Deslize inconfessável

   

     Das coisas que gosto da vida, as inconfessáveis ocupam um lugar especial. Tenho cá pra mim que uma vida que não tenha seus recônditos inconfessáveis não é em nada vivível. E nem falo daquelas coisas que se confessam ao pé do ouvido ao amante recente enquanto corpos ainda suados tremem convulsivos. Digo as inconfessáveis por excelência e tenho apreço especial por aquelas que não confessamos nem a nós mesmos.

      Uma pessoa muito querida que conheci este ano tem me ajudado a pensar, estudar e entender coisas sobre este… poderia dizer ofício, mas aí lembra qualquer coisa relacionada a profissão ou obrigação, e não é o caso. Trabalho, talvez, porque como disse ele “nós não temos horário, nós temos trabalho” e encarar como trabalho foi o que fiz ano passado e me ajudou muito. Ou, quem sabe mais verdadeiro, um hábito. Tenho, por hábito, escrever. E isto eu encaro como trabalho. Demorei anos para chegar até estas definições – e acredito que elas possam mudar como já mudaram tanto para chegar até aqui. Como eu ia dizendo, esta pessoa (é um fofo, sério) entre tantas coisas diz repetidas vezes que o escritor é um outsider. Ou seja, que escrevemos porque não nos sentimos in, sentimo-nos fora de algo – seja espaço, grupo, normas, etc.. De coração, ainda tenho dificuldades em dizer: sou uma outsider! Sabe, acredito que é uma certa antipatia por pessoas que sempre se autodenominam ou rotulam “sou underground”, “sou alternativa”, “sou eclética”, e afins. Não sei bem o que há dentro para ter certeza que estou fora. E, reparem, entre todos os diferentes há os iguais. Não adianta pintar o cabelo de vermelho-cereja, só se vestir de preto, ser fã do Nirvana e achar que é diferente: tem milhares iguais a você. É uma mentalidade permitida na adolescência e foi lá mesmo que já percebi essas bobagens.

      Então o escritor seria um outsider. Como não me sinto assim, tive que procurar aqui dentro como me sinto, então, como pessoa que escreve – por hábito e trabalho. Eis que não consigo fugir de mim: sou uma personagem. Nas palavras escritas sou, sempre, uma personagem. Por isso, não me causa espanto algum saber que meus maiores problemas com as pessoas são de comunicação – quando envolve a escrita. No mundo das palavras não existe eu. Aí as pessoas confundem muito. O que, aliás, muito me diverte em vários momentos. As personas que escrevem têm características, por vezes, que ninguém que me conhece pessoalmente me atribuiria. E com toda razão, aliás.

    Para poder prosseguir com algumas atividades e planos tive que procurar estas respostas. Eu poderia escrever best sellers com unhappy end como os que agora fazem sucesso, vide Nicholas Sparks e John Green. Esses dias me perguntei se isso era alguma forma de neo-romantismo contemporâneo. Sou saudosa dos tempos, antes mesmo do meu tempo, de Sidney Sheldon. Transgressão perdeu a graça? Sexo virou rotina? Desavenças são desinteressantes? Que mundo é esse, então?Mundo mais afoito por uma indústria cultural ainda nos moldes do Adorno e do Horkheimer do que nunca. Poderia, também, viver de escrever romances de banca de revista – dos quais, aliás, sou fã fervorosa! Mas, não. Ainda não.

     Como personagem que escreve tento, por vezes, me furtar a escrever. Foi esses dias que pela primeira vez escrevi um texto para publicar aqui e não o fiz. E jamais o farei. Gosto do imediatismo do blog, escrever e já publicar. Quando você se dedica a escrever um livro sem nem a certeza de que será publicado a situação é muito diferente. Aqui, não, escrevo e publico (e apago) quando bem entendo. E publico muita bobagem, é claro. É o exercício, é o hábito. Foi logo depois deste que não publiquei que escrevi um que não tinha nada a ver com o que ele era na minha cabeça. Me explico. Não sofro da síndrome da folha em branco. Não sento e digo “agora vou escrever”. Eu penso, penso, penso, matuto, crio tudo na minha cabeça (e raramente uma anotação aqui ou ali), lapido uma frase de efeito ou outra. E aí, quando está tudo ali, sento e escrevo – e raramente releio ou reviso. Mas, no caso deste texto em especial eu não gostei dele na questão formal. Queria algo mais poético e não foi este o resultado. E aí pensei em não publicá-lo.

    Foi, então, que senti a responsabilidade como alguém que escreve. Tratava-se de emoção. Era um simples registro de sentimentos. Vejam só. Pensei, talvez arrogantemente, que eu senti aquilo como tantas outras dúzias de pessoas também o sentem. E me vi responsável por elas. Há uma pessoa que diz que o escritor é aquele que não teve preguiça em escrever o que muitos pensam ou sentem. Sabe quando a gente lê uma coisa e se “identifica” (sorry, detesto o termo depois que ele foi vulgarizado pelo Big Brother)? Então, o autor é aquele que entre eu e ele não teve preguiça. Simples assim (mas não tanto). Da escrita não consigo fugir e de tudo faço literatura. Já conheci e conheço muitas pessoas com idéias e sonhos fantásticos, além de bons contadores de histórias. Mas daí a terem escrito livros, nunca. E, sim, claro, obviamente, me utilizo deles na cara dura.

    A responsabilidade é essa. Registrar sentimentos e emoções que sei que não sou a única que sente. Sou personagem o tempo todo, mas quando assumo a ficção penso catar os sentimentos e emoções que conheço e desconheço para chegar a alguém. E sempre chego.

    Voltamos, então, friamente calculado, ao começo. Meus leitores não confessam que lêem o que eu escrevo. Eis algo inconfessável. Vejam bem, ler o que eu escrevo ainda não é crime. Faço festinha em mim mesma num flerte com prazeres proibidos ao saber que sou parte de algo inconfessável. Afinal, de coisas inconfessáveis é que se faz uma boa vida. A responsabilidade que assumo (visto que tenho pavor de responsabilidades) ao escrever por outros recebe, em contrapartida, o deleite de ser a inconfessabilidade de algumas vidas por aí. Não desejaria nada mais.

    Meu blog não é daqueles de milhares de acessos por dia, semana ou mês. E com números nunca me importei, vocês sabem. Nem escrevo e fico mandando aos amigos e conhecidos para que leiam. Me sentiria mal fazendo isso. Me dei ao luxo de configurar aquelas ferramentas que publicam automaticamente nas redes sociais e só. Sei de pessoas que lêem o que eu escrevo. E sei que elas não assumem isso por aí. Tenho leitores que não falam mais comigo, que já me amaram e odiaram demais, aqueles que me conhecem mas nunca nem me disseram um “bom dia”. Amo todos vocês, viu? Como personagem que escreve tenho um coração enorme.

     Lamento muito ter, novamente, escrito sobre o ato de escrever. Poderia, sei lá, falar da Copa das Copas ou da campanha política. De vez em quando vocês sabem que eu faço isso. Tirei o ano para (me) estudar sobre este hábito que não me abandona desde tanto tempo e ao qual resolvi dar uns afagos. Daqui a pouco eu volto para escrever sobre casamento, dores de amor, manias doentias, problemas sociais e as curiosidades que observo. Enquanto isso meus leitores vão acariciando seu inconfessável deslize de me ler.

 

Baú e Bidê

Todo mundo deveria ter um baú. Eis mais uma peça, do mundo que ficou para trás, que não tem sua estima reconhecida. Como o bidê, sabe? Ninguém mais tem bidê em casa. O bidê, com toda sua utilidade e, mais ainda, sua beleza atemporal foi extinto. As casas diminuíram, apertaram aqui, ali e a vítima no banheiro foi o sensato bidê. Sim, é sensato ter bidê em casa. Hoje querem pias modernas, espelhos por todos os lados, chuveiros mágicos e esqueceram o bidê. Bem, e você que me lê e nem sabe o que é um bidê?

Essa insensibilidade do mundo para com as coisas que trazem facilidades e belezas para a vida me entristece. Espremeram as casas, as vidas, e os guarda-roupas que têm portas de vinte centímetros?! Dá pra guardar um par de meia – dobrado. Cadê as portas com setenta, oitenta, centímetros? O portentoso guarda-roupa, peça que compõe, junto à cama, o quarto. Quarto é isso, cama e guarda-roupa – no mais é acessório. Tem gente que tem TV no quarto! Mas nunca teve um baú. Ou uma mesa de cabeceira – o criado-mudo, lembra? Sempre tive pena de chamar de criado-mudo. Cama, guarda-roupa, mesa de cabeceira e baú. Ah, sim, quem sabe uma penteadeira para as moçoilas vaidosas. Tudo se perdeu.

Ah, os baús… aos pés da cama, debaixo de grandes janelas. Sem querer ser chata, mas as janelas também diminuíram, vão espremendo nossas vistas a cada prédio com o qual nossos olhos se deparam. Um baú para guardar o enxoval de um futuro casamento suspiroso. Um baú para guardar as cobertas do inverno! Ah, amor eterno às cobertas do inverno com seu cheirinho de guardado. Um baú para guardar lembranças, fotografias antigas, bilhetinhos de infância, a primeira bolsa, aquele casaco de estimação, cartas de amores impossíveis, os sonhos da adolescência, a fantasia de um carnaval… para guardar as causas do que somos hoje. Quem não guarda suas causas, não compreende suas consequências. Um baú para guardar aquelas tralhas que não se sabe onde enfiar mas, acredita-se, um dia vai precisar. Ah, um baú para os virginianos, para guardar só coisas úteis, entre malas de viagem, patins, a raquete de tênis e o quimono do judô.

