Tudo o que a indústria mandar, sir.

E não param de surgir comentários retardatários de quem assistiu a Spotlight. Voltarei ao Oscar? Sim. Fiquei ensimesmada como um filme tão sem graça, tão “fraco”, com um roteiro beirando à chatice, confusão, repetição e óbvio, além de pecar pela falta total de um bom drama (culpa das atuações, mas também das personagens) pode ainda levar as pessoas a se regozijarem com ele. Ah, mas ele levou os principais prêmios. Então eu é que estou errada. Não. Porque eu critico a indústria, e é só prestar atenção como ela funciona para entender algumas coisas. Spotlight eu continuo com a certeza que será um filme esquecido na História do Cinema, nas críticas, nos clássicos. Mas por que hoje ainda falamos dele?

Já expliquei aqui o que levou e leva as pessoas a assistirem e gostarem do filme. A História muitas vezes perdoa, mas o tempo não. Primeiro erro do filme foi o atraso em relação aos fatos narrados, coisa de uma década, não houve nenhuma proximidade com o escândalo, ele não traz, de fato, nenhum dado novo. Ou seja, não surpreende. Um filme sobre um fato real da História contemporânea precisa ter algum fator de surpresa ou elucidação, uma interpretação por algum viés interessante sobre aquilo que provavelmente todo mundo já conhece (pelo menos alguma coisa). Exemplo igual se vê no documentário da Amy Winehouse. Este serve só para os fãs enlouquecidos; aquele só serve para os fanáticos anti igreja católica. Mas a indústria sabia o que estava fazendo.

Sabe a máxima que diz “aquilo que você mais nega é o que mais diz sobre você” (ou algo assim)? É verdadeira. Além de acompanhar os indicados ao Oscar, também tento dar uma olhada nos renegados, naqueles que ficaram de fora e dizem que mereciam concorrer (Jennifer Aniston em Cake ano passado, por exemplo). Lembra da discussão sobre a branquitude do Oscar? Então, a cerimônia inteira foi um deboche pela luta dos negros (nos EUA) na Academia e na indústria – ano passado a Patricia Arquette fez um discurso sobre a disparidade entre homens e mulheres na indústria, até foi aplaudida, mas de lá pra cá sofreu represálias no trabalho por aquelas palavras tão verdadeiras. É assim que funciona, você aponta os erros e falhas dos outros e eles se esmeram em te responder com deboche (daqueles que fazem a pessoa parecer genial). Nunca gostei da cerimônia do Oscar em si, acho que só assisti umas duas do começo ao fim até hoje. Este ano foi uma delas. Assisti. E enquanto lia comentários de como a Academia soube se posicionar, eu via o ridículo.

Aliás, no dia seguinte me dei ao trabalho de levantar uma estatística. Os americanos estão perdendo seu espaço – e não é para os negros. Dos 38 premiados (em algumas categorias há trabalho conjunto) foram 23 não-americanos e 15 americanos (mexicanos, chilenos, australianos, britânicos, paquistaneses, etc.). Das principais, apenas ator e atriz protagonistas, roteiro e longa de animação foram para americanos. Os prêmios mais valorizados, a saber, Direção, Fotografia e Trilha, além de atores coadjuvantes, documentários, curtas e os prêmios técnicos foram para profissionais não-americanos. Surpresa? Não. Por isso a gente vê o que vê no sucesso que faz um Trump da vida. Parece, apenas parece, que os americanos já não são tudo aquilo no império que eles construíram. O Oscar foi internacionalizado. A indústria cinematográfica americana sobrevive – às custas de profissionais de alto calibre do mundo todo. Eles podem ter conseguido conter a presença dos negros (se foi algo intencional). Mas eles não conseguem mais conter o talento de pessoas de todas as cores do mundo.

Sobre a cerimônia, os principais momentos foram a apresentação emocionante da Lady Gaga num trabalho socialmente importante (que perdeu para o fiasco de apresentação e canção igualmente lamentável do Sam Smith) e o merecidíssimo prêmio banhado em lágrimas do Morricone (adorei o agradecimento anotado em italiano). De mais a mais, Di Caprio com um discurso balela levou o prêmio por um trabalho mediano de um ator também mediano.

