Encontro desmarcado

Bati três vezes na porta

antes de entrar

sonhos esquecidos

alma livre

e um punhado de sorrisos

trouxe na bolsa

 

Os pés descalços

em silêncio atravessaram

vales e enseadas

inundações e folhas secas

e o chão de madeira do teu quarto

coloriu as cicatrizes

 

Espia pela veneziana

a chuva que nos abençoa

– faz de mim

tua visita cativa

 

Se desmancha no ar este pó

(tempos do nosso abandono)

sob os lençóis

no recado no espelho

na dedicatória do livro

no porta retrato sobre a mesa

no chocolate na gaveta

no bilhete no bloco de notas

 

Traçado na rota

as velas enfunaram-se

o encontro desmarcado

tantas vezes

e desembarcamos atentos

na mesma praia.

Nós

Nós. Os nós de marinheiro que nunca consegui fazer e me deslumbravam nos quadros e enfeites fúteis. Não sei fazer nós – nem em cordas que prendem cachorros ou coisas quaisquer. Soube, porém, sempre dar nós na cabeça, no que eu tinha para dizer em grandes momentos, naqueles dias tão pesados que os ombros recaem sobre o peito diante do espelho depois do banho. Quem dera, Futuro, que eu te trouxesse boas notícias hoje. Me puxa, Futuro, falando em nós e em meses, anos, dias, segundos – que os prezo muito – e, audaciosamente, no sempre. O sempre pode ser medido? O sempre é número? É quantificável? Meses, assim, eu entendia. Um, dois, o décimo segundo esperado mês do ano. Os três amados primeiros meses do ano. Não sabia que eles podiam ser calculados em madrugadas e finais de semana inesquecíveis de tão perfeitos. A perfeição existe? Pois então! O copo se vê vazio, resolva isso, por favor. Que eu quero falar dos meses. Noção de tempo, meus caros, vocês têm? Bom relacionamento com os números e cálculos, também? Pessoas boas são vocês. Eu não os tenho, tenho cá sentimentos. Dois meses, quanto é dois meses para vocês? Sessenta e um dias, fatalmente – ou sessenta e dois, ocasionalmente. Encha o copo, que copos vazios não geram nós nas cabeças entre meio vazios e meio cheios. E um nó? São nós. Nós entrelaçados, cordas cortadas de seus navios que seguiram viagem e jazem à deriva tão unidos como nunca a flutuar num mar de possibilidades. Ficamos tão sozinhos para saber prezar essa união num encontro que de tão inesperado é dolente em dias a fio na distância de que o nó se ate todos os dias, cada vez mais. O nó roça nossas nucas ao mesmo tempo que não nos escapa driblar tempos em cada eternidade de segundos. O nó torna-se, como diria o pastor, o plural, o nós sendo dois num só nó – envoltos, prisioneiros de si mesmos naquilo que não nomeamos, quando diante da perfeição do mar a bater no costão isolado, eu quis dizer e você me impediu. O mundo existia, Futuro, numa música distante que vinha da praia com o nome da nossa cor. As praias têm cores? Claro que tem! Em que mundo vives que nunca percebestes isso? Futuro, veja, o que são dois meses? Dois é sempre dois. Dois meses, um nó sendo nós. Futuro, acho que dormi enquanto te esperava. Culpa-me. Culpa-me a indolência. Culpa-me, mas não duvide da minha persistência ao vermo-nos tão impossíveis: tu tão curioso, eu tão observadora. Desconfiávamos, é verdade. E, vê, Futuro, o tempo… falta-lhe ainda alguma metáfora? Acaso falte, disponho-me a usá-la. Tempo, encurte distâncias, aproxime camas, una desejos. Tempo, não me apunhale pelas costas. Deslize momentos ao longo de estradas com destinos inesperados. Fiz coleção de relógios na minha adolescência para hoje não saber esperar o tempo, Futuro. Os relógios, parados, ficaram sem pilha e pararam de apressar-me. Dei bobeira nessa de encontrar-te nas esquinas e sebos da cidade. Eu queria ser, queria crescer, queria experiências e arrotar meus conhecimentos dos mundos. Eu quis, Futuro. Você chegou e fiquei sem palavras: de que tudo aquilo me valia? Eu era nó em mim mesma. Vê. E nem nos nós de marinheiros existe o nó de dois nós. Perdoa-me as tentativas vãs de desatar-nos; é que vaguei à deriva o tempo todo como apenas nó sem enosar-me em outros nós. Futuro, dois meses multiplicam-se? No primeiro, fui feliz; no segundo, fui muito feliz; e no próximo? Serei ainda mais feliz? Como fica progressivamente isto à eternidade? Questiona-me, por favor, se a eternidade existe. Ponha-me os pés no chão. Diga-me que amanhã não será possível. Futuro, ama-me. Arranca-me das fatalidades das obrigações da vida, Futuro; e joga-me nos braços do nó que faz de mim nós. O copo vazio, novamente, meu nobre amigo Futuro. Delírios me dirão que sinto cheiro de ovo frito. É como encurto distâncias. É como digo-te que eu queria, naquele dia, naquele costão, naquele momento, naquele silêncio, dizer-te o que jamais pensei que diria. Calo-me, insensatez. Esses dois meses podem ser vistos num videoclipe com o som sem sincronia. As palavras saem das bocas e não são o que ouvimos. Talvez seja a melhor metáfora para o tempo. (sobra-lhe, ainda, alguma metáfora?) Futuro, queda-te. Transcorre entre meus medos e minhas esperanças. Entre minhas propostas e perguntas que te pegam de surpresa. Fica, Futuro, que não aprendi a calcular os dias. As horas. Os meses. As datas. As distâncias. Os meses… sei que somos nós – dois nós que se encontraram à deriva de mares serenos à superfície. E os nós, dos marinheiros, não salvaram tantas vidas como as nossas. Vidas que o mar abençoa todos os dias. Mostra-me: o mar. A amar.