Não consigo imaginar onde as pessoas guardam tudo isso hoje. Na casa da mãe, talvez, no velho quarto da infância porque nossos apartamentos de filhos independentes ou famílias precoces não têm espaço nem para um nobre bidê. Ou, ingenuidade minha de lado, as pessoas não guardam nada disso. As pessoas querem guarda-roupas novos, com portas estreitas, entulhados de roupas da última coleção numa quantidade que nem se vivessem o dobro dos anos que lhes cabem nesta vida conseguiriam usar tanta coisa. As pessoas têm fotos em HDs. Ah, sim, quem ainda faz enxoval? Cobertas? Aquecedores e ar condicionado evitam o transtorno de estocar cobertas fofinhas e quentinhas. As pessoas não querem pensar em quem foram para não terem que discutir com quem são.

E os baús e bidês ficaram pelo meio do caminho… numa cena de O Outro Lado da Rua, Fernanda Montenegro, dama da TV, do palco e do cinema, com sua figura angulosa e maciça, debruça-se sobre o bidê do espaçoso banheiro de seu apartamento antigo. Filme recente, sua personagem apaixonou-se pelo vilão e quando tudo desaba, ela desaba aos prantos sobre seu companheiro, o bidê. Nem falo só da utilidade mais óbvia do bidê. E o prazer de andar descalça pela casa e pelo jardim, sujando os pés à vontade, e quando precisa colocar o tênis para sair é só recorrer à comodidade do bidê. Ou lavar as patas do cachorro trapalhão. Ou vomitar.

O bidê, nem que seja para chorar e abraçá-lo. Só quem não tem coração não sente a falta que o bidê faz. Ou quem não chora amores abandonados. Ou quem não suja as patas nas alegrias da vida. E o baú. Quando você não lembra onde colocou algo tão importante e, pensativo, deita os olhos no baú. Rá! Lá está! Ou numa noite chuvosa e triste, com o coração apertado, musicando dores, você entra em casa, joga as chaves, jura nunca mais, senta sobre o baú, apóia os cotovelos nos joelhos e respira fundo.

Não sei bem porque estão nos apertando tanto. Apertando nossos pensamentos e nossos sentimentos. Tiram nossos amigos solenes das casas. Não sou psicólogo nem teórico da pós-pós-pós-modernidade, mas desconfio que nos espremem nos espaços e tiram nossos pilares emocionais para que esqueçamos alguma coisa – se não por isso, por coisa pior.

latas de felicidade

Foi difícil entender porque a Filosofia se preocupava com a felicidade. Num primeiro momento me perguntei “pra que refletir sobre isso, com tanta coisa mais interessante e importante?”. Afinal esperava estudar sobre ética, política, o mundo das idéias. E lá estava a questão: o objetivo da vida é alcançar a felicidade. Foi, então, uma desilusão. Não achava que era sério.

E era. Daquelas frases de senso comum sobre “todos buscam a felicidade” ou musicalmente adaptadas “eu só quero é ser feliz andar tranquilamente na favela onde eu nasci” a Filosofia parecia apropriar-se sem dó. É claro que o caminho era invertido, cronologicamente, pois que a idéia havia surgido antes das frases feitas e dos versos.

Então, o objetivo da vida era a felicidade. Posto o drama, jogam-se os filósofos na arena. Todos saem vencidos e vencedores. Não há nada mais platônico do que lançar-se a questão “todos buscam a felicidade” sem dizer, num primeiro momento, o que, afinal, ela é. E aí temos mais de dois mil anos de disputas.

Eu não entendia. Tenho real dificuldade em entender algumas (muitas) coisas. Não levei a sério o objetivo da vida dado por eles. Minhas concepções e experiências, além das questões da individualidade, não me faziam aderir ao conceito. O que mais me incomodava – e incomoda – é colocar certos pontos como “buscas” dos seres humanos. Sim, eu sei, tem o homem e a mulher (maiorias esmagadoras) que procuram “alguém”. Tem, então, aqueles que buscam a felicidade.

Buscar ou procurar algo, intencionalmente, foge à minha ação. As surpresas da vida são muito mais interessantes. Também me é difícil compreender a felicidade atrelada à vida correta. As boas ações, o agir corretamente, agir conforme ou de acordo, praticar a justiça são todos passos à felicidade. Pessoas felizes, então, não fazem coisas erradas. Ou, melhor formulado, se você não age corretamente, não alcançará a felicidade. Eis o ponto que sempre me deixou pensativa por alguns minutos.

Haverá aquele que vai proclamar que a felicidade se sente, não se explica. Essas frases feitas vomitadas pelos seres. Porém, refletir sobre as coisas talvez seja mesmo um problema. Vejam só, quantas vezes concordei com Raul e seu “É uma pena eu não ser burro Assim eu não sofria tanto”. Aquele que é feliz e não pensa é um caso a ser estudado. Pois também me incomoda muito (e acho que não tinha me dado conta disso até há pouco tempo) cultuar-se a elevação do pensar. Esta vida de contemplação, de busca pelo saber, como supra-sumo da condição humana. Não sei, é possível ser feliz assistindo ao Programa Pânico ou deliciando-se com um sorvete.

Pois que diacho, então, é isso da Filosofia preocupar-se com a felicidade? Teria a felicidade perdido a sua nobreza ao ser encontrada quando abrimos uma lata de coca-cola ou ao postar um selfie exibindo uma paisagem invejável?

Não sei vocês, mas eu já tive provas de que agir corretamente, de acordo com a razão, com as regras morais e etcéteras e tais pode mandar a felicidade para bem longe. Ser feliz ou estar feliz, se existe a felicidade ou momentos felizes… chamem todos os filósofos que podemos discutir tudinho.

Para falar a verdade, como é tradição eu contar de onde surgiu a motivação do texto, conto-lhes que foi pela certeza de que há pessoas que acreditam piamente que não podem – já foram mas jamais serão de novo – ser feliz. Há pessoas que por tantas dores e vidas vividas não acreditam na felicidade, e talvez seja mais fácil acreditarem em algum filósofo. E é diante delas que eu encontrei a certeza de que sou feliz – no sentido mesmo de ser. Eis que também não me convence a idéia filosófica de que só se pode dizer de alguém se foi feliz quando da sua morte. Eu já quis escrever numa lápide, adaptando Merimée, Viveu, amou, foi feliz (é de um conto do Carmem, mas da última vez que procurei não descobri de qual – como vocês sabem sou péssima com citações). Não gostaram do “amou” ali no meio e tinham lá suas razões. Então, quem sabe, eu guarde este para a minha lápide. Quem sabe sem o “amou” fique melhor. Apesar da fatalidade que há no “foi” pois pretendo ser feliz também depois da morte.

Não pensar e não agir corretamente, dentro dos preceitos e regras morais, deve estar mais próximo da felicidade do que toda a Filosofia reunida. Recordo dos primeiros filósofos que irritavam-se com a vida e suas necessidades mais básicas, as biológicas e fisiológicas. Como nos afastamos do mundo das idéias ao ter que procurar um banheiro numa longa e deserta estrada. Teriam eles razão? Se o objetivo da vida é a felicidade, ela não deveria estar contida em cada satisfação de desejo e necessidade, em cada prazer como abrir uma lata de coca-cola ou na água quente de um banho depois de um dia cansativo? E para citar literalmente o Aristóteles com seu sedutor meio-termo, não deveria também estar contida na reflexão sobre nossas ações e suas consequências na vida dos outros, ou no quanto o trabalho alienado marxista corrói meu ócio, ou, ainda, se sou feliz?

Me contradigo? Acredito que sim, pois isso volta e meia acontece. Eu não acredito na felicidade da maior parte das pessoas que conheço. Fingem tão mal. Os psicólogos, as euforias, os impulsos, as domesticações, as reclamações… fotos, posts e conversas não têm cores o suficiente para esconder suas infelicidades. Como ainda considero a Filosofia melhor que certos profissionais, tarjas pretas ou livros de auto-ajuda, o meio-termo aristotélico me cai bem.

Já não sei ao certo porque escrevi sobre a felicidade. Constatei que não escrevi quase nada do que havia pensado. Mas cheguei ontem em casa com a missão auto-impingida de escrever sobre a felicidade. Ainda leio os filósofos com muita desconfiança. E, claro, com muita gratidão e, alguns, com paixão. Ah, cá estou a falar de paixão… aí mesmo que eles levantariam de suas tumbas e cassariam meu diploma de mísera bacharel em Filosofia.

Não sei, não sei… de fato não sei onde está a felicidade. Sei que a possuo. Não a procurei, porque como eu disse, não busco nem procuro por nada na vida. Espero, assim, que ela se descortine e me apaixone. Sim, horrorizo pessoas quando constatam que não tenho objetivos, metas e essas coisas como, sei lá, ser feliz.

Hoje, então, tirei o dia para implicar com a Filosofia. Não quis dizer nada e duvido que tenha dito muita coisa. Melhor deixar cada um com sua lata de felicidade e voltar aos filósofos e às suas certezas. Como gosto tanto de surpresas, vai que ainda hoje a vida me surpreenderá com alguma.

Condição e Situação

Passei algumas semanas montando uma teoria. Vocês sabem, tenho mania de fazer isso – para justificar ou explicar as coisas que vivo, penso e vejo. Pensava sobre condição e situação. Tentava me justificar num assunto quando encontrei estes dois termos que poderiam ajudar.

Condição é aquilo que não muda (ou que muda em raras exceções, já explico, alterando uma condição por outra) e situação é um estado que foi alterado mas que pode ser alterado novamente a qualquer momento. Exemplos sempre ajudam. Ser homem ou mulher é uma condição – e aí entra a mudança de sexo como a exceção – você nasce mulher e será mulher, não se altera. Um exemplo melhor sobre a exceção é uma pessoa que possui pernas, braços, tronco e cabeça e ao sofrer um acidente tem sua perna amputada, ela terá sua condição alterada. São exceções e casos mais extremos que podem alterar uma condição.