É como Spotlight. Porque muita dessa gente que assistiu-o não assistiu Concussion. Sim, este me fez voltar a falar do Oscar. Com Concussion você entende como a indústria funciona. Como eles calam quem bem entendem. Filme com elenco negro Straight Outta Compton também tinha. Mas aí é aquela história do negro da periferia que se dá bem na vida (auto-ajuda americana “yes we can” das melhores com uma leve crítica à polícia). O filme do Will Smith (ele merecia a indicação, e foi este comentário que me levou a assisti-lo) é sobre a nova leva de negros que chegam aos EUA vindos principalmente da África. Não são escravos, não são ignorantes, não baixam a cabeça – mas, curiosamente, os problemas que eles enfrentam são os mesmos de séculos atrás. Além deste drama protagonista, este negro estudado bate de frente com uma das maiores indústrias dos EUA (tanto quanto a do cinema, talvez): o futebol americano. No filme eles conseguem calá-lo, mas o filme foi feito e aí a Academia também conseguiu calá-lo.

É mais fácil incitar a horda contra um inimigo odiado em comum, do que apontar que o seu maior prazer e entretenimento tem sérios problemas. É mais fácil você lançar às alturas o sucesso de um filme patético contra a Igreja Católica (que tem vítimas de pedofilia no mundo todo) do que olhar para o teu quintal e dizer para os teus filhos um sonoro “não” quando eles pedirem para entrar no time de futebol americano da escola – ou perder ibope e os patrocínios multimilionários das grandes finais. A indústria funciona assim. E aí seguem os iluminados e esclarecidos ao cinema para publicarem depois, nas redes sociais e blogs, sua indignação contra os casos de abuso dos quais tiveram conhecimento – o que em nada se aproxima da frieza “jornalística” do filme. Mas eles não sabem separar uma coisa da outra.

Defendo os crimes da Igreja Católica? Não. Diminuo a dor e o trauma das vítimas? Não. Estou me referindo ao filme. O filme é ruim, é fora de época, é medíocre, não se interessa em nada pelos dramas das vítimas, foi feito com intenção de lucro e só – tanto que não coloca o posicionamento atual da Igreja sobre o assunto. O filme é de uma falta de honestidade que me revolta. Amparado na utópica noção de isenção e outras baboseiras do jornalismo capenga, acha que faz denúncia e que tem uma boa história. Não faz nada pelas vítimas. Não faz nada pelo combate à pedofilia. É um embuste.

Enquanto Concussion mete o dedo na ferida. Diz, literalmente, o quão racista e criminosa é a sociedade americana e avisa que o futebol americano mata. Mas disso ninguém precisa saber. Até brasileiros são viciados nos grandes eventos do futebol americano, vejam vocês. A indústria só não pode perder seu lucro. E ela faz de tudo (e tão bem) para que isso não aconteça. O que não deveria me surpreender é ver até as pessoas que se dizem contra tudo isso que está aí (e sonham com aquele mundo igualitário e tal) aplaudindo os piores meios que a indústria utiliza para se proteger. A indústria cinematográfica americana não fez um baita filme sobre as vítimas dos abusos de alguns padres da Igreja Católica, com proteção e conivência dela, e jamais fará. Ela não tem interesse nisso. Ela critica a proteção que a Igreja deu aos seus, enquanto ela faz exatamente a mesma coisa com os seus interesses e lucros – assim como a indústria do futebol americano. A lógica é simples e mais velha que todos nós.

Enfim, Concussion é um filme surpreendente, Will Smith arrasa do começo ao fim, honra a cor da pele e todos os negros que têm adentrado as fronteiras dos EUA com o sonho da promessa de uma vida melhor. Chegam com diplomas, com a cabeça erguida e querendo fazer o melhor. Pena que a sociedade seja tão baseada nos interesses dessas indústrias que fizeram dos EUA a tal potência, porque a julgar pelas tais prévias das eleições os bons americanos querem, também, proteger-se. Como dizíamos anos atrás, ter um presidente negro não mudará (e não mudou) em nada a mentalidade e atitude das pessoas – a polícia não deixou de matar negros inocentes nas ruas. Sai um negro, entra um que quer exterminar mexicanos – que, aliás, ganharam dois dos maiores prêmios da indústria cinematográfica: Fotografia e Direção (Iñarritú, aliás, com o discurso exato sobre a situação, muito além de qualquer blábláblá ecológico do abraçador de Papa, Di Caprio, tentaram calar). O que será de Hollywood sem os mexicanos?