Noitada

Quem vê

o vestido até o joelho

não nota

o lábio trêmulo

de desejo

 

Quem vê

o sorriso de moça comportada

não sabe o pecado que cometo

no breu do estacionamento

e com o nó da tua gravata

 

Quem vê

minha falta de jeito numa valsa

não desconfia o que te digo

ao pé do ouvido e o que faço

com o nó da tua gravata

 

Quem vê

meu olhar sem brasa

não imagina que eles te despem

dez vezes por minuto e só deixam

o nó da tua gravata

 

Antes de chegar

àquela rua sem saída

a boca seca

nem mais controlava

querer-te e ao

nó da tua gravata

 

Teu suor me molhava

como o temporal

que agora a cidade arrasa

e sob a pele quente

o desejo arrefecia

até, de novo, eu lembrar

da tua gravata

Lábios silenciam-na

Nós poderíamos discuti-la eternamente – caso tivéssemos a eternidade ao nosso dispor. Mas, você sabe, não temos. Talvez debatêssemos por algumas horas apenas e não chegaríamos a nenhuma conclusão, apenas nos desgostaríamos um do outro e nem atenderias mais às minhas ligações no dia seguinte. Você sabe, quando as pessoas não se entendem elas preferem se afastar. Pra que ficar junto se não vemos as mesmas coisas? Onde vejo azul, você vê o verde – aquele verde que tem gente que acha que é azul, não sei como.

Quem sabe poderíamos recorrer aos eternos – eles de fato o são – pensadores, filósofos e literatos e a um punhado de poetas. Eles, dizem os mortais que os lêem, sabem o que ela é, onde está, como identificá-la. Teríamos, porém, que ler muitas velhas páginas e (tenho cá pra mim, que nem perto disso ainda cheguei) eles mesmos se contradizem, vivem apartados porque não a conhecem por inteiro, ou porque discordam dos meios de como alcançá-la. Ainda assim, então, discutiríamos sobre qual deles levaríamos em conta e quais descartaríamos.

Se não há consenso, será que ela existe? Será ela a minha, a sua, a do outro ali? Dizê-la plural parece uma heresia (e é). Sei que alguns recorrem a Deus, que ela e Ele andam juntos. Outros jamais a abandonam, são donos irredutíveis das suas (mas a julgam única). Poucos afirmam que ela não existe, incrédulos que são. Há quem diga que ela está nas coisas, ou nos sentimentos, ou, ainda, há temerários que têm a convicção de que ela pode ser alcançada pela razão. Mas é tanta confusão, nem parece que falamos da mesma coisa.

Eu acredito nela. Acredito quando não queres me dizê-la com todas as letras – mesmo eu pressentindo-a. Sei que ela é só uma – jamais discutiríamos os tons de uma cor, se a nossa nós sabemos qual é. Duvido que todo o conhecimento do mundo e as tramas do raciocínio lógico me levariam a ela. Duvido, mesmo. Ela existe no teu olhar.