Situação é fácil de entender e vou usar meu exemplo favorito. Um homem é casado, eis uma situação, jamais uma condição. Estar casado é algo que não existia antes, foi alterado e pode ser alterado novamente a qualquer momento. É como pintar o cabelo de castanho para loiro – ser loira é uma situação, no caso, não uma condição. Ou usar lentes de contato. São atos que alteram momentaneamente (mesmo que, em alguns casos, “para sempre”, como aquele que morre sem jamais ter se divorciado ou aquela que pintará o cabelo de loiro até morrer) estado civil, aparência, estado emocional, situação econômica (desempregado, ou até o caso de “estudante”, etc.).

Como eu disse, foi uma teoria nada aprofundada (demorei para perceber que mesmo em condição haveria casos de alteração) que formulei nas horas vagas por conta de uma questão pessoal. Mas aí…

Caminhava eu pelo centro de Porto Alegre quando me deparei com uma manifestação em frente a prefeitura. Segui meu volteio quando me deparei com outra manifestação na Salgado Filho (rua parada, fila de ônibus atrás, pontos de ônibus lotados, pessoas observando). Logo mais outro grupo barulhento caminhava em frente ao Museu de Arte. Ouvi coisas do tipo “não é só pela educação” e “Fortunatti, cadê você?! Eu vim aqui só pra te ver!” e “você aí que está no ponto de ônibus”. Fiquei com a impressão de que a população no geral (tanto quanto eu) assistia sem sentir-se impressionada num clima que não era nem de aprovação nem de desaprovação. Aliás, em alguns cantos até ouvi pérolas do bom humor gaúcho.

Ver manifestação, em Porto Alegre, não é novidade. Reparar nos cartazes colados pela cidade fazendo alusões políticas também não. (juro que lamento muito não ter fotografado um que aparece o Tio Sam com a cara (mais feia) da Dilma e a frase “Mostra a tua cara Dilma!”, quem sabe em alguns dias eu consiga) Sempre admirei a politização do povo gaúcho. Nem sei porque demorei tanto tempo para me apaixonar por Porto Alegre (uma outra história). Semanas antes eu havia me deparado com uma tenda com os dizeres “Dúvidas sobre a Copa? #ogovernoresponde” e meia dúzia de gente sem fazer nada entre mesinhas de plástico e folders ali na famosa volta da Borges de Medeiros. Quando vi a tenda vazia pensei cá com meus botões que o povo não parece ter dúvidas quanto a Copa.

Sim, a Copa. É só sobre o que se fala, não? Anos atrás quando ouvi pelo rádio que elegeram o país como sede (tenho duas testemunhas) fui contra – aliás, fui contra desde o vídeo absurdo que fizeram para “convencer” a Fifa. Era tudo manipulação politiqueira (do Lula, é claro, mas se eu escrever isso aqui serei apedrejada). A vergonhosa escolha de tantas cidades-sede e os interesses politiqueiros também nesta escolha já eram ruins o suficiente para não me fazer apoiar o evento. Mas o povo gostou. O povo apoiou. E Lula ainda não era Dilma (ele sabia que não estaria no governo hoje e que seria meses antes da eleição, já pensaram nisso?).

Mas nem quero falar disso. Hoje até os lulistas estão insatisfeitos. Até os dilmistas, aqueles que compraram a história do poste que Lula colocou como candidata, estão insatisfeitos. Eu juro que tentei dar uma chance pra Dilma. Gostava do jeito durona dela. Mas não foi dessa vez.

Via aquelas manifestações e já bem menos iludida do que estive em junho do ano passado em relação a elas (e, vamos e venhamos, Santa Catarina é um zero à esquerda nessas movimentações) fiquei a pensar sobre a condição e a situação. O problema não é a Copa. Nem o Lula ou a Dilma. Nem, sei lá, os salários. O problema é o brasileiro. É uma questão de condição.

Peralá! Não, não sou mais uma daquelas que só fala mal do Brasil, que adora citar exemplos do exterior porque tem a idéia idiota de que tudo lá fora é lindo e aqui é ruim. Não sou idiota nem ingênua. Gosto muito do Brasil. Acho realmente difícil me ver morando, estudando ou trabalhando, fora dele. Já pensei, é claro, mas em seguida penso certas coisas e desisto. Eu quero viver bem aqui. Já é um custo me fazer pensar em morar fora de Santa Catarina, imagine em outro país. Sou uma garota do Sul, é verdade. Aliás, sobre isso me veio a nada brilhante declaração do Wagner Moura, nosso Pelé do cinema brasileiro, aquele que “calado é um poeta”. Sim, porque Wagner é mais um que deu declarações de que irá morar fora do país e sente que isso até é bom “porque aqui não dá mais”. Wagner que fez umas novelas fuleiras na Globo, foi alçado ao sucesso e agora virou ator cult. Não discuto. Não é o único que vem a público demonstrar sua desilusão com Lula-Dilma e sem querer colocar-se numa posição além da “simpatizo com a Marina, mas com o Campos não dá” prefere dizer que falta educação, saúde e o país está horrível.

Essas pessoas fazem muito mal ao país. Por favor, exilem-se voluntariamente. Queria ver se tirassem os milhões das pastas da Cultura para colocar na educação e na saúde (que sabemos não é frequentada por esses que falam tanto). Sinceramente? Por mim podem fazer. País que não tem educação e saúde não precisa de teatro, cinema e música – ainda mais se dermos uma boa olhada na maioria dos projetos aprovados em editais e apoios.

Aliás, um megafone daqueles em Porto Alegre falava na educação. No salário ruim dos professores, é claro. Tudo se resume a dinheiro. Sobre professores muito ruins ninguém quer falar, né? Professores que faltam, que vivem de atestado, que vivem de favores políticos, que chegam em sala e só sabem mandar os alunos fazerem resumo do livro didático, que não dão atenção nenhuma aos alunos… desses não querem falar? Se há problemas na educação, é certo que não se trata só de investimentos e salários.

Eu mesma já aderi ao discurso da falta de educação. E aí é uma questão de condição. A condição do brasileiro é não valorizar nem se importar com educação. Os que o fazem são exceção. Não é de encher o saco ver tanta manifestação, tanto “falta educação” e o povo não respeitar nem uma fila de ônibus? Pior, de avião, onde todo mundo vai sentadinho no lugar marcado e o qual só sairá quando estiverem todos a bordo. Tem coisa mais irracional?

Por isso me ocorreu que é um problema de condição. A condição do brasileiro não o permite alcançar níveis melhores. No Brasil não existe a idéia do coletivo, de se pensar e agir pelo bem de todos, há o individualismo. Esses dias ainda comentava com uma amiga como a política havia sido reduzida ao particular, ao “o que é bom pra mim”. Em como decidimos nosso voto pelos nossos interesses pessoais e só. Sob uma condição individualista não há como chegar a um país “bom para todos”.

Não é uma questão política. Não importa Dilma, Marina, Campos, Aécio, Serra. Essa é só a cortina de fumaça. Ser um vermelho que perdeu a noção do tempo ou um contra-cotas-e-contra-o-bolsa-família é a burrice que tomou conta de nós. Pensa-se no eu. E política, meus queridos, não se faz com interesses particulares (nem privados, diga-se de passagem). Claro que lembro de Aristóteles e Hannah Arendt nessas horas. Politicagem é que se faz com interesses (escusos) particulares (e privados). Não adianta nada entoar o discurso vazio do “contra tudo e contra todos” dessas manifestações que tenho visto. Nos jornais estrangeiros hoje muito se falou sobre o povo nas ruas, ontem, há menos de um mês da Copa. Na maioria não havia lista de reivindicações, no máximo a citação ao aumento de salários. Sobre os mortos nas construções do estádios, ou sobre as desapropriações que foram feitas nunca vi cartaz. Tem coisa mais egoísta do que sair às ruas porque meu salário é baixo? É bem diferente do que sair às ruas porque há uma política econômica deficiente que causa problemas para todos (exceto aquela meia dúzia) conseguirem consumir os produtos mais básicos. E voltamos ao preço do tomate.

Acredito que as ruas serão cada vez mais tomadas por pessoas que parecem não saber direito o que querem. E as manifestações serão invalidadas politicamente, de novo. A condição do brasileiro não será alterada, viverá ainda sob a individualidade, sob o discurso vazio e incoerente com seus atos enquanto a nossa miséria poderá ser vista por qualquer um com boas doses de sensibilidade e razão. Reclamarão da militarização da polícia porque não percebem que sua condição de criminosos em maior ou menor grau não permite que a polícia seja de outro jeito (furamos fila, nos apadrinhamos politicamente, burlamos o imposto de renda, roubamos aqui ou ali, sou profissionais preguiçosos, professores relapsos, alunos desinteressados). Não farão nada pelo bem comum, não olharão para suas belezas naturais, não preservarão o meio ambiente, não deixarão de jogar lixo no chão, nem de lavar a calçada com mangueira dia sim, dia não. Em algum momento acalorado gritarão “falta educação”. E não se educarão.

Enquanto isso veremos notícias lamentáveis durante a Copa. Tenho até receio de fazer previsões. Talvez, enfim, ao ver tantos olhos voltados para nós, como nunca antes em mais de quinhentos anos aconteceu, sentiremos vergonha e não assaltaremos os turistas, trataremos bem os repórteres de fora e faremos a torcida mais bonita do mundo. Talvez. Porque os preços das diárias dos hotéis já reservados não voltarão aos valores normais, nem os restaurantes cobrarão os preços justos. E a Copa acontecerá para poucos, pois mesmo nós aqui em Santa Catarina sentiremos pouco do seu vento (um ou outro turista de passagem, o grupo que se hospedará em Balneário Camboriú).