Enquanto isso, até a brasileirada estará por aí aplaudindo futebol americano, uivando contra a Igreja Católica, consumindo Di Caprios e suas balelas. Tudo o que a indústria mandar. Mas, claro, não assistem a novelas ou a Globo, porque, enfim, não são bobos. Aí já é assunto pra outra hora.

desejo-te

Vejo-te ao lado

escancaro o desejo

de tê-lo em carne

pensamentos e suspiros

desejo-te nu e perdido

desejo-te fraco e solitário

desejo-te frágil.

Vejo-te

tuas incertezas

tuas misérias

tuas mentiras

teus descalabros

tuas hipocrisias

teus desassossegos

e repito:

desejo-te.

E passas ao largo

não despes tua polo

não ajoelhas de cansaço

não assumes teu fardo

não abraças a liberdade.

Vejo-te e ofereço meu desejo

de tê-lo sem fantasias.

Passas ao largo

em teu caminho de ilusões

e não caíste em minhas tentações.

Não esquecerás jamais:

desejo-te como és;

tu, porém, não pode sê-lo.

Segunda-feira

Segunda-feira. De manhã cedo.

A mãe pegou o café do coador, aquele feito quentinho no fogão, e despejou na xícara de estimação. Lembrou dele, que gostava tanto de café, havia ligado ontem à noite para avisar que terminara o pulôver de lã. Todo ano ela fazia um pulôver para ele, desde quando ele tinha cinco anos. A visita de domingo não acontecera porque a esposa tinha um compromisso, arrecadação de chocolate para a Páscoa das creches do bairro. Mas era assim a vida, ela já sabia. O bolo de milho, feito especialmente para o neto, agora ela comia com o café.

A esposa estava parada diante do porta-jóias. Ele perguntou sem esperar pela resposta se ela ainda não sabia qual brinco usar. Ela sorriu. E ele sussurrou, ao entrar no banheiro, “põe aquele que eu gosto”. Era aquele brinco de ametista, tão delicado que ela tinha receio de usar. Ela se apaixonara pelo brinco quando os dois fizeram a última viagem juntos, ainda sozinhos, antes do filho. Passeando pelas ruas do Pompeya, deslumbrados com a capital dos hermanos, ela vira o brinco e ficara parada como se encontrava agora diante do porta-jóias. Ele era um homem de não agir por impulso, mas entrara na loja e lhe dera o presente. Ela o percebia mais apaixonado quando usava aquele brinco. Pegou-os, tirou as tarraxas, colocou-os. Eram lindos. Ele ficaria feliz quando a visse chegar à noite.

O patrão chegou cedo. Enfezado e já suado. Jogou quatro pastas de relatórios atrasados e cinco cobranças feitas erradas na mesa dele. Gostava dele como funcionário. Sempre cheio das piadas quando parava na mesa do cafezinho. Mas não tinha mais com quem contar para colocar o trabalho em dia. Sabia que ele não podia chegar antes, mas pediria uma hora extra hoje para ajudar a resolver tudo aquilo.

O filho agarrou a mochila dos Angry Birds, afastou a insistente franja dos olhos, esperou o carro parar, tirou o cinto, abriu a porta. Vivia com aquele medo de esquecer alguma coisa. A régua para a aula de geometria, veio? O lanche, o pai pegou? E o dinheiro do passeio da semana Santa, estava na mochila? Repassava mentalmente tudo antes de sair. “Pai, não esquece, hein?” e o sorriso, o filho já do lado de fora, diante da janela aberta. “É o caderno do Batman. Pra matemática. O do Super-Homem é de Português, tu se enganou. Precisa ser pra hoje.” e soltou um beijo no ar antes de se virar e correr para o portão da escola.