A verdade é fácil de encontrar. Não há segredos a serem decifrados. Nem caminhos tortuosos. Ela surge no coração e segue entre carnes e sangue até brilhar os olhos e abrir-se ao mundo. A verdade é única e só surge uma vez. Dizem que não é possível exterminá-la – os homens de vez em quando tentam queimar livros, torturar e condenar bruxas. E ficam os olhos a iluminar outros olhos que também brilham. A verdade se encontra. A verdade une – não é verdade se gera discórdia. Por isso, às vezes, lábios silenciam-na. Ela é tão evidente, grita silenciosa sua presença, que não encontra tradução em palavras – pobres palavras.

Eu diria que besta é quem se desespera atrás dela – aprofunda-se em páginas, ouve líderes, religiosos, e no afã não distingue os mal intencionados. Mais abobado ainda é quem diz encontrá-la em tantos olhares opacos por aí. Entendo-os, porém. Todos nós a queremos. Todos queremos tê-la. Todos queremos dormir e acordar com ela ao lado. Eu diria, ainda, que é imprescindível atenção… buscá-la em silêncio e paz na alma. Ela existe no teu olhar. E só eu posso vê-la.

Anfitrião

Repara

no reflexo dos nossos passos no vidro da passarela

repara

no nosso sobe e desce as escadas

e no caminhar na praia:

seguimos em perfeita sintonia

 

Repara

na nossa risada

repara

nas nossas diferenças

e nos livros que já lemos:

é o que em comum temos

 

Repara

no mar ondulando sob nós

repara

na onda espatifada contra a pedra

e no sol amarelando nossa tarde:

abraçados pela orla ficamos

 

Repara

no meu olhar medindo prédios e morros

repara

no que eu quis dizer e titubeei

e como eu encosto a cabeça no teu ombro:

não sou fácil de ler

 

Repara

no quanto já andamos

repara

no quanto já nos contamos

e no tanto que ficou pro próximo encontro:

que os dias não voam

 

Repara

nos sinaleiros fechados

repara

nos vizinhos espiando

e nos gritos pela madrugada:

desconfiarão que tens namorada

 

Repara

no Baudolino que não te emprestei

repara

que não levei toalha

e no creme que eu deixei:

pistas que me levarão de volta

 

Repara

no tempo que levei pra chegar ao teu colo

repara

no silêncio das tuas lágrimas

e na esperança magoada:

em doses de madrugada eis a cura

 

Repara

no meu humor e nas surpresas

repara

na nossa janta improvisada

e nas nossas mãos entrelaçadas:

só faço dessas promessas

Às pressas

 

O prato de doces

restou intocado sobre a mesa

as rolinhas amavam-se

sobre o mato que se alastrava

pelo jardim

bicavam-se e trepavam-se

como se sorrissem do descaso

as cortinas empoeiradas

sussurradas pelo vento por entre

as frestas das janelas fechadas

às pressas

a torneira da pia do banheiro

pingava a cada dois segundos

num eterno conta-gotas

do abandono até secar

a caixa d’água

os gatos debandaram ao passo

da fome lá pelo terceiro dia

viraram latas pela rua

ainda esperavam entre cochilos

e perseverança

as lâmpadas acesas da varanda

esquecidas na manhã do desespero

levadas à exaustão das horas de vida

escureceram de vez a fachada

da casa

um silêncio frio dormitava

sobre o piso escuro

e amparava as manchas

da desgraça

um travesseiro caído ao lado

da mesa da sala de jantar

murchava os sonhos ali

travados em batalhas solitárias

paredes brancas testemunharam

o fim

 

Era meados de Outono.

(nada dura até o fim de um Inverno)

o teto ruirá junto ao Verão

seus restos confusos

invisíveis serão pelo alto muro

– de pé, permanecerá um poço profundo.

O alguém e a moça

 

Refreou as vontades, que era pessoa disso: de vontades. Mimada, diriam. Filhinha de papai (ah, se soubessem). Namoradeira, segundo as más-línguas. Dizem, porém, que mães sabem das coisas. E sabem mesmo. Pessoas de vontades, eu diria, são as melhores pessoas. Não deixam nada a dever, não arrumam escusas, não titubeiam (ou bem pouco e a gente nem percebe). Assustam, por certo, pois sorriem quando querem sorrir, desejam quando querem desejar, amam quando querem amar, desaparecem quando querem desaparecer. Mas, naquele dia, deixou as vontades quietinhas no balanço ao lado. Era amarelo, se não estou enganada. Pessoas detalhistas são assim.

Foi quando alguém entrou na sua vida. Esse alguém cedeu às suas provocações: não sabia que não se cai nas provocações das pessoas de vontades? Descaminhos irreversíveis, querido alguém. O alguém, porém, era desconfiado. Desconfiava da moça do caixa, coitada. Desconfiava, dizia, dos outros. Na verdade, a moça das vontades, também desconfiada – foi o primeiro ponto em comum; um tanto incomum, não? -, desconfiou que o alguém desconfiava era de si mesmo. Ufa, tanta desconfiança – e eles confiavam um no outro e nem sabiam.

O alguém, um improvável sedutor, seduziu a moça das vontades por longas caminhadas – que de bobo não tinha nada, mas era assim que por vezes ela lhe chamava. Caminharam por praias amadas, por paisagens de lindos morros em promessas de companhia e de passeios de trem. Ousaram caminhar por costões e foram seus primeiros gemidos – de dor. O alguém e a moça tinham passado: que se via no brilho opaco dos olhos e no tremor dos lábios no escuro. O passado, sempre digo, lá no seu lugar deve ficar. Mas quem sou eu para dar palpite, eu só observo. Não lembro bem como foi, o alguém se abria, a moça se distanciava – essa gente de vontades, quanto mais vontades têm, mais teme tê-las.

O improvável sedutor levou-a em busca de bancos simpáticos em praças vazias e em recantos de lagos inóspitos pela cidade. O alguém queria levá-la a lugares bonitos, a moça não tinha boas intenções. E perderam-se em carícias desconexas. A moça falava muito, que até vontade de falar lhe sobrava, o alguém só permitia que se falassem nos breves sinaleiros fechados. E encontraram-se em histórias distantes.

Tem dias que a moça só quer um abraço. Mas precisa de uma palavra que nem sabe, uma palavra de apoio, de incentivo. E só o alguém sabe dizer as palavras que ficariam sob o breu do espaço. As pessoas dirão que conhecem a moça, sabem da sua preferência por maçã, goiaba e melancia; mas só alguém saberá onde ela deseja estar agora. Tem aquelas pessoas que convivem com a moça, todo dia, o dia todo. Ou aquelas que puxam assunto diante do cesto de abobrinha da verdureira. Só o alguém manda mensagem dizendo que a quer mais do que a caldo de cana com pastel – caldo de cana com pastel, meus queridos, não é por qualquer um que se troca esta dupla. Podem até cozinhar milho para a moça, mas só alguém a leva para sobrevoar os domingos nas asas do querer sob morros nublados e rios alastrados.

E foi num sábado, promessa de banco da praça do mercado. A moça aguardava e feliz já estava quando o alguém de vez entrou na sua vida. Entre tremores e sorrisos – ela jamais esqueceria aquele sorriso – perderam-se em abraços. Tinham promessas a cumprir, poucas não são. E a moça quis retribuir, que ela ainda sufoca-se em vontades – mas insisto em dizer-lhe que as pessoas de vontades são as melhores, ela não me dá ouvidos, pois teimosa. Mares bravios os acompanharam, os dias se arrastaram, viam-se unidos em um estalo. E gostavam-se de viver em abraços. Eu que não sou chata de querer avisar nem nada, mas que eles não tinham volta, eu sabia.

Alguém é essa pessoa que te rouba as horas – amada em verso, prosa, fotografias e canção. A moça, bem, da moça só posso dizer que é pessoa de vontades. Dos encontros improváveis, na vida, temos os melhores convívios. Tudo o que vem pelo óbvio certo está que termine. O alguém é o teu convite irrecusável, a falta ao longo dos dias intermináveis. Mães querem a melhor das moças para os seus filhos, mães sabem quando há um alguém na vida das suas filhas. O alguém e a Moça se espantam que de tanto conversarem ainda há muito a se falar – sempre. E são, um para o outro, a primeira pessoa que eles tanto esperaram.

Agora ela só quer refrear o tempo quando estão juntos. E nem é a única culpada, porque o alguém a observava com seus olhos perspicazes enquanto ela sentia um coçar de leve atrás da orelha. Nenhum dos dois se arrisca nos cálculos, e eu digo que o fazem muito bem. Mas subtraem dias, somam meses, guardam semanas. Se lhes vissem, ficariam admirados: e não brigam? Pois não. Eles fazem do jeito deles. Quando embarcaram na estação, optaram por deixar as bagagens, tirar os anéis, as carteiras, os objetos de valor, e até os calçados. Por pouco que nem seguiriam com a roupa do corpo. Mas avisei que parariam atrás das grades e não no paraíso.