Só ficaremos felizes com os feriados. Eu programei cardápios especiais, para a abertura festa junina, para BrasilXMéxico comida mexicana, ItáliaXInglaterra lasanha, paella valenciana para o jogo da Espanha. Claro que não deixaremos de comentar os jogos no twitter (comprar ingresso no site da Fifa não deu certo) e a babar pela seleção da Espanha, pelo Balotelli, pelo Eto´O e pela bunda do Fred. Provavelmente morrerei sem ter pisado em nenhum desses estádios. E minha aposta (podem rir, quem ri por último…) é na Holanda campeã. (cadê minha havaiana?!)

Menos de um mês e as propagandas para nos injetar fervor positivo pela Copa entulham os canais de TV. As ruas se enchem. E parece que o sensato, como aquele seriado que você começa a assistir e não sabe direito se gosta ou não, é aguardar os próximos capítulos. Ah, em junho estarei em Porto Alegre com minha camiseta da seleção da Argentina (se eu fosse maledicente diria que os hermanos pagaram para ter os adversários da primeira e segunda fase e, por isso, são fortes candidatos) observando aeroportos e ruas em situações mais calamitosas do que as de ontem, com certeza. O melhor é que depois que a Argentina perder e voltar para um país em situação tão ruim quanto a nossa, depois que a Holanda sagrar-se campeã, depois que os turistas tiverem embarcado com suas garrafas de cachaça e impressões conflitantes sobre nosso povo, voltaremos à vida individualista e politiqueira que consagra nossa condição. Porque a Copa será só uma situação. Peraí, eu disse “o melhor”?

Sobre pessoas e personagens

Tenho pensado muito nas pessoas (é mais um mal que eu tenho). Na verdade, queria um personagem. Foi assim que escrevi ali no meu mural. E no meio do caminho fui pensando nas pessoas.

Conheci e tenho convivido (mesmo que das formas menos banais) com pessoas interessantíssimas. Algumas têm feito minha alegria diária. São as trocas de pensamentos, os comentários espirituosos, a presença esperada, o humor variável. Sim, porque gosto de encontrar nas pessoas algo que me possui tanto como a variação de humor. Me encantam em especial as pessoas que pensam (não, não são todas), que levantam a voz para criticar, que fazem perguntas, que se indignam, que não querem fazer voz ao coro das opiniões, aquelas que não precisam mostrar nada porque o são de verdade.

Acima de tudo são pessoas que aprendem com a vida. São pessoas que não são óbvias. Ah, quanto amor meu por isso! Vou abrir um breve parênteses e comentar que todos os meus relacionamentos (algo) amorosos tiveram seu fim por causa da obviedade que nos corrói. Em alguns meses eu já sabia o que irritava-o, como provocá-lo (principalmente), como contrariá-lo, o que e quando perguntar, como ele agiria em determinadas situações, do que seria capaz. E assim perdia a graça. E as pessoas, meus queridos, precisam manter a graça. Desinteresso-me num piscar de olhos se a previsibilidade torna-se rotina. Aliás, sobre amor e tédio, já escrevi aqui, né?

Sobre aprender com a vida, pensava nisso antes de ontem no banho. Aí ontem, conversando com uma amiga, voltei às idéias. Como há pessoas que já passaram por tanta coisa na vida, já leram tantos livros, já assistiram tantos filmes, já trabalharam, já perderam pessoas que amavam (e que as amava, veja bem), que já choraram sem ver nada à frente, já bateram e já apanharam… enfim, pessoas que têm histórias boas e ruins na vida e que têm algum conhecimento do mundo e, ainda assim, são umas – me falta a palavra – umas bestas, umas portas. São pessoas que não sabem viver. Não sabem aprender. Não sabem olhar para os outros. Não sabem preservar as melhores coisas que têm. Não sabem apreciar este ir e vir dos dias.

Aí fiquei lá matutando sobre o meu personagem. Queria que ele fosse uma mistura dessas coisas. Queria-o óbvio, mas intrigante. Queria-o uma anta que não aprende com a vida, mas que tem sonhos.

Na literatura contemporânea o que não falta são narrativas auto-referentes. É um mundo de narradores que olham o mundo sob uma fração que o seu umbigo o permita. Personagens com tantas dúvidas vazias e dores inexistentes que enchem páginas sem fim.

Enquanto ainda pensava nas doces pessoas e fui escrever mais um pedaço do meu personagem me dei conta de que escrevia a história de uma pessoa que eu conheço pouco. Na verdade eu sei uma coisa ou outra da vida dela, e ao escrever eu escrevia a história dela preenchendo tudo o que eu não sei (que é bastante coisa) com a minha imaginação. E é assim que eu faço a minha vida mais bonita. Sempre faço isso, se eu conheço alguma coisa de você, pode ter certeza que já fui preenchendo as lacunas, fazendo deduções e criando a minha (tua) história. De fato, até abro mão da tua história e prefiro ficar com a que eu criei.

Queria um personagem assim. E queria-o difícil, real, abominável. Um autor uma vez me disse (talvez já tenha comentado aqui) que a coisa mais fácil de se fazer, ao escrever uma história, é matar seu personagem (até quando ele é o protagonista? Fiquei me perguntando. Fica pra outra hora.). E hoje me irritei tanto com os filmes que tenho visto que pensei que mais fácil ainda do que matar um personagem é criá-lo rico. Pronto, você matou-o de outro jeito, destruiu a maior parte dos conflitos que ele poderia gerar. O que, aliás, torna a maioria esmagadora das histórias atuais extremamente entediantes.Não é que faltem conflitos nos personagens milionários. Mas eles são vazios, chatos e vulgares.(as duas últimas frases foram twittes meus e segue um comentário em reply a quem me disse que sempre preferiu os personagens pobres) São mais profundos, têm mais dramas. Qualquer viagem (até um passe de ônibus) é um conflito pra eles. Perfeito.

Filmes ou livros (mais aqueles que estes) e, principalmente, novelas, nos quais os personagens são riquíssimos. Me deparei com muitos deles ultimamente. Novela é quase sempre assim, tipo as do Manoel Carlos. Agora o público não gosta mais tanto, pelo jeito, porque prefere aquelas nas quais os pobres… ficam ricos. Já escrevi sobre isso por aqui também. Essa idéia maniqueísta de que pra ser feliz é obrigatório ser rico. Li um texto de uma menina esses dias e ela dizia que todo mundo queria ser rico, mas que ela não queria dinheiro. Simpatizei tanto. E por conhecer a história dela foi totalmente compreensível o comentário.

Pessoas que viajam pra lá e pra cá com toda facilidade do mundo, nos seus jatinhos ou chegam no aeroporto e sempre tem avião pra onde querem e eles sempre têm dinheiro, é claro. Aquele filme super entediante do Walter Mitty, por exemplo, que era pra ser encantador em como ele via o mundo na imaginação dele. Aí ele do nada precisa ir pra Groenlândia e puf! lá está ele. Ou O Capital, aquele francês. O dinheiro supera conflitos nada dramáticos no cinema. É tão entediante. Tudo se resolve. Há os que colocam o dinheiro e o fetiche que ele carrega como o conflito, alguns, ainda assim, não conseguem fugir da facilidade e do tédio.

Assisti a um filme no qual uma mulher rica entrava num táxi e mandava o cara (pobre, pobre, pobre, como aquela música lindíssima que a Ângela Maria canta) rodar sem destino. Horas e muitos quilômetros depois ele a questiona sobre o destino porque o valor já está muito alto, ela joga notas de dólares em resposta. Eis que eles seguem viagem para atravessar os EUA de leste a oeste e no meio do caminho ela perde a bolsa. Ou seja, criou-se um conflito porque eles precisavam seguir ou voltar e para tanto era preciso dinheiro. Eles encontraram formas criativas de seguir. Aí o dinheiro é usado dramaticamente.

E são esses filmes com personagens vazios e bolsos cheios de dinheiro que têm me entediado deveras. Sobre as pessoas, o mesmo. Sobre a auto-literatura tão praticada hoje em dia, também. Gosto de um pobre com drama porque a vida é mais vida assim. A imensidão de conflitos que há, desde conseguir colocar comida na mesa, de um personagem que não vive com o saldo positivo na conta e tem cartões de crédito com limites nas alturas é, como comentei naquele reply no twitter, riquíssima. Some-se a isso dramas internos alimentados por estes conflitos. É uma teia interessante demais. E foi assim que fui olhando para o meu personagem.

Não era pra ser um desabafo sobre tantos filmes e livros entediantes com os quais tenho me deparado. E vocês também talvez não se interessem pelos meus personagens. Mas só cheguei a tudo isso pensando nas pessoas… ah, essas criaturinhas que cruzam meu caminho. Saibam que sempre e sempre penso muito em vocês. E vocês nem fazem idéia, eu garanto.

Valesca, Chico Buarque e, enfim, Kant

Estava eu ali, primeira aula. Começar pelo começo, o que é Filosofia? Ouço lá no fundo “Professora, Valesca é?”, sobre quem são os pensadores. Em seguida, “Clarice Lispector é?”.

Diria eu que não, meus queridos, filósofos são somente aqueles nomes estranhos ali no quadro. Turma de primeiro ano, primeira aula de Filosofia. E que diacho é essa tal Filosofia? E por que diacho aquelas crianças trancafiadas numa escola precisam aprendê-la?

Eu? Eu respondo assim: Filosofia é tudo. E vou tentando explicar, gosto das respostas explicadas. Deparei-me com uma das maiores dificuldades da minha vida: mostrar àquelas crianças que elas pensam. Elas não sabem disso. Não se ensina a pensar, infelizmente. Só o que se pode fazer é mostrar que todos nós pensamos. E aquela tal Filosofia poderia, então, fazer parte da vida deles. Na idade deles foi que comecei a escrever, porque eu lia e imaginava e comecei a achar que poderia fazer como os autores que eu amava: escrever aquilo que minha imaginação ditava. E foi assim que continuamos a aula que comigo é toda feita de perguntas (eu) e respostas (eles), “então o filósofo é alguém que tem uma idéia? Mas nós também não temos idéias o tempo todo?”. Segundo as respostas, eles pensam, têm idéias, são inteligentes, estudam, têm conhecimento sobre alguma coisa. E eu perguntava: e nós não? Já via os nós atados nos olhos de alguns.