Ele saiu da escola do filho, distante duas quadras de casa, onde a esposa ainda tomava café e pegou a BR para percorrer três quilômetros até a saída que dava na rua do escritório onde trabalhava. Ao fim do primeiro quilômetro, o carro rodopiou, ele bateu a cabeça no vidro e capotou no canteiro. A ambulância chegou em sete minutos e nada mais podia ser feito. Em menos de meia hora chegou a perícia e ele foi colocado no rabecão.

passa-se a estação

Céu impaciente

me pede que espere

passa-se a estação

e me entrega

à prestação

os sonhos que tão belo céu

do calor me prometeu

hiberno nas idéias

de tão futuro brilhante

guardo o corpo das alegrias

e a alma das tristezas

Céu impaciente

se fecha em mau humor

não me dá nem noites de lua

e me provoca: lá vem chuva

passa-se a estação

que nada!

Tanto se demora

esconde o sol

meu relógio pára

assim acumulam-se

mais sonhos a cumprir

Céu impaciente

dou-te todo tempo do universo

que ainda quero aprender

sobre o amor

veja lá se há estação

mais própria ao amor

ou começamos as aulas já

te peço nada

te ofereço: meu cúmplice?

meu caro céu,

não sou de conquistar.

Quando eu penso na vaidade, aquela antiga da qual já não se fala mais…

Foi-se o tempo em que falávamos de vaidades. Hoje sobrou só a vaidade dos corpos de academia, unhas e cabelos pintados, roupas de marcas caras e famosas. Aquela vaidade interna, do ego, da alma e de onde mais ela se esconde, essa é coisa da Bíblia e dos velhos filósofos. Pois foi dela que me lembrei nos últimos dias. A vaidade, queridos, a vaidade… a que alimenta ferocidades, erros e estupidezes (sem fim). A vaidade de estar certo; a vaidade de estar com a razão, ser o dono da verdade; a vaidade de sentir-se esclarecido. Tudo aquilo que fazemos para mostrar quem somos (aquele “ser” tão diferente da realidade, mas o “ser” que queremos ser).

Eu tive um namorado, um bom tempo atrás, que me deu presentes caros. Nem tanto coisas que eu, era de conhecimento de todos, queria muito, mas coisas que nem tinham nada a ver comigo. Num aniversário, inclusive, ele me deu uma jóia. A cena foi cômica porque quando ele apareceu com o pacote (jóia é pacote evidente) eu gelei. Fiquei paralisada, não queria pegar porque na hora me ocorreu “é um anel, vai querer noivar, casar, sei lá, como digo que não na frente de todo mundo?”. Isso que o relacionamento ia bem, à época. Nada mais descabido de me presentear. Mas, o detalhe: na frente de todos. Com o tempo percebi que os presentes não eram “pra mim”, eram para que os outros soubessem o que ele havia me dado e para que ele convivesse com a idéia de ter me dado algo caro. Se eu gostei, usei e tal, nem importava. Isso me incomodou muito. Não foi difícil identificar nele (com a convivência e tal) uma pessoa que queria ter uma vida financeira acima da que ele tinha possibilidade – tornou-se uma obsessão e desencadeou, claro, numa frustração. Isso me incomodou muito mais.

Eis aí uma vaidade. Vaidade dessas que destroem, corroem e amargam. Me livrei do namorado. Não é do meu caráter viver uma vida de obsessão por ser outra pessoa, ter outra condição (e é sabido que gosto de namorar os desvalidos, dizem os fatos). É o ego a exigir que você pareça aos outros alguém que você gostaria de ser. Vide aí os inúmeros perfis de redes sociais, tanto os “sobre mim” que são preenchidos quanto as fotos e frases que nos levam a formar uma idéia da vida e da consciência que a pessoa tem. Esmagadora maioria é vida e caráter inventados (não passam no teste do “conhecer a mãe da pessoa” (é como se sabe dos podres e das verdades de alguém) ou do convívio na vida real). É a vaidade de parecer feliz; de ter uma boa vida; de fazer viagens sensacionais; de ser antenado e bem informado de tudo.