Fizeram planos noite passada – ouvi de longe e sorri satisfeita. Riscam calendários e entrelaçam-se em convites para aniversários, casamentos e datas festivas. Nem sabem se atravessarão o próximo fim de semana, mas quem seria eu a toldar-lhes a visão com a prudência? A moça empenha-se em surpresas, o alguém provoca-a com mistérios. Parece-me que, dentre o risco das promessas, só terão a cumprir algo em torno de mil beijos. Achei por bem não comentar que foram sábios, ao menos nisso. O alguém pediu-lhe livros emprestados, a moça cobiça a praia perto de onde ele mora. Não se enganem, os corações andam juntos nas letras e nos mares…

Estimo-os muito, não custa dizer. Fizeram-me acreditar que até os solitários têm chances nesta vida. Ou que as curvas da vida podem se encontrar muitas vezes, nas quais o alguém e a moça estiveram tão perto e mal entreolharam-se, e só Deus sabe porque e quando desaguarão de vez no mesmo leito cansado de um rio caloroso. São coisas de Deus, quem sou eu para me meter.

Forasteira

Quando cheguei não vi o mais óbvio. Ou, pior, não quis ver. Chamavam-me forasteira e eu achei bonito – sem atentar ao certo as razões. Pensava num western e seus montes de feno ao vento nas ruas empoeiradas, uma dançarina com a cara (e o corpo e a voz) da Marilyn Monroe sentada sobre o piano do saloon entoando dores de um amor abandonado e à espera do seu happy end nos braços de um bonitão rústico. Forasteira eu sorria. A cidade tinha um quê de western, abandonada, velha, atrasada. Eu tinha tudo de forasteira: não era dali, dali não me sentia, me olhavam de alto a baixo, mantinham-me à distância, não gostavam da minha conversa nem do meu olhar. Novamente, preferi não ver. Eu não pertencia àquele lugar. Pertenceria a algum lugar? Instigava-me este ideal de pertencimento, um útero imperfeito onde, de olhos fechados, as pessoas sentiam-se no “seu lugar”. Existiria tal lugar, no meu caso? Forasteira eu me isolava. A vida ali em meio a cavalos amarrados nas portas dos comércios e mocinhas desocupadas a futricar nas janelas em nada me atraía. Era uma gente de mentalidade mesquinha. No meu rancho eu me retirava com meus livros e palavras. Nem de companhia eu precisava. Raras vezes me viam a circular de botinas grosseiras e pistola na cintura e aos poucos as ruas se esvaziavam. Não queriam conversa – eu nem os olhava. Via aquela gente presa às roupas e convenções dignas de outro século. Ah, o tempo ali não dera as caras! Enquanto ele escorria-me pelo corpo em dias de eterna chuva. Descobri, como se realmente não o soubesse, que naquela cidade os invernos eram longos por demais. E fazia frio até em novembro. Vivi dois invernos inteiros com o coração adormecido e as idéias a cogitarem me acordar daquele sonambulismo pérfido. Queriam-me, as idéias, longe dali a cultivar novos pomares, a plantar novas hortas. O coração ansiava que lhe deixassem quieto, fosse naquele rancho ou em qualquer outro. Sentada na varanda com os pés na amurada nos poucos dias ensolarados, eu ignorava-os todos. Revestia-me da couraça de forasteira, entre os meus e entre os olhares irrepreensíveis da cidade, e mantinha serena minha vida de solidão. Ouvia os cochichos, as perguntas, porém. Permitia-me ignorar todo o meu entorno. Ouvia, ao longe, a voz da cantante do saloon. Talvez ela também uma forasteira. Talvez ela angustiava-se que o seu bruto a levasse para longe dali, onde jamais bêbados fétidos reconheceriam o seu talento. Nem com meu talento eu me importava mais. Nem com o reconhecimento. Importava-me com a cama pronta à noite, o silêncio que me despertava os pensamentos, a ordem das coisas no vazio pelo qual eu – sem saber – havia optado. Não sabia se era passageiro, se forasteira seria, de novo, em algum outro recanto do mundo. Certo é que ali permaneceria. Forasteira eu segui. E em pouco tempo as cavalgadas pela aridez do deserto capturaram meu olhar para outros horizontes. Fui despertada pelo movimento sutil de uma árvore solitária na imensidão, por diligências que traziam notícias de longe. A roda gigante do mundo acordava-me. Talvez impelida pelos pesadelos que agora me acometiam no dia a dia que antes fora tão passadiço. Forasteira eu mirava novas emoções. Ainda que fossem as mesmas de outras vezes. Certo é que nem dois invernos me fizeram querer ficar ali, pertencer àquela terra que fora dos meus antepassados, onde eu deveria sentir-me ligada inefavelmente ao futuro. Aquelas caras que torciam-me o nariz eram apáticas e falsas. Ignoravam o doce lamento da moça do saloon. Forasteira eu sentia o calor na cama a impelir-me a sonhos inauditos. Fazia-me promessas. Ocultava meu desprezo por aquela gente que fingia aceitar-me forasteira nas minhas largas calças jeans e no meu colete puído. Eu sabia as artimanhas deles quando jogava despreocupada o velho chapéu sobre os olhos ao meio-dia de um sol de quebranto. Não arquitetei os próximos movimentos, foi meu erro. Forasteira ali e em qualquer lugar seria. Abandonei-me aos azares da vida, tal qual a cantora do saloon que envelhecia sob a maquiagem escorrida. Todos os dias passava perto da estrada que para outras paisagens, quem sabe um dia, me levaria. O cavalo inquietava-se sob a sela e eu lhe dizia um breve “hoje não” e quando o hoje seria? Acordava cada dia mais tarde, almejando que mais rápidos eles passariam, dormia, sem sonhos, na secura dos finais de madrugada ao ouvir os últimos acordes do piano do saloon ao longe – quando quase rouca e tão triste a voz da dançarina bailava meus desejos mais evidentes. Forasteira eu sorria. Tínhamos, eu e a Marilyn Monroe da cidadezinha pobre, colona e mesquinha, a mala sempre pronta atrás da porta do quarto.