Sim, tem a História da Filosofia, a História das Idéias, as áreas da Filosofia, as grandes obras. Nós não escrevemos livros mirabolantes como os filósofos, mas tirando isso, fazemos as mesmas coisas.

E aí foi complicando. Tirando alguns poucos, aquelas cabecinhas não demonstravam consciência de que sabem que pensam. Meu choque diante desta constatação foi tal que me levou à irritação. Chegou a me faltar meios interativos para mostrar a eles que eles pensam. Ninguém quer que eles pensem, ninguém nunca quis. Alguns deles desconfiam que sabem pensar, mas não querem. Escolhas não se discutem. Tenho que encontrar truques, novos truques, que me permitam mostrar a eles que eles pensam.

Saía às dez da noite da escola, cidade pequena do interior, e na minha frente três rapazes iam ouvindo algum rap no celular. Não entendia o que era falado. Comecei a matutar o que levava-os a ver que há idéias numa letra de rap, como nos versos do Charlie Brown Jr rabiscados nas carteiras da sala de aula, mas que eles não conseguiam perceber nas aulas de Filosofia. Lá e cá são idéias – eles precisam me ajudar. Por que o rap está no fone de ouvido e a Filosofia na escola? Vamos e venhamos, já eu, anos atrás, me sentia oprimida pela escola, sinônimo de enclausuramento, obrigação, tédio e quantas mais coisas ruins. Não mudaram muito, as escolas. Rap, no meu gosto, não é música, é intervenção poética. E aí ficarei apenas na opinião mesmo, pois não conheço o suficiente para emitir uma crítica.

E eu que me orgulho de conseguir falar de igual para igual com crianças e adolescentes – já disse que se não sou uma eterna criança, definitivamente sou uma eterna adolescente – estava ali sem conseguir me fazer compreender por eles em coisas tão simples. Quando perguntaram minha idade, afirmando que eu não tinha mais que dezoito, e ao verem meu sorriso de orelha a orelha balançando negativamente a cabeça, “tá, impossível mais que 22”. (cara de dezoito, corpitcho de 20 – e garanto pra vocês que o corpo dos 20 era bem melhor que o dos 18) E é assim, não posso irritar-me, não temos culpa se há séculos induzem estas crianças a não perceberem que pensam.

Aí esses dias consagraram a Valesca como pensadora contemporânea. Minha primeira reação foi rechaçar uma prova – literalmente – de Filosofia, com múltipla escolha. Desconsidero totalmente. E aí estava lá o professor confirmando sua hipótese, se colocasse Valesca na prova, a escola viraria notícia. E dizem que virar notícia ajudou ainda mais na compreensão do assunto tratado em sala de aula. E aí o professor falou sobre a escola pública, o pessoal caiu matando – coisas deste mundo maravilhoso da internet – no professor. Pelo que li, e nem foi muito (já explico), o conteúdo da prova era bem aprofundado, tema pertinente, teoria boa – e não é em qualquer escola (muito menos pública) que um professor tem condições de lograr êxito ou sequer trabalhar assim. É aquele velho mito, porque há escolas públicas excelentes – como particulares muito ruins. Educação é uma soma complexa, estrutura, meios, material didático, professores, diretores e pedagogos, alunos (com todos seus pormenores individualizantes de classe social, formação e estrutura familiar, níveis de interesse, estímulo e conhecimento, problemas pessoais e psicológicos, a lista vai longe). E aí a gente sempre quer enxugar esta lista.

Voltarei lá, todos nós pensamos. Nem todo pensamento é válido – e eis que chegamos à Filosofia. Dos pensamentos para os pensamentos válidos há um salto, e de ter idéias, expressá-las e elas serem relevantes, há outro. Não li muito sobre o ocorrido pelo simples motivo de que era mais uma “velha novidade de internet”, porque foi intencional (detesto as coisas intencionais, de verdade – só a espontaneidade me vale). O professor fez questão de dizer lá sei eu quantas vezes que ele não tem Facebook, mas sabia que ia cair “na rede” (ninguém mais usa essa expressão, né?).

Porque tem isso. Ele foi lá e disse que não tem preconceito, mas que não ouve Valesca, não é o tipo de música que ele colocaria no carro. Pra mim, quem diz “não tenho preconceito” já está querendo se defender de alguma coisa. Digo procêis, de todo coração, eu tenho um balaio de preconceitos. Ainda não ouvi a tal música do recalque (palavra brega, hein?). Fiquei aqui matutando: ouço ou não ouço, pelo menos para escrever sobre. Já vi doutorandos postarem a tal música na TL do Facebook. Decidi que terei que ouvir, dos meus alunos, o que eles ouvem, o que eles querem que eu entenda que, para o mundo deles, é um pensador. Mas eles também terão que me ouvir, aqueles nomes estranhos ali no quadro são pessoas que fizeram o que nós, só com nossas idéias e nossa preguiça, não faremos.

Não se ensina a pensar. Foi minha maior frustração na universidade, já contei? Eu esperava da universidade algo nobre, elevado, uma verdadeira “busca pelo conhecimento”. Não foi. E cedo me desiludi. E teve professor que fez muita prova de Filosofia. Até com múltipla escolha. E aquela Filosofia da sala de aula da UFSC (aquela dos maconheiros, lembram?) não tangia nem de longe o mundo real (ai, Platão!). Para a maioria dos professores nem o contexto da vida e das obras estudadas merecia atenção. Era abrir a porta, entrar, fechar a porta e isolar-se deste pobre mundo real para ir para algo inatingível (com um cheirinho de maconha dia sim, dia não)– inclusive, como eles deixavam claro, por muitos de nós, alunos. E aí a Filosofia fica assim, distante até de quem deve ensiná-la – o que, aliás, não era prioridade no curso que frequentei.

No fim e por fim, não ouvi a tal música. Porque fala em recalque… e eu tenho trauma de inveja, de todo coração. Inveja faz mal – para quem é invejado. Faz muito mal. E recalque me lembra inveja. Eu já nem quero mais saber quem não gosta de mim, quem fala mal de mim por aí. Não me contem. Tenho uma prioridade na vida: me afastar do que me faz mal. Para poder mandar o tal beijinho no ombro eu teria que saber quem me inveja ou é recalcado. Tô dispensando, de todo coração.

E o professor, bem, ele não quis quebrar um preconceito. Ele não quis dizer realmente que a Valesca é uma grande pensadora contemporânea. Ele só quis provar (precisava?) o poder das avalanches vazias de internet. A Valesca, coitada, ainda agradeceu, não percebeu a ironia ridicularizante do professor. Não posso levar a sério. Ah, e só queria deixar claro, adoro exemplos na Filosofia. Ensinar a pensar é bem complicado – impossível talvez – mas aí a gente pode mostrar um caminho ali, despertar uma idéia numa cabecinha acolá, transmitir aquilo que a gente já leu, já viu, já aprendeu. Fazer piada, burburinho ou “cair na rede” não sei se ajuda, sinceramente.

Não vejo diferença, como citou o professor, entre usar como exemplo o Chico Buarque ou a Valesca. Junta aí o rap. Não acho algo discutível. Porque o professor lá deve lembrar do Kant e de como a apreciação estética é subjetiva. Aí procuro lá no meu balaio de preconceito, porque julgar o gosto de estético de alguém é muito over. E, sério, escrever over é over demais, hein?

Tipos brasileiros: o insatisfeito

Quem dera eu rompesse meu silêncio para escrever sobre filmes ou sobre livros ou sobre narrativas ou sobre qualquer dessas coisas lindas do mundo da ficção. Quem dera. Relutei muito em escrever, mas o motivo me pareceu interessante – nobre não. Ando à procura dos motivos nobres – tenho vivido alguns. Foi uma portuguesa que me levou a uma avalanche de pensamentos e me motivou a escrever. Uma portuguesa que olhou para o Brasil como poucos brasileiros fazem e senti como que acolhida nas suas palavras – sabe quando alguém fala ou escreve algo no que você se sente aconchegado?

Eis: http://www.cartacapital.com.br/cultura/o-brasil-nao-e-alegre-e-triste-diz-escritora-portuguesa-2178.html

O Brasil não conhece o Brasil. O brasileiro vive de ilusões nas quais ele mesmo decidiu acreditar. Como contei aqui, em uma semana estive nas três capitais do Sul e na cidade mais populosa de Santa Catarina. O que vi foi muita gente nas ruas, eram professores em frente a prefeitura de Curitiba, o pessoal da saúde fazendo barulho no Palácio Farroupilha e estudantes fechando ruas, os trabalhadores e agentes carcerários em Florianópolis e até, pasmem, os atingidos pelas cheias em Joinville. Era pela manhã, pela tarde e até pela noite, andando por essas cidades, a pé principalmente, e lá estava algum grupo e suas vozes alçadas aos ouvidos da maior quantidade de pessoas possível.

Tive tempo para observar, para pensar, para andar por ruas com tapumes e muros pichados e com cartazes colados anunciando paralisação de hospitais, falta de professores em sala de aula, ameaças aos serviços básicos. Além, é claro, de curiosas intervenções artístico-reflexivas sobre o corpo feminino, a Copa, o uso dos animais pelos humanos. As idéias, então, estão nas ruas – através, principalmente das palavras (faladas ou escritas) e das imagens. Andar por essas ruas me despertou a sensação de opressão. Os gritos, em geral, me oprimem.