Apesar do “fora de moda” das vaidades, uma delas está todos os dias em todos os cantos. A vaidade do estar com a razão. Viraríamos cadáveres à espera de pessoas dizerem “errei”. Eu estou com a razão, como eu penso é a única forma passível de ser aceita e… dane-se. Estar com a razão é estar do lado certo, dos justiceiros e esclarecidos1, de perceber o mundo como os outros, pobres coitados, não conseguem. É algo bem diferente de definir o seu posicionamento: quando eu digo como eu penso, porque penso de tal modo, o que me leva a crer nisso e o que faz com que eu prefira tais conclusões. Os vaidosos são utópicos, acreditam em verdades e certezas. A vaidade impede-os de ver o mundo como ele é, inexato à razão humana.

A vaidade cega. Meu ex-namorado, vocês podem perguntar, nem vai saber dizer o que me levou a terminar com ele. Com algumas perguntas vocês talvez descubram que ele ainda age do mesmo modo nos relacionamentos. A vaidade não nos permite dizer que o outro também pode estar certo (o que nem invalidaria a nossa posição). Perspectivas diferentes, de certo que dão visões diferentes (que o digam os fotógrafos). As outras namoradas do meu ex provavelmente jamais pensaram como eu (vocês não vão achar uma que tenha tido o piripaque diante de uma caixinha de jóias!). Somos vítimas de vaidades diversas. Com alguma observação atenta é fácil identificar quais as nossas vaidades e as dos que nos cercam. Há até aqueles que têm vaidades “negativas”, os que se esforçam por desmerecer a si mesmos, os que se metem em situações das quais sabem que sairão faíscas e danos, etc. (também muitos desses povoam o mundo virtual).

A vaidade nos impede de conviver com os outros. Haja vaidade! Se mal sabemos quais as nossas, não vamos perceber as dos outros e o inferno é o que se vê. Eu estou certo; todos que pensam como eu, portanto, estão certos. Logo, os que pensam diferente de mim estão errados. É tão simples. Também eu que não me considero dona da verdade, ao me deparar com alguém que pensa algo que eu considero muito errado, terei a vaidade de, em vez de impor a minha (falta) de verdade, julgar o outro na sua (falta) de esclarecimento. Eu mesma pratico muito esta. É a vaidade da isenção, “não vejo como você, mas sei que o seu olhar está enganado”.

As vaidades não estão nos nossos olhos, por isso não as vemos no espelho. Elas estão entranhadas na alma. Só surgem quando somos nós mesmos (em ligações telefônicas, por exemplo, em atitudes precipitadas, entre as quatro paredes de casa, com quem confiamos) diante daquilo que tentamos parecer ser (em público, diante dos que nos amam, diante de desconhecidos). A vaidade é tão sanguessuga que ela não se dá conta de quando está dando bandeira, torna-se redundante, exibicionista e repetitiva: e é aí que tudo se esvai. Meu ex não me deu um ou dois presentes caros, foram alguns tantos e nenhum que não tenha sido anunciado aos quatro ventos; enquanto eu sabia da penúria dele em muitos daqueles dias.

Nada escapa a uma boa observação. Para isso é preciso ter olhos limpos e abertos. Enquanto adormecidos nas nossas vaidades e sujos da lama que dela prolifera, jamais saberemos dizer de quais vaidades padecemos. Pelo mesmo motivo também é difícil enxergar com quais vaidades os outros estão contaminados. Assim, atualizamos a vaidade conceitualmente e esquecemos no tempo aquilo que ela significava. Mas quem hoje viveria sem esconder-se nas suas vaidades?

1Ver Kant, sério. É o sentido mais exato ao qual me refiro.

O indiferente

O indiferente não ama nem odeia. Ele é aquele namorado que no cinema diz “tanto faz” para qual filme o casal assistirá. É o pai que nem sabe a nota do filho em Biologia. O indiferente não faz, nem desfaz. É a moça no salão pintando a unha enquanto a república cai. O indiferente, também, não questiona – nem a si mesmo.

Conviver com o indiferente, porém, não é fácil. Erra quem pensa que ele não tem paixões – tem-nas as mais violentas. Ele não se importa com você, o indiