coisas afins. Não me incomodo. Tenho interesse no assunto, acho até saudável, não sou do tipo viciada (sim, tem quem é), me divirto! Aí o cara está contigo sabendo disso e tem pornô escondido no computador? Lá vem a explicação, rolou aquele “papo de homem” com o primo, este indicou um site e ele foi lá baixar alguns. Hum… mas não para assistir comigo, é isso? Porque isso não é coisa pra mulher. Isso não é coisa pra namorada. Bem, quando eu convidava pra assistir o privê na TV comigo, resmungava, recriminava e virava pro lado pra dormir. Lava, cozinha, limpa, é um doce. Mas assiste pornô escondido porque é coisa de macho? Não tem desculpa.

 

Essa coisa de “papo de homem”, gente. Não dá. Sério, os homens não fazem idéia do que eu posso chamar de “papo de mulher”, né?

 

Não entendo. Sabe o que falta nesses relacionamentos? Cumplicidade. E eu tenho isso aí em altíssima conta num relacionamento. Eu traio meu marido, conto pra todas as amigas, ele me trai, conta pra todos os amigos e… isso é casamento?

 

Ele trabalha, chega em casa, no máximo lava a louça de cara feia enquanto eu tenho que cozinhar, lavar roupa, limpar a casa, trabalhar para ajudar nas contas e… isso é casamento?

 

Aí você tem que ouvir que eles devem entender você e fazer o esforço de dormir de conchinha porque é disso que elas precisam. O diabo dormir de conchinha! Sou mulher e sou bem espaçosa na cama. Tem conchinha não. Tem momento de carinho, cafuné, sexo, tudo beleza… mas daí a achar que se lavar a louça e dormir de conchinha eles estarão fazendo o que uma mulher espera é demais. Quer dizer, muitas devem se contentar com isso.

 

Não sou contra casamento. Por um único motivo: vi que existem casamentos lindos. Eram outros tempos…

Casamento pra mim tem que ser de igual pra igual. Não tem que ter a questão financeira no meio. Tem que ter, acima de tudo, cumplicidade. Se você é mais cúmplice da tua amiga ou da tua mãe do que do teu marido ou esposa, alguma coisa errada tem. Não tem “papel” no casamento, você é o homem, eu sou a mulher. Tem que casar porque ama e só. Eu queria ver mais casamentos bonitos, mas cada vez que vejo um “fulano noivou” no Facebook (aliás, gente, estamos na primeira semana de janeiro e já foram vários!) eu perco as esperanças.

 

Como criticar os homens com seu machismo se as mulheres se rebaixam a fazer o mesmo papel? Queimaram sutiãs, se dizem independentes e donas do nariz mas não passam de amélias (ou empregadas dos seus respectivos, ou mães)? Como? Tem muito homem errado por aí, do tipo que vai jogar bebendo cerveja enquanto ela lava a louça, do tipo que não lava uma roupa e só casa porque vai sair da casa da mãe e precisa que alguém faça isso (e muito mais) por ele. E elas? E ela que se permite ir lavar a louça enquanto ele enche a cara? E ela que casa mesmo sem muita vontade? Ah, só um detalhe: não estou falando de pessoas de baixa renda, nem de pessoas de pouca instrução. Não mesmo! O detalhe não é à toa, falo de todas com, no mínimo, graduação completa. Todas em boa ou muito boa situação financeira. Tem gente que acha que isso é crítica a essas “pobres”, enquanto não olha o próprio umbigo. Ou a própria unha, feita na manicure paga do seu salário, lascada enquanto fritava linguiça pro maridão.

 

Pra você que só reclama: há dor e delícia

 

Não é novidade alguma para ninguém que gosto muito de Florianópolis.

Vim pra cá praticamente sem conhecer a cidade, com uma mala com roupas e uma caixa com livros. Dezoito anos na cara, matriculada em duas graduações e sozinha. Não me faltou coragem, não me assustaram nem a solidão nem as responsabilidades e decisões. O pouco que eu conhecia da Ilha tinham deixado uma impressão forte de quando menina: a beleza natural. E, bem, já um pouco mais velha, eu pensava que se num lugar tão lindo (isso só do pouco que eu conhecia) ainda havia a oportunidade daquilo tudo que na época eu sonhava e traçava meu destino, melhor ainda.

Também não é novidade alguma que eu gosto muito de praia, talvez pelo costume de frequentá-la desde antes de fazer um ano, talvez pela alma que se encontra à beira-mar. Gosto da natureza, de cachoeiras, de morros altos com vistas lindas, do meio do mato, de árvores e flores. Isso sempre foi assim, me sentia criada no meio do mato quando abria a janela do quarto e via a goiabeira e um pé de fruta do conde, lá embaixo as galinhas e patos livres pelo quintal. Vivi sempre num mundinho a parte, com meus brinquedos e as histórias e personagens que eu criava. O elo com a realidade era a mãe, sempre por ali, e que tem papel definitivo em quase tudo o que sou, e em muita coisa que gosto, como esse apreço pela natureza.