Pelas ruas de Porto Alegre
Pelas ruas de Porto Alegre

Pensei, pensei, pensei. Alguma coisa todo este rebu queria dizer. Não fui longe… o brasileiro está insatisfeito. Segundo estatísticas, os governos e as declarações do próprio brasileiro, ele tem tudo (e mais muito), mas está insatisfeito. Como qualquer criança ou animal mimado. O brasileiro tem emprego, uma parcela gigantesca tem emprego-sonho público, tem escola, tem casa (que segundo diz o slogan é sua vida), tem bolsa-isso-e-aquilo, tem a sua cansada e velha Democracia, tem um governo popular de Esquerda, tem iPhones, tem internet, tem carro na garagem! (e faz questão de trocá-lo constantemente), leva o cachorrinho para tomar banho no pet shop, tem bolsas e tênis Nike… e não está satisfeito.

Abandonei o mundo da internet por questões muito pessoais. Sou uma atrasada na questão, nunca tive mIrc, durei pouco (uns dois anos) no msn e só comecei quase quando ele estava acabando, fui um suplício no Orkut. Abraço o mundo maravilhoso dos downloads. Acho fantástico o meio, porém muito mal usado. Entediei-me com as TLs tão repetitivas (pessoas são repetitivas e entediantes), com as vidas mirabolantes não-vividas, com as idéias geniais, com as fotografias desfocadas. Irritei-me com aviões desaparecidos, com maconha no campus, com fraude na estatal, com pesquisa que só diz o óbvio e depois desdiz o que disse, com reclamações dos sistemas públicos de transporte, de empresas aéreas e de internet/telefonia – este eterno, enfim, rodízio do prato do dia no mundo virtual.

Uma das melhores atitudes que se pode ter na vida é afastar de si o que – ou quem – te faz mal. Fui afastando aqui, afastando ali. Calo-me. Mantenho um olho atento, é claro. Há algumas TLs divertidas, há pessoas com boas coisas a dizer – mesmo que sejam a minoria – e da diversão e dessas pessoas eu não abro mão.

O brasileiro está insatisfeito. Ele nunca teve tanto e nunca reclamou tanto. Vi alusões ingenuamente doces daqueles que dizem que lugar de aula também é na rua, protestando, reivindicando (ocupando reitorias, talvez). Bem, eu nunca fui às ruas, e desde do ensino fundamental fiz abaixo-assinados, reivindiquei qualidade no ensino (será que sabem o que é isso?), protestei contra arbitrariedades dos professores, apontei faltas graves deles. Do ensino fundamental ao mestrado, sempre e sempre. Dei de cara com o corporativismo fétido dos professores de universidades (federais, privadas e estaduais). Enojei-me com o corporativismo arrogante e puxa-saco dos alunos em todos os níveis. De tudo, a cegueira, principalmente a ideológica, foi a que mais me horrorizou. Na escola, nem na universidade, não há interesse em ensinar a pensar – e aí saem doutores que se dizem politizados, cientes, esclarecidos. Pobrezinhos.

Nunca fui às ruas. Não sou melhor nem pior que ninguém. Mas nunca me calei. Não preciso gritar em frente a uma prefeitura para me fazer ouvir. Diriam alguns que sempre fui uma insatisfeita (ah! Eles se surpreenderiam com uma Fahya renovada e tão profundamente diferente), disse uma vez uma professora de português (eu não tinha nada contra ela nem a aula dela, mas como era uma boa leitora e um tanto à frente nos estudos à época, era um tanto blasé em sala) “o que a Fahya já está protestando lá atrás?!” (voz esganiçada, grosseira) – e eu, bem, eu tinha acabado de contar uma piada para um colega. Não foi a primeira nem a última vez que um professor se sentiu, de alguma forma, ameaçado por mim. Deus há de saber porquê.

Eu sou caxias, bem caxias, e chata. Só gosto das coisas como elas devem ser. Não sou nem nunca fui uma insatisfeita. Insatisfação é como a depressão dos dias de hoje. As pessoas não vivem as vidas que elas tinham em mente, elas não veem projetados na realidade os anseios e desejos que alimentaram nas suas cabecinhas quase vazias. Se eu não consigo o que quero, pelo meu esforço, pelo meu empenho, depois de quebrar muito a cabeça, agir e esperar – sim, na vida é fundamental – eu logo corro postar nas redes sociais um selfie depressive way of life, marco hora no psiquiatra, pego atestado, e continuo a vida normalmente. Vejam bem, depressão é uma doença (e séria) e assim deve ser tratada, acuso aqui os que dela não sofrem e a usam, indevidamente, como subterfúgio para suas vidas infelizes, suas covardias, suas incapacidades, suas preguiças e sua fuga da vida real que não é igual aos sonhos cor-de-rosa.

O insatisfeito brasileiro é esta pessoa que não encara a vida. Que foi mimadinho nos bancos de escola e nos sofás das suas casas. É o que sempre reclama de alguma coisa – ou o que só reclama mesmo. Entre as TLs repetitivas estava lá algo como uma comemoração (e não falo dos militares) sobre o Golpe de 1964 (só de citar me dá vontade de parar). Sim, era tanta, mas tanta, gente escrevendo e falando sobre que parecia algum tipo de comemoração. Eram os saudosos da ditadura. E não digo saudosos os que dela gostavam, não. A ditadura dava um sentido à vida de muitos brasileiros. Havia algo pelo que lutar (a liberdade, talvez, a democracia, quem sabe, nunca entendi direito se eles sabiam pelo que lutavam). Desde cedo aprendi o tesão com o qual as pessoas falavam sobre a ditadura. Até embarquei nele. Era uma paixão, tesão mesmo, quando eles citavam tempos idos (há pouco tempo, é verdade, visto que falo aí de 1993 a 2000 mais ou menos). E nem era o povo adepto das idéias da caserna. Eram os esquerdistas, o pessoal das humanas, os intelectuais do povo. Era tesão. Aí neste meio tempo eu fui lendo, pensando… já não aguentava mais ouvir sempre a mesma ladainha sobre a ditadura. Para pensar é sempre preciso ouvir mais, ver mais, escrever mais, torcer o pescoço para todos os lados. Quem ainda aguenta ver filme brasileiro sobre a ditadura? Aliás, como falar sobre filmes é sempre gostoso, me arrisco a afirmar que os filmes argentinos sobre a ditadura são imensamente melhores do que os nossos.

Sabe por quê? Porque há uma dor latejante, há um sofrimento, há a vitimização (sempre tão ruim e complicada para a construção ficcional) nos filmes deles. Nos nossos há este incômodo saudosismo. Este incômodo e eterno “nós tínhamos pelo que lutar” (acaba aí porque, como eu disse, não tenho bem certo se eles tinham clareza quanto a isso) que arrasta o brasileiro para uma relação anacrônica consigo mesmo.

O brasileiro… ah, o difícil e complexo “o brasileiro”. É aí que a portuguesa me aconchegou nas suas palavras. O Brasil não conhece o Brasil. O brasileiro não está nem aí para o brasileiro ali ao lado dele. Não vou me deter nos intelectuais do nosso país, nesta nata de classe social abastada, com suas salas com ar condicionado, com seus cargos públicos ou em mídias de qualquer tipo. Como eram os intelectuais e os artistas dos tempos da ditadura (parece que atualmente os artistas largaram o osso, podemos discutir imensamente sobre isso – eu adoraria). Eu sou burguês Mas eu sou artista Estou do lado do povo Do povo! O “cara que pensa”, o “cara que conduz a opinião pública”. Ou aquele carinha ali das humanas ou sociais que é todo de esquerda, brada vivas à Cuba, enfrenta PMs para salvaguardar a nossa Democracia, tem uma vida incerta, nem sabe se leu Marx, anda meio esfarrapado e fala em revolução. Felizmente, nem o IPEA vai dizer que estes são a maioria do povo brasileiro.

Pichação num muro n Armação, Florianópolis - pichar pode, assistir à Globo não.
Pichação num muro na Armação, Florianópolis – pichar pode, assistir à Globo não, me dizem os arautos do esclarecimento contemporâneo.

Contou-se um conto ao brasileiro: vamos dizer que zeramos a fome, vamos dar juros para que todos possam dizer que têm carro, vamos dar casas-vidas precárias para serem pagas em parcelas a perder de vista, vamos fazer mais e mais concursos públicos, vamos dar cotas por uma questão histórica, vamos projetar universidades fuleiras em uma meia dúzia de lugares onde não há nenhuma e… vamos fazer que está tudo bem. Sem revolução. Sem soluções reais. Com muita propaganda. Com o sorriso pelo qual o brasileiro é tão conhecido até no Instagram. Brasil, não mostre a tua cara.

O brasileiro quis acreditar no conto que ele mesmo conta por aí. E como o Brasil desconhece o Brasil, reclama da “mobilidade urbana” (só eu já criei antipatia absurda pelo termo que substituiu o bom e velho “trânsito”?), mas gosta de achar que está tudo tão bem. E torna-se um insatisfeito. Como a portuguesa tão bem falou, ao ver as realidades brasileiras para longe do nosso nariz de sul-sudeste, ou de grandes centros, civilizado com acesso a tudo e mais um pouco, ninguém cometeria o despautério de afirmar que está tudo bem. Para deixar claro: não falo dos mimadinhos que já têm tudo e estão ali fora a gritar por alguma coisa, procurando razões para a sua existência, secretamente desejando ditaduras para terem “pelo que lutar”. Falo daqueles que não têm. Dos que estão ao nosso redor e os quais fazemos questão de ignorar. Há uma passagem muito bonita da oração de Nossa Senhora do Desterro da qual falarei num próximo texto que trata disso: de pedir por quem tem menos do que eu.

Não, não é no sentido paternalista da coisa. É uma questão de consciência. Há méritos em dar dinheiro para quem não tem, através de programas sociais, para que possam, ao menos, comer. Mas isto não pode camuflar a realidade de não ter ônibus, não ter água encanada, não ter esgoto. E nem pode ser aproveitado por quem tem como comer, tem onde morar, tem boas condições e, cabendo nos parâmetros burocráticos, vai lá todo mês sacar seu dinheiro “porque tem direito”. O brasileiro insatisfeito e triste mascara sua realidade e ignora sua consciência.

Não vejo pessoas que pensam em como o seu trabalho, o seu estudo e o seu empenho na vida, podem mudar e ajudar a vida dos outros. As pessoas trabalham para elas, para adquirir bens, principalmente. Como disse a portuguesa, o Brasil é capitalista – ao extremo. Nem crianças mais sentem medo dos nossos comunistinhas. Ah, se elas descobrissem o sentimento deliciosamente inenarrável que é saber que você faz a diferença, com o teu conhecimento e com as tuas atitudes, na vida de outras pessoas! Ah, se elas soubessem! Mas o mimado-selfie-depressivo-insatisfeito não tem bases mínimas para iniciar qualquer coisa que o leve a alcançar este sentimento. O Brasil de Rondônia e Acre debaixo d´água, isolados, sem comida não comove o atribulado trabalho-estudo-pego-ônibus-cheio-tenho-smartphone-e-como-no-McDonald´s.

O brasileiro insatisfeito tem me causado aversão como há tempos não sentia por algo. E como eles são assíduos usuários da internet (e são os que pensam que todo mundo tem internet), tenho me afastado comedidamente dela. A portuguesa, ao falar do sentimento de culpa dos portugueses, me fez pensar que um pouco de culpa na cabeça destes brasileiros insatisfeitos não faria nenhum mal. Talvez assim eles tivessem real motivo para uma depressão.

Nunca vi ninguém que não tivesse nada que se mostrasse insatisfeito. Ninguém.

Quando há adolescentes que não sabem o que é um partido político (fato real) ou na narrativa da portuguesa sobre não ser entendida no Brasil mesmo falando a mesma língua, não posso acreditar na propaganda, nem nas fachadas, nem no crédito fácil para eu ter um carro. Não posso. Para uma caxias como eu, é quase “agir conforme o dever”. Só posso discordar da portuguesa quando ela afirma que esse povo que está nas redes sociais é mais politizado. Ser politizado está além dos posts enjoativamente compartilhados – sobre qualquer coisa. E não há ninguém fazendo nada por isso. Nos meus tempos de escola, uma vez ouvi que educação nunca foi prioridade para nenhum governo porque a massa ignara é mais governável. Dói saber que isso ainda é verdade. E não me venham com índices de alunos nas universidades, de bolsistas do PRONATEC, etc.. Pois quem tenta responder com isso desconhece, de antemão, o que significa Educação.

Que um dia estudem esta patologia coletiva do saudosismo da ditadura e possam curar parcela da população – parcela que, curiosamente, cresce devido aos professores e opinadores públicos que proliferam seu tesão por aí. Que o brasileiro aceite sua tristeza, sua realidade e suas vidas, a falsidade das propagandas – aceitar dói menos, não é mesmo? Aquela outra parcela da população, a que não sai às ruas insatisfeita, é a que tem me interessado. Aquele que tem menos do que eu, que precisa mais do que eu seja lá do que for, é que desperta meu coração.

Não é preciso ser portuguesa para não ser otimista sobre o futuro do país, me basta ver, de perto, realidades diferentes da minha (uma dica: nem precisa ir até a Amazônia ou ao Pará). O “país do futuro” encontrou seu presente e não gostou de tudo o que ganhou porque quer… quer o que mesmo?

Os começos, os fins e os finais

Talvez seja a primeira vez que eu cumpro com a promessa de um post. Foi num texto sobre os filmes do Oscar que citei o desejo de escrever sobre narrativas. Tenho, desde então, me apegado a pensar sobre elas – e em mais um meia dúzia de coisas. Tenho, felizmente, pensado muito muito muito sobre poucas coisas.
Talvez, enfim, não seja somente sobre narrativas. Comecei me perguntando se havia uma crise nas narrativas – principalmente audiovisuais – ao tentar assistir ao Trapaça (American Hustle). Era mais um daqueles filmes que começa num ponto da história (ah! como eu sinto falta de poder escrever estória!), depois a história volta a um ponto antes daquele (ou ao ponto inicial “de verdade”). Sabemos que em vários casos há um impacto na alteração da ordem cronológica dos fatos. Nem estou falando em filmes como 21 Gramas e Babel que trabalham com a edição acima da narrativa. Eis que nem lembrava onde havia começado minha cisma com essa possível crise quando, ontem, assisti The Fifth Estate. Ele também começa numa sequência (ah! que saudade do trema!) e volta a um passado pouco distante para “começar” a história. A primeira sequência, no seu devido ponto cronológico, aparece depois na íntegra. Sobre o filme? Benedict fez um trabalho sensacional. O Matthew (do Downton, que eu nunca lembro o nome) também dá o ar da graça. Julian Assange é um personagem e tanto, vale pelo filme.
Mas não é hora de falar sobre personagens.
Na semana passada estive nas três capitais do Sul do país e na cidade mais populosa de Santa Catarina. Viajei de carro, ônibus e avião. Andei muito a pé. Fotografei muito. Pensei ainda mais. E eis que uma pessoa muito conceituada no mundo da criação disse algo que me acompanhou por dias e que fiz questão de colocar em prática no meu último compromisso da semana (que adentrou esta semana, pois já era domingo).
Dizia ele: se você vai fazer algo que é clichê, melhor não fazê-lo. Uma frase simples. Uma idéia simples. Mas de muita sabedoria e essencial para quem cria. Não vem ao caso sobre qual área das artes ele se referia. Eu mesma pude aplicá-la em outra área dias depois. Em qualquer área da criação, não fazer o clichê é muito melhor do que fazê-lo. Se nada inovador (outra expressão bastante presente na última semana) ou criativo lhe ocorrer, resista a recorrer ao clichê. Aliás, pode até ser expandido para áreas que consideramos menos criativas – o mundo acadêmico, por exemplo.
Ficou evidente que o recurso de começar por um ponto para depois retomá-lo é realmente uma crise, ou, ainda, a demonstração de insegurança. Se há uma boa história, comece pelo começo (ouvi algo assim esses dias, talvez tenha sido no Fifth Estate). Agora, se você acha que pode não ser uma boa história… tente não demonstrar criando firulas narrativas.
Depois da frase sobre o clichê lembrei de duas expressões que eu gosto de contrapor. Tem quem diga que tudo o que é demais enjoa (ou expressões semelhantes). Pois eu discordo. Tenho cá pra mim que certas coisas até quando são demais continuam deliciosas. Porém, aquela máxima “menos é mais” me convence. Tenho implantado muitas e profundas mudanças na minha vida e o “menos é mais” ganhou um espaço importante. Nas histórias, menos também é mais. Numa das viagens comecei a ler o Drácula, do Bram Stoker. Era um livro que eu via nas prateleiras da minha mãe, desde criança. Eu via e desanimava com a quantidade de páginas. Também nunca fui fã de histórias de vampiros (apesar de ter ficado impressionada com um filme de suspense, que assisti quando criança, que tinha vampiros mas nem lembro qual era). Achava que era um daqueles livros ostentação, que as pessoas dizem que leram só para todo mundo dizer “óóó” pela quantidade de páginas (o que, anos depois, vi acontecer). Como levar um livro daqueles na bolsa? Só para ler em casa. Mas encontrei-o gratuitamente na Amazon. Aí sim teria a oportunidade de lê-lo.
Por que citei o Drácula? Porque esses dias ouvi uma crítica às apresentações de personagens. Juntando-se a isso o “menos é mais” teria todo sentido. Mas Bram Stoker descreve cada detalhe da paisagem, não economiza adjetivos para descrever as ações, detém-se nas roupas dos personagens. Ali, mais é mais. E a história começa do começo. Talvez, enfim, as histórias não precisem de menos nem de mais. Talvez as histórias precisem apenas ser contadas. Sem clichês – afinal a vida já está cheia deles -, com começo, meio e fim – mesmo que os fins não sejam finais.

Aliás, estou em busca de histórias sobre as impossibilidades (do coração, de preferência). Nestas, os fins que não são finais são indispensáveis.

 

(ps: não estranhem os sumiços e matem a saudade lendo os textos mais antigos; prometo voltar a escrever com frequência e sobre essas coisas bobas da vida – me aguardem)

Acerola com laranja

Bebia um acerola com laranja no balcão. Na esquina, via o calçadão a perder de vista. Pensava. Gestava meu tempo. Tempo, tempo, tempo. Finalmente havia encontrado onde acerola com laranja não era de polpa. E a idade, de fato, me deixara ainda mais exigente. Via a esquina. Pensava. Centrava minha vida naquele balcão: fora do teto, sol calor, três vias à disposição. E meu desejo era permanecer naquele balcão. Pensava. O temporal do dia anterior fora pontual: às 18 horas. O calçadão virara uma cachoeira. Os ônibus que dobravam a esquina da rua lá de baixo seguiam uma rua que desaparecera sob a água e faziam ondas. Ondas sempre me lembram o mar. Mar sempre me lembra a vida. A roupa encharcara antes da esquina, eu temia pela integridade dos objetos na bolsa. Sobrevivi sem nem uma bela dor de garganta. Pensava. Se eu não sabia o que fazer com o meu tempo, o que eu estava fazendo com a minha vida? Não era bem assim… pensava. Quantas vidas eu tinha – hoje, só hoje, durante o tempo deste copo de acerola com laranja? Pra que tantas vidas? Eu preferia assim. Eu gosto delas. Quando se escolhe seguir vários caminhos ao mesmo tempo demora mais para chegar onde se quer. Tem quem prefere os caminhos às chegadas. Mais ou menos como é o sexo. Pensava. Calor absurdo para aqueles dias. Absurdos atraem absurdos. É a parte boa da vida. Pensava. O copo quase vazio. Quando era uma só, um desejo, uma casa, uma cidade, não era feliz. Quer dizer, era feliz mas vivia tragada pelo escuro. O escuro em nada se parecia com o céu lá fora – hoje ele exigia ser contemplado. Os paralelepípedos brilhavam. Eu queria seguir os três caminhos que surgiam naquela esquina. Pensava. Não havia mais acerola com laranja. Dizem que é preciso planejar. Não sou boa nisso. Lá iria eu pela direita da esquina. Daria a volta pela rua de cima, desceria pela segunda opção e seguiria pela terceira. Alegremente. Ansiando absurdos. Como ontem durante o temporal, tremendo de frio disse para mim mesma: sorria.