As coisas não caem do céu

Quem dera fosse a chuva miúda

a lamber nossas noites amareladas

 

Não seria o dinheiro que não dá

em árvore nem cai do céu

(diria meu pai)

Nem todas as conquistas que eu

sonhei para este ano passageiro

Nem as respostas que você me pediu

naquele dia de vento forte e quente

diante do mar agitado

 

As coisas não caem do céu, assim

 

As coisas não caem do céu

assim, do nada

a resolver nossos problemas

a dar chances mesquinhas

a encurtar distâncias

e expandir possibilidades

 

Quem dera fosse uma neve inédita

a embranquecer nosso Natal tropical

 

Não seriam doses de paciência

ou feriados prolongados

nem morar num barco a vida inteira

nem preocupar-se com a hora

Não seriam as alegrias a despeito

das frustrações doentias

nem os medos que carrego aqui

a burlarem-me as veias

 

As coisas não caem do céu, meu bem

 

As coisas não caem do céu

como queremos

a nos dar tardes quentes

a nos presentear noites frias

a nos deleitar com temporais

e nos banhar: no mar e na chuva

 

Quem dera fosse o sol escaldante

a atear fogo na tua cama de lençóis laranjas

 

Não seriam sete dias

ou os cem quilômetros

nem um navio a te levar

nem eu a me olhar sem espelho

Seriam nossos sorrisos

a inspirar-nos poesia

e a julgar as decepções da vida

numa tábua desmedida

 

As coisas não caem do céu, dizem

 

As coisas não caem do céu

por acaso

a erigir abraços de confiança

a sufocar o momento errado

a ondear esperanças

e caminharmos juntos.

Faltava-lhe teu amor

 

Medo de perder as chaves

de casa

e de cobras escondidas

no jardim

 

Fechava cedo as cortinas

de casa

e deixava vasos vazios

no jardim

 

Sobressaltava-se: era a campainha

nas tardes

e a brincadeira dos cachorros

na sala

 

Gozava os banhos quentes

nas tardes

e as noites envolta em cobertas

na sala

 

Temia descontrolar-se com a fila

no supermercado

e no estacionamento lotado

da igreja

 

Esquivava-se de encontrar um amor

no supermercado

e nos olhos de um moço

da igreja

 

Faltava-lhe teu amor

a escorrer pelas madrugadas

a enviar-lhe mensagens

a destacar-lhe o sorriso

a preencher-lhe a cama pequena

a acordar-lhe os sentidos

a dar-lhe esperanças alaranjadas

a fazê-la suspirar todo sábado ao ler o jornal.

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