Bicho do mato como me sinto, não nego ter nascido onde nasci e sempre gostei de cidade com opções. Naquela época eu olhava para a Ilha e via isso, um deleite natural com cara de cidade grande. E aí, me senti em “casa”. Eu sei, não sou só uma e não vivo em um só lugar. Por isso vivo para lá e para cá, com aqueles meses sagrados no meu reduto (que de cidade grande não tem nada).

Eis que estava na Ilha sem ter sido ela nunca um objetivo em si, sonhada ou idealizada. Mas ali estava e ali eu vivia. Viver, no sentido mais doce e amplo. Soube aproveitar tudo o que ela me oferecia. Quantas vezes, ao chegar no CFH e ter uma notícia de falta de professor não olhei para as amigas e disse: vamos pra praia? Quantas vezes num dia de folga de aula ou faltando aula não subi um morro desses aqui em volta? Quantas vezes não fui ensandecida a um bazar de shopping fazer compras como se não houvesse amanhã? Foi tudo e foi muito.

Não sou daqui e nem me sinto de lugar nenhum. Posso, amanhã, ir para qualquer lugar. Ainda não fui porque me sinto contrariada em sair de onde gosto tanto e de estar nas proximidades de quem é importante pra mim. Afinal, a BR 101 é aqui ao lado. Sei que é bom ampliar horizontes e blábláblá. Nunca me neguei a isso. Nem me nego. Mas ao chegar aqui tão sem planos concretos, hoje vejo traçados para o futuro coisas das quais não posso fugir pelo traçado que já vivi até agora. E assim se faz.

Tudo isso convive conscientemente comigo. Nas últimas semanas, certos eventos fizeram tudo ficar à flor da pele. Já conheci algumas características da Ilha e de quem vive aqui. Já escrevi sobre isso inúmeras vezes. Sei que é impossível impedir o crescimento, mas acredito possível impedir muitas das suas nefastas consequências. Sei que sempre pareço saudosista. Não acho, porém, que seja o caso.

Há uma canção da Shakira que diz que para falar de dois é melhor começar por si mesmo. E acredito que para poder falar sobre qualquer coisa, preciso dizer de onde estou falando (coisas que a academia fazem você perceber ainda mais) e por isso começo sempre por dizer quem escreve aqui, de onde, por quais olhos.

Meu discurso representa aquilo que eu estou o tempo todo formando como “eu”. Não nego isso e prefiro deixar bem claro.

Fazia algum tempo que não explorava uma determinada região do Campeche. Sabia que numa rua havia acesso para uma trilha, como há tantas pela Ilha. Resolvi, naquele dia, ir até lá. Quanto tempo havia passado? Uns três anos, provavelmente. Mas sou frequentadora da região e fui direto por onde eu achava (resquícios da memória, obviamente) que era a entrada para a tal trilha. Eis que logo na estrada de uma rua comecei a reparar nas mudanças. Mudanças drásticas. Há, agora, pelo menos mais cinco novas “servidões” (nada mais característico da urbanidade da Ilha) ali atrás da tal rua que eu conhecia. O mix indescrítivel que é a população e os tipos de moradia da Ilha (um dia aquele documentário sai do papel) tinham ali um belo exemplo – certo, não tão belo assim. Ao mesmo tempo que sempre me fascinei por essa multi-qualquer-coisa que são os moradores da Ilha e suas habitações, sempre fiquei horrorizada. Ali naquelas servidões há um novo condomínio fechado com casas de alto padrão com suas piscinas, sem muros nem cercas, as casas de metragem razoável com carro simples na garagem e terreno padrão, as velhas casinhas que parecem existir desde que a Ilha é Ilha, um puxadinhos pra lá e pra cá que pelo número de portas diz que o aluguel ali come solto, aquela casinha de madeira caindo aos pedaços com um sedã caríssimo na garagem, as inúmeras e intermináveis casas em construção… Um churrasco pra cá, um cachorro pra lá, um fogão a lenha ali, um som alto de carro acolá. Diante de mim estava o melhor exemplo do que é a Ilha. Há bairros com características predominantes, mas essa mistureba é a cara da Ilha. Como toda cidade, tem seus bairros “ricos” e os “pobres”, mas estes convivem numa babel econômica bastante peculiar por aqui.

Como viajante da Ilha, já encontrei um tipo bem específico que é aquela pessoa que constrói sua casa ao lado do paraíso (uma praia, um morro, o início de uma trilha) e desrespeitosamente coloca cachorros, cercas ou qualquer outra coisa para impedir o acesso dos outros ao que é de todos. Esse tipinho é o que mais me irrita. E neste dia me irritou muito, quase desisti de tudo e resolvi voltar para casa. Porém, caso eu tivesse feito isso, teria voltado com uma péssima sensação e seria mais uma a olhar a Ilha pelo ângulo tão desfavorável ao qual é tão fácil recorrer nessas horas por quem mora aqui.

Entrei em uma servidão, perguntei na penúltima casa, a mulher disse que achava que era ali o acesso à trilha, senão seria na rua detrás. Na última casa desta rua, uma casa que a melhor descrição que me ocorre é “improvisada”, dois cachorros enormes dominavam a área que pensavam ser deles, o cara lá na casa fez de conta que não me viu e eu voltei. Voltei bufando. O cara não tem o direito de jogar sua casa onde bem entender, fazer que aquilo é dele e ignorar quem deseja ter acesso ao que não é dele. Fui até a rua de trás, subi um morro, tentei achar a trilha e nada. Um morador da última casa desta rua me observava. Nessas horas os moradores daqui não são tão queridos. Voltei, vi uma mulher na casa desse observador e perguntei sobre a tal trilha. “Ah, não é nessa rua. Pega a principal e entra na próxima.” Pois bem, ou ela queria me dispensar de vez (o que acontece muito nesses casos) ou a minha memória realmente tinha dado uns pulinhos. Eu lembrava de toda aquela entrada da rua principal, exceto pelas novas servidões. Voltei, segui, entrei na outra e, sim, era lá. Eu havia errado (e minha memória me alertou que da outra vez eu também tinha errado) a entrada. Subi, subi, subi, lavei e sequei a alma, lamentei o mato alegre com o calor que fez no nosso inverno e que me tirava uma parte da vista, tive aquele momento que só eu sei o que é e voltei.

 

Nos últimos meses tenho acompanhado a campanha política para prefeito. Não só de Florianópolis, mas de Joinville e de outras cidades. Um dia, em casa na Ilha, ouço a propaganda do Cesar Souza Jr falando sobre as liberações em excesso para construção de imóveis na Ilha. Esse é um lema da campanha dele desde o começo. Achei um risco grande tocar nisso, mas ao mesmo tempo um trunfo. Este é um grande problema da Ilha, é verdade. Mas a nata da cidade administra a construção civil (Político posicionar-se contra a elite? Nem Lula fez isso… o perigo é grande demais e não garante votos.) e o povo quer morar em Florianópolis, é imagem, é demonstrar poder, posição, sei lá o quê. Aí quem se posiciona contra a ocupação desenfreada é tachado de saudosista, atrasado, mané. Fiquei pensando se o Cesar faria uma placa com a famigerada frase “fora haole” e colocaria nas pontes. Porque é disso que acusam quando se tenta abordar o problema. As pessoas, no geral, não percebem que construir um prédio como aqueles ao lado do Paula Ramos, na Trindade, é um atentado ao que já está tão ruim. O cara reclama do trânsito parado, mas só usa o seu carro (e como 90% das pessoas nessa cidade, anda sozinho no seu carro). A pessoa olha para um prédio e não entende que cada apartamento daquele vai ter entre duas a quatro pessoas, que essas pessoas vão andar nas ruas, vão ter carros (a maioria dos prédios por ali tem pelo menos duas vagas na garagem), vão precisar de serviços na região, etc.. O problema por aqui é realmente grave. Porém, se você critica as cidades do entorno que são “dormitório” e não absorvem a mão-de-obra dos seus habitantes, levando à exaustão as pontes e a região central (aquela pessoa que mora em Palhoça e vem todo dia trabalhar num shopping qualquer) você é preconceituosa e sabe-se lá mais o quê.

 

Fiquei curiosa pela declaração do Cesar Jr., mas achei ainda mais curioso quando ele, num programa na TV, disse que a cidade não aguentava mais elevados. Segundo ele, a gestão anterior havia construído elevados pela cidade e não havia resolvido o problema do trânsito, havia, inclusive, piorado a situação. Cesar Jr. é candidato pelo PSD, mesmo partido de Kennedy Nunes, candidato de Joinville. E aí eu lembrei da questão do “horizonte” que citei ali acima.

 

Kennedy Nunes tem por principal promessa de campanha a construção de seis elevados e um túnel em Joinville. Como toda cidade brasileira de médio e grande porte, Joinville hoje também só sabe reclamar do trânsito. (Parênteses necessário: o “trânsito”, ou “mobilidade” que acham mais bonito chamar, é um problema nacional. É sabido o incentivo para a compra de automóveis, a isenção de impostos, o crédito fácil e o consequente endividamento da população para que, num ideal golpe de mestre, o governo não entre na crise mundial e possa dizer aos quatro ventos que aqui, agora, a população não é mais pobre e compra, compra, compra, tem acesso a tudo e mais um pouco. Um golpe de mestre, sim, senhores presidentes, que joga para o indivíduo, com a querida intervenção federal, mais problemas – endividamento, trânsito, poluição, doenças – e nenhuma crítica.) Eis que pensei, então, que Florianópolis, anos atrás com a maior frota proporcional do país quis solucionar o tal “problema do trânsito” e construiu suas dúzias de elevados. Em pouco tempo, agora aquela solução politiqueira e de aparências tornou-se um problema maior ainda porque em nenhum momento tocaram na raíz do problema – e ganharam a colaboração de grego do governo federal. Joinville, com o candidato do mesmo partido de Cesar Jr, deveria ter este alerta da experiência. Florianópolis, que é mais desenvolvida que Joinville (alguns joinvilenses me odeiam por declarações assim), enfrenta problemas por ter sido ludibriada com as soluções de fachada, e Joinville segue o mesmo caminho. Não cobro a previsão, mas daqui poucos anos estaremos ouvindo em Joinville a mesma ladainha do “novo”, da “mudança” que a cidade precisa com este ou aquele candidato que vai finalmente resolver o problema do trânsito em Joinville, coisa que o prefeito anterior não conseguiu e só gastou dinheiro em obras faraônicas.

 

Tenho profundo desprezo pelos que “passam” pela Ilha. Aqueles que vêm morar aqui porque foi onde encontraram as oportunidades que não tiveram nas suas terras e só sabem explorar (no pior sentido) e criticar muito a cidade. Essa babaquice de “Beverly Hills catarinense” só demonstra isso. Por que a chacota? Todas as cidades têm todo tipo de gente, não é só aqui que encontraremos idiotas que fazem declarações idiotas. Não é só aqui que há pessoas com muito dinheiro e pouca coisa na cabeça. E sabe o que as páginas do Facebook de Diário de Classe, Beverly Hills catarinense e afins demonstra? Uma outra característica forte do povo de Florianópolis: a vocação por seguir modismos rasos. Sai qualquer bobagem, lá estão todos achando lindo. Quem se ancora aqui e fica só dizendo o quão desprezível a cidade é, a mentalidade das pessoas, merece, sim, um “fora haole”. Volta pra onde veio e vê se lá vão te dar a vaga na universidade que você queria, o emprego que você precisa. Difícil?

Não dou crédito ao discurso “ah, mas acha que é fácil largar tudo”. Não é fácil. Eu não gostava de morar em Joinville, não via minha vida lá, e só eu sei o que passei para resolver isso. Vire-se, eu diria. Agora, quem vem com o discurso, ao morar poucos meses em Florianópolis, de que aqui não é paraíso nenhum, que a cidade é elitizada, excludente, que tudo aqui é ruim, que é só propaganda a tal “ilha da magia”, precisa sair da Trindade, abrir os olhos de verdade, pegar umas dúzias de ônibus, estudar algumas coisas e pensar antes de falar. Acho bem simples. Se, mesmo assim, continuar na rabungentice, saiba que as pontes ainda estão abertas, pra quem chega e pra quem sai.

 

Quem gosta de verdade de alguém ou alguma coisa aprende a ver seus defeitos. E, melhor ainda, se preocupa com eles, tenta fazer alguma coisa. Seja aqui, em Joinville ou onde for. Uma amiga ainda me disse “Bom saber que o Campeche ainda resiste.”, infelizmente não sei se posso dizer que o Campeche, ou a Ilha, estejam resistindo. Não sei dizer se Joinville com suas tão mais frequentes enchentes (com exceção de umas três citações durante a campanha, foi o tema mais grave e mais esquecido) está resistindo, seja ao avanço ou aos péssimos políticos. Ou, ainda, à própria ignorância de suas populações.

 

Sei que Florianópolis não é nenhuma perfeição. Nunca chamei-a de “ilha da magia” ou “floripa” porque discordo do que vem embutido nisso. Me preocupo muito com os problemas que me parecem os mais graves da cidade. Mas sei olhar aquilo que é bom, sei aproveitá-la e não deixo de criticar. Eu poderia ter voltado pra casa quando tropecei nos malditos moradores com seus cachorros. (E, só para constar, há um caminho dali até onde eu queria sem precisar ir para a outra rua, pude constatar isso lá numa das curvas do morro, onde começa a trilha que vai para a casa das servidões, mas os moradores devem achar que é acesso “particular”.) Mas, não, eu insisti e fui lá ver, ouvir e sentir o que eu precisava, com vistas maravilhosas, silêncio, paz e alma lavada. Eu poderia ter ficado com medo e não ter pegado aquela mala e aquela caixa com livros para vir pra cá. Reclamar e desistir são cânceres da alma, meus queridos.

 

 

Belezas peculiares

 

Um dia eu conheci uma pessoa que dizia que o bom na vida era ter histórias para contar. Tudo o que acontecia ele resumia nisso, em mais uma história para poder contar. Eu achava isso um pouco chato, afinal não preciso de platéia, prefiro viver e viver não exige que você conte para os outros – não precisa nem que você compartilhe os momentos – o que viveu.

 

E um outro dia me peguei reparando que conto muitas histórias e tenho uma infinidade de histórias para contar. Sou chata, todo mundo sabe. Mas volta e meia (e os leitores atentos já devem ter reparado) tenho uma história, recente ou do passado, para contar. Me imagino daquelas velhinhas que contam infinitas vezes as mesmas histórias… ou nem tanto, afinal, apesar da pouca idade (tá, eu ri agora) já são tantas e tantas… das mais tristes às mais divertidas.

 

Quem sabe um dia eu escreva um livro de memórias. Começaria compilando muita coisa aqui do blog, mas sei que aquelas mais tristes (e, sim, são cortantes e não são poucas) eu sempre evito. Só na minha cabeça que elas rondam e rondam…

 

Ter boa memória é isso, viver é isso. É ir colecionando imagens e palavras de tantos momentos.

 

Nem pensem tão bem da minha memória, ela anda me pregando peças. E eu nem sei o motivo.

 

Porém, sim… eu lembro de quase todos e de quase tudo. Vou anotando mentalmente sentimentos, sensações, fatos, ações, palavras… Não sei também ao certo o motivo, mas prefiro viver assim.

 

E nessas anotações faço associações que não deveria. Tenho a péssima mania de associar as coisas e as pessoas aos lugares. Então, me mudei de cidade pensando em mudar, assim, de alma. Na nova cidade (tudo novo pra mim, por lá) eu ia descobrindo, passeando, amando. E como isso me fez bem! Ali eu me sentia eu, eu podia olhar o horizonte. Porém, não deixei de vez a cidade que eu havia morado antes. Por algumas poucas (mas muito fortes) razões. E eis que pra lá vou frequentemente e a associação às coisas ruins sempre foi inerente.

 

Aí a vida dá muitas voltas e já naquela não mais tão nova cidade eu havia sofrido e passado por coisas muito ruins. Tem lá aquela universidade, o jardim daquele cinema, aquele píer, um morro ou outro, uma casa lá pro Sul, um bairro… e é impossível passar pelos lugares e não lembrar disso tudo, de vez em quando. Mas o coração aqui não gosta de coisas ruins… aí a rebeldia anti-dor começou a gritar. A idéia de mudar novamente de cidade pairava sobre meus olhos. E só eu sei o quanto, apesar das lembranças, eu gosto desta cidade. Conflitos, conflitos… Numa reviravolta da vida, criei mais um motivo para não gostar da cidade para onde sempre volto. Mas foi lá que me refugiei nos dias mais difíceis.

 

Esses dias passaram… e eu achei que precisava dar um basta. Dizia eu para algumas pessoas, por esses dias, que é errado fazer essas associações. Nunca, jamais, abandonar uma rede social, deixar de frequentar lugares, cidades, deixar de fazer isso ou aquilo porque alguém nos fez/faz mal. Ninguém que te fez/faz mal muda a vida por sua causa, para te evitar, para evitar o teu sofrimento. Por que nós devemos fazer isso? Talvez tenha sido umas das coisas mais difíceis (e em processo) que já fiz.

 

Vejam só, pisei novamente no CFH. Resolvi sair da toca em Joinville.

 

Tudo isso engolindo o pavor que há anos me toma pelo fato de correr o risco de encontrar esse ou aquele. Engolindo o pavor das lembranças. Não é fácil. Não mesmo! Mas busquei em mim aquela coragenzinha filha da mãe que de vez em quando eu tenho. Nem tanto coragem, mas gosto pelo desafio.

 

Talvez eu tenha repensado tudo isso depois daquele belo encontro no Subway. Fiquei pensando quanto a falta de pretensão me faz bem. Eu já deixei de fazer tanta coisa, de estar em tantos lugares por causa de outras pessoas! Perdi boas coisas da minha vida e não hei de me permitir fazer mais isso.

 

Porque, enfim, eu duelo com a idealização. Duelo com saber como a pessoa é e, ainda assim, imaginá-la ali diante dos meus olhos de outro jeito. E aí, um dia… eu canso da minha idealização, me canso de esconder quão pouco interessante ela é, me canso de tentar fazer dela uma pessoa melhor enquanto ela fica ali, sem intenção alguma de ser o melhor dela pra mim.

 

Com os lugares também é assim. O CIC não tem culpa dos babacas que já conheci na vida. A UFSC não tem culpa (ai, difícil essa) dos tipos mais variados e infelizes que por lá circulam. As praias da Ilha também não. Certos bairros não podem ser responsabilizados pelas namoradas idiotas que meus amigos insistem em ter.

 

É um processo que eu resolvi fazer para poder sentir a delícia de, depois de muito tempo, poder colocar os pés no Sebo Colin novamente e me ver feito criança boba fazendo festinha em mim mesma e arrebatando as prateleiras para voltar feliz pra casa.

 

A coragem passa para o orgulho de poder assistir um bom filme, uma boa palestra, seja lá onde for. E se eu der de cara com aquela pessoa maléfica, uma das top 5 que já conheci na vida, eu vou rir e fazer de conta que nem vi. Ela não me importa. Afinal, se na minha colação de grau quem me deu o canudo e teve que apertar minha mão foi a criatura do departamento que mais me odiava, por que eu deveria me preocupar com alguma coisa? Já não tive provas o suficiente?

 

E é em exercícios de sobrevivência assim, conduzidos por altas doses de auto-análise e reflexão (e ultimamente de vinho também!), que eu encontro uma beleza peculiar da vida. A beleza de encarar as coisas e não se esconder delas. De dar a cara a tapa e saber revidar. Ou, simplesmente, de reaprender a viver. O processo não é fácil, mas eu detesto as coisas “fáceis” da vida. Eu gosto do desafio, do difícil, do complicado.

 

 

Os rótulos que me dão, a pregação e a veemência

 

Querem dizer que eu sou contra o casamento? Só porque acho errado assumirem casar por conveniência? Porque sou contra uma mulher largar estudo, emprego e tudo para seguir um cara? Porque eu acho o fim “se ajuntar” para economizar no aluguel? Porque acho de uma hipocrisia sem tamanho continuar casado quando ambos traem, sabem disso e inventam mil desculpas? Começaram a dizer que sou contra o casamento porque faço algumas críticas como essas aos “casais” que tenho visto por aí.

 

Então, se isso satisfaz às pessoas, anotem aí: sou contra casamento.

(de fato sempre achei as cerimônias bem chatas, as festas também, o cardápio é que poderia salvar algumas; e eu nunca disse que não casaria, isso é intriga)

 

Então anotem aí também que sou natureba. Afinal, moro perto da praia, ando de bicicleta, como frutas (ontem mesmo foi o cúmulo do naturebismo: goiaba à beira-mar), tenho flores e plantas na varanda, gosto e tenho animais (tem uma diferença, né, vejo um monte de gente aí que diz “amo animais! amo plantinhas! mas não sabe diferenciar um poodle de um bichon frisé nem um hortelã de um alecrim – e, claro, vive o mais longe possível disso tudo), sou chegada numa trilha e em ficar horas longe da civilização, sou contra construções e obras que destruam a natureza, acho o cúmulo a Ilha não cuidar dos seus parques, acendo insenso, etc..

 

Sou natureba, dizem. Só deixem de lado meus banhos de, no mínimo, meia hora. Esqueçam que eu sou consumista – sou bem menos que a maioria das pessoas, mas vou enganar quem dizendo que não sou? Ignorem que eu vou no Burguer King. Ah, nem reparem que eu tenho uma bolsa linda de couro de bezerro e mais umas de couro de boi. Façam de conta que eu sou a pessoa que mais economiza luz e água. E, então, me chamem do que quiserem.

 

Aliás, sou branca. Repararam? Sou branca, cor de leite. Até tento pegar uma corzinha para parecer saudável, mas sou daquelas curitibanas coxa branca mesmo. Então, porque sou branca sou isso e aquilo. Julguem aí. Tudo o que quiserem.

 

Sabe por quê? Porque as pessoas precisam rotular as outras – e, em alguns casos, a si mesmas.

 

Porque sou branca então as pessoas acham que já sabem tudo da minha vida! Ah, claro, dos meus pais e avós também. Sabe como os brancos faziam com os negros? “Ah, esse é negro, então é escravo.” Pois é, exatamente assim. É assim que hoje fazem, continuam fazendo, nunca deixaram de fazer, nem os brancos nem os negros.

 

Eu aprendi a aprender com os erros dos outros. Sempre levei mal aprender com os meus erros, então adquiri esta tática. Tem gente que prefere repetir os erros dos outros – depois de devidamente apontados e criticados!

 

Sabe o que eu aprendi com meus pais? Ninguém é uma coisa ou outra por causa da cor da pele, do sexo, das escolhas que faz ou pelo que critica ou elogia.

 

Não esqueçam que sou liberal também – esta é a mais antiga!

Não posso argumentar a favor ou contra alguma coisa simplesmente porque me parece o mais racional que já saíam me tachando de liberal. Exercer o pensamento bem fundamentado é coisa de liberal, pelo jeito.

 

Quem rotula é porque não consegue mais discutir. Ou nunca teve esta capacidade ou já, infelizmente, a perdeu.

 

Percebo um agravamento da situação. Vejo diariamente muitas pessoas criticarem quem é religioso (seja lá qual for a religião, alguns preferem ainda andar na moda do passado e só criticar os católicos). Criticam principalmente a cegueira na qual o crente vive, o excesso de pregação (passam do limite e incomodam os outros) e a tentativa, nesta pregação, de convencer os outros das suas idéias sem, contudo, apresentarem argumentos.

 

Pois estas pessoas têm agido da mesma forma que estes religiosos (vamos atentar para o fato de que nem todo religioso faz pregação, etc.): parecem cegos a proclamar suas verdades, entulham a vida alheia (pessoalmente e no mundo virtual) com textos e imagens e frases feitas que corroboram com suas posições e tentam enfaticamente te convencer das idéias deles – seja sobre homossexualidade, vegetarianismo, ateísmo, racismo, preconceitos sem fim, feminismo e polêmicas afú.

 

“Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.” Para lembrar o sábio e ácido Nelson Rodrigues.

 

Vejo a veemência sendo gritada pos todos os cantos… e ao proferir alguma dúvida ou crítica a respeito dos discursos, levo chicotadas, rótulos e a ouço a ladainha (procurem quando o termo “ladainha” era usado, procurem e verão o que eu digo) ser repetida sem fim – e, também, sem novidade.

 

“Fique quieta (e nem escreva!), mulher branca de classe média brasileira da elite dominante heterossexual machista que estudou em escola privada (blergh! pra você) paga pelo pai e que não sabe o que é passar fome.”

 

Shhh! Essa gente tem bola de cristal também?

 

Se me deixarem escolher, na próxima, posso ser uma latinha de milho? Obrigada.

 

 

Verdades verdadeiras: o verdadeiro final feliz é a esperança.

 

Poderia ter ficado com peso na consciência – de fato não fiquei porque este tipo de lamúria não me atrai. Mas troquei voluntariamente e sem muita frescura um filme brasileiro por um argentino. Fato, também, é que tenho ao longo dos anos tido mais alegrias com os argentinos. Dos fatos não há como fugir, apesar de tanto dizerem por aí os historiadores obscuros que não há “fato”.

Qual brasileiro foi preterido? “À Beira do Caminho”, cuja atração foi tão somente o fato de ter músicas do Roberto Carlos. Para me ganhar é preciso me atrair em tudo, não só nisso ou naquilo. Então fui de drama argentino.

Todo drama argentino tem pitada cômica ou é impressão minha? O cinema argentino conta com excelentes roteiristas, o que não é nem de longe o caso brasileiro. Se a direção argentina tem um excesso aqui outro ali, é perdoada porque arrisca e as produções, em geral, cometem seus pecados porque não fazem cinema estrondoso – o que é excelente.

Eis que depois de ter duas aulas bem boas mas uma das mais desanimadoras de todos os tempos, antes de recomeçar os trabalhos, passei no Burguer King e comprei uma torta de chocolate (daquelas de derreter na boca, como eu adoro). Já tinha dado uma olhada nos filmes em cartaz, minha curiosidade se deteve em “O Dedo”. Porém, o horário dele não era conveniente. Restava o brasileiro. Mas, ao chegar lá (com um pouco de dificuldade, sim, eu me perco em shoppings) eis que havia um argentino em cartaz. Pergunto pra moça “e aí, o argentino é drama?” (“O Dedo” era comédia, mas as comédias argentinas nem sempre ganham meu coração). Ela lê e relê um papel e diz que sim. Então, beleza, esse aí mesmo.

Era sexta-feira, mas não havia nem dez pessoas na sala, aí já amei.

Eu não sabia nada da “história” do filme. O que, aliás, eu também adoro. Já de cara percebi que era mais um filme argentino da época da ditadura (da deles, bem entendido). Aí pensei: pô, mais um.