As filas de quatro patas e os rumores

Já havia se espalhado não mais pela rua toda, mas pelo bairro, talvez já por toda a região sul da cidade. Os donos das quatro patas vinham às dúzias, filas dobravam as esquinas. De dia, de madrugada, o tempo todo. De manhã cedo mal abria a porta eu já me deparava com os primeiros da fila. Num começo de tempestade no meio da madrugada, ao levantar para tirar as redes da varanda já encontrava os que guardavam seus lugares na fila. Eram gatos, cachorros… de várias cores, tamanhos, com aqueles olhares doces e compridos.

Não sei se foi fofoca, disse-me-disse, ou se a coisa espalhou-se porque passavam aqui e viam a vida que os nossos levam. Só sei que agora todos sabiam que nossos quatro patas (e duas patas e duas asas) eram muito amados e bem tratados.

Antes da coisa fugir ao controle, foi um gatinho cinza magricelo. Deitou no portão lateral num dia de calor escaldante e ficou. Eu tentei espantá-lo quando vi de longe porque pensei que era mais um pretendente às nossas gatas. Aí reparei que ele mancava da patinha direita da frente. E assim os portões de casa foram abertos. Água, ração, caminha, a garagem toda dele. Em minutos ele já parecia fazer parte dali, liguei para veterinário, vimos tudo o que podia ser feito. E assim eles foram aparecendo. Não havia mais terreno para os nossos cachorros, nem casa para as nossas gatas. Eram latidos e miados exigentes que queriam portas e portões abertos.

A nossa gata mais louca subia presunçosa à janela, olhava para a fila em volta de casa e narrava sua boa vida boa. Sim, elas comiam peixe feito pela melhor cozinheira. Claro, dormiam todas as noites na cama. É verdade, quando faz friozinho ela coloca a coberta grossa de lã no sofá e nós nos refestelamos. Ah, sim, ração com nuggets, sachês de salmão e cordeiro. Também, cenoura, iogurte, milho cozido tiradinho da espiga e dado na boca. É, tem lá seus pontos negativos, aquelas horas de terror no banho quase sempre, as idas ao veterinário que tira a temperatura, limpa as orelhas, dá vacina. Sim, naquele carro ali, passeamos, viajamos e exigimos que não seja na caixinha de transporte. Na rede? De vez em quando. Eles não deixam, mas quando dá vontade a gente pula nas mesas, escrivaninhas, na TV, escala os armários e guarda-roupas. Ah, tem leite condensado também, toda vez que fazem doces! Água fresca é só pedir, dão na hora. Caixinha sempre limpa ou ainda a gente pode passear e fazer pelo jardim. Sim! Subimos em árvores e afiamos nossas unhas nos seus troncos! Não sou muito calorenta, mas quando quero tenho ventilador só pra mim. Tem uma que é friorenta e dorme debaixo da coberta, com a cabeça no travesseiro, como gente! Quando ela chega, me pega no colo, coça minha barriguinha, me aperta, me joga pro alto e pega no ar.

E assim foi se espalhando e as filas crescendo… até a tartaruga, quando não estava de nariz empinado, gostava de ir até a janela e lá de dentro do aquário destilava superioridade. Tenho esse aquário enorme só pra mim, sim. Camarão e ração, todo dia. E agora até consigo enganá-los, porque é só eu pedir comida que todos dão. Antes eu, bobinha, só pedia uma vez por dia para um deles. Aí eu vi que se fizesse meu estardalhaço n´água quando escurece, todos me dão. Isso, passo o dia aqui boiando no meu banho de sol. Eles sempre trocam a água e eu posso nadar e nadar e nadar.

O psicopata, o cão que já é maior que eu, com esvoaçantes orelhas de dumbo corria desvairado de um portão a outro gritando: estão vendo tudo isso?! É meu! Tudo o que tem aqui é meu! Eu corro louco para onde eu quiser, quando eu quiser, posso até perder o sono de madrugada e ficar correndo atrás das sombras latindo alto! Estão vendo as árvores? Pois eu como pitanga, acerola, maracujá, goiaba, jabuticaba, tudo diretamente do pé! E quando quero é só ir na janela da cozinha e fazer a cara que eles acham lindo e ganho banana todo dia! Claro, tem biscrok, ração, baldes e baldes de água fresca. Eu sempre ganho camas enormes (ó o meu tamanho, né, e como não é só pra mim…), sofás, travesseiros e destruo tudo! Só para vê-la chegando com mais presentes pra mim! De vez em quando ela me leva pra dentro: quando está muito quente eu deito no piso de cerâmica da sala e ela me dá gelo na boca, quando está muito frio eu deito no tapete da sala de TV e ganho leitinho quente – como quando eu era pequerrucho! Os outros também ganham tudo, a gente não tem motivo pra brigar. Mas eu fui criado com as gatinhas, com as quais eu adoro brincar, e aprendi a comer milho cozido direto da espiga! Nas férias eu ganho todo dia! Ah, quando faz frio e ficamos aqui fora ela vem e acende o fogão à lenha da varanda fechada, coloca nossas cobertas de lã, deita ali conosco e ficamos no quentinho. Ah, sim, desde quando eu era pequenino ela me chamava para deitar no colo dela e eu só consigo dormir bem quando ela vem e senta na varanda, no chão mesmo, ou no banco, e eu posso deitar no colo dela! Quando não durmo no colo dela, sonho com isso! Eu posso lamber, morder, agarrar a perna dela com as duas patas pra ela não ir embora, pedir companhia para correr pelo quintal todo, que ela não briga comigo e faz tudo o que eu quero! Eu sei que eles não gostam quando eu destruo as plantas e vasos do jardim, mas é que assim eles ficam ainda mais tempo comigo. Eles também não gostam quando os outros cavam buracos sem fim perto das calçadas, mas a gente se diverte. Claro, tem banho que eu adoro! Desde pequeno tomo banho de mangueira com ela e nos divertimos muito! Quando está frio eu tomo banho lá dentro com água bem gostosa. Ela usa dúzias de shampoos e sabonetes pra gente ficar bem limpinho – porque eu me sujo demais, eu sei. Eu gosto tanto de banho que quando os outros estão no banho eu entro e fico olhando. Também adoro ir ao veterinário! Alguns aqui não gostam muito porque tem injeção. Mas eu sou corajoso! Eu adoro passear de carro e na coleira! Quando eles colocam o carro lá perto do portão e bobeiam deixando a porta aberta eu já entrou e vou me refestelando! Sim, também vamos pra praia! Fazemos rodízio! Lá é menor mas é bem gostoso, tem areia pra todo lado!

O passarinho que é meigo, não gosta nem de contar vantagem do seu belo canto, também deu seus gorjeios. Sim, banho, banho de sol… alpiste, espinafre, galinhos verdes todos os dias. Ela leva e traz minha gaiola, protege do vento, dos pernilongos malvados, coloca areia. E me chama de Nelson porque quando vim pra cá era muito boêmio. Agora tenho companhia, fico ali durante o dia conversando com curruíras, pardais, rolinhas, bicos-de-lacre e sabiás que vêm todo dia comer nos comedouros do jardim e do quintal, tomar banho nas bacias. Meus amigos ficaram encantados com a nova vida aqui, me contaram horrores do que já passaram em outras casas.

Eu procurei me conformar. Se fosse um negócio, diria que a propaganda é a alma do negócio. E por mais que meu coração seja ainda maior que os terrenos que tenho, sofro quando não posso dar tudo para todos, acolhendo-os como já fiz com estes – e com tantos outros que já partiram deste mundo mas que vivem aqui nas minhas belas e doces lembranças. Agora é minha vez: eles nunca foram ao cinema comigo, é verdade; também nunca jantaram naquele restaurante caro, ou foram naquela festa. E melhores amigos nunca tive. Sempre atentos ao meu humor, às minhas tristezas, sempre felizes e sorridentes (sim!) com disposição de sobra para me fazer companhia. Me ouvem como ninguém e para eles já contei coisas que viv´alma de duas pernas neste mundo nunca saberá. Não me cobram, não ficam “de mal”, não esquecem de convidar ou de simplesmente ligar para saber como estou – sei que se pudessem, ligariam e eles me ouvem mesmo por telefone. Tardes chuvosas, manhãs ensolaradas, dias longos e cansativos… com eles ficam perfeitos.

Para muitos de duas pernas já dei quase tanto assim de mim, já dei amor, dei cama, dei comida, dei carinho, dei colo, dei meu tempo, levei ao médico, dei minha companhia, meus ouvidos, minha total atenção. Dou pedaços da minha vida. Enquanto os quatro patas (e os de asas!) nunca me abandonaram, nunca deixaram de falar comigo, os de duas pernas viram a cara quando me encontram nas ruas, me bloqueiam nas redes sociais, cortam relações duradouras ou curtas e intensas, ao contrário daqueles, estes espalham pelos quatro ventos coisas ruins a meu respeito. E assim também correm bairros e cidades. Mas as filas de quatro patas me dizem muito mais. Curiosamente, há filas dos de duas pernas também. Eu confio e acredito nos primeiros. Nestes últimos, não vejo porque depositar amor, crenças e esperanças.

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