Sim, mais um. Um filme com direito a flashback, a protagonista ser a mesma em três ou quatro épocas diferentes e só mudar o corte e a cor do cabelo, sem cenas de conflito, dramalhão assumido.

E é aqui que eu me detenho. Assumir. Você só consegue assumir aquilo que é (sejam pessoas ou obras) quando você sabe o que você (ou aquilo) realmente é. Este é o princípio. Filmes que nem sabem “o que” são, não conseguem se assumir.

“Verdades Verdadeiras, A Vida de Estela” é daqueles filmes que sabem o que são, dizem a que vieram e não precisam de mais nada. Se eu tivesse lido a sinopse antes, provavelmente não teria ido assistir. Parece o tipo de filme para malas acadêmicos. Não me preocupei com o aspecto “histórico” do filme (nem seria daqueles a sair dali fazendo referência à abertura dos arquivos da ditadura e blábláblá), nem com a relação com a história do Brasil, nem com a questão política. Aliás, nem o filme se preocupa com isso. Ele se detém no drama de uma mãe/avó, esta, aliás, se esquiva da política desde o começo. Os jovens bobos, inocentes e protótipos de heróis é que discutem política, escrevem jornaizinhos e acham que estão “lutando”. A dor, ah! a dor, resta aos pais. Pode ser uma visão mortificadora de toda uma resistência aos regimes totalitários, à violência, à perda de direitos. Porém, esta é a essência do drama. Ninguém lê os livros de Jane Austen (ou assiste aos filmes) e se detém nas questões morais da época que ditam atitudes, isso passa longe, o que resiste é o drama.

O drama não exige análises mais profundas sobre contexto, conjunturas (palavra cara aos historiadores), política, filosofia, nem nada.

E é aí que eu quase cheguei às lágrimas (é difícil me fazer chorar, mas mais fácil chorar com um filme do que na vida real) ao ver o reencontro do filho com o pai.

Há um elemento agoniante no filme: a reconstrução da memória, empreendida pelos familiares e pessoas próximas, os depoimentos e objetos coletados para o filho/neto que é buscado. Em vários momentos do filme vemos a gravação de depoimentos de pessoas que contam como era o pai/mãe desaparecido (morto, provavelmente), narram momentos de alegria passados, contam os últimos momentos de uma relação que acabou logo no início. Este é o trabalho do escritório criado pelas avós, cada criança (nascida nas prisões argentinas durante a ditadura) cujo desaparecimento é acusado, recebe uma caixa com seu nome e onde estas fitas e objetos são depositados. A caixa fica ali, guardada, crescendo, até que a pessoa seja encontrada. O único caso que vemos uma caixa desta ser entregue ao seu “dono” é o do filho do gordo. Há uma supressão do sentido daquilo quando o rapaz (um homem, praticamente) abre a caixa e encontra uma roupa de bebê e uma chupeta. Sua mãe foi levada quando estava grávida. Aquela caixa constitui-se em valor e cheia de sentido para os que a fizeram – o pai e os outros que ali se encontram – mas parece distante do filho encontrado.

Assim são as nossas lembranças. Sejam aquelas que guardamos em caixas pelos nossos “escritórios das avós” ou nas nossas cabeças. Elas só fazem sentido para nós. É a mesma sensação quando, numa conversa, citamos uma lembrança de um fato ou de alguém e a outra pessoa nos olha como se dissesse “é?”. A lembrança dela nunca será a mesma que a nossa. Ou ainda quando alguém encontra esta nossa caixa de lembranças – comum acontecer quando o dono da caixa falece e as pessoas próximas são obrigadas a mexer nas coisas dela – e vê cartões, bilhetes, flores secas, um isso, um aquilo e não vê, ali, uma vida inteira.

E talvez, também, assim seja o filme. Um caixa de lembranças vívidas da Argentina, que para muitos (argentinos inclusive) não faz sentido.

Ousaria dizer que é a história de uma família, como a minha, a sua. As atuações podem claudicar de vez em quando, o texto não é nenhuma obra prima, o roteiro pode ser um pouco piegas ali ou aqui (como na metáfora do pior flashback da mãe procurando a filha quando criança). Mas é um drama que se assume.

Ele deixa a maior lição (inclusive para o cinema, ou principalmente para este) para o final: o verdadeiro final feliz é a esperança. Porque a esperança não é concreta. Estela não encontra seu neto, dos 500 desaparecidos apenas 107 encontraram. “Por enquanto”, palavras do filme.

Não vou me deter demais, mas obviamente lembrei dos russos. Este é um final russo por excelência. Finais felizes com beijinho dos protagonistas num cenário lindo é só para a ficção que nem sabe a que veio.

O filme, ao que parece, está em cartaz no Floripa Shopping. Só procurar.

 

 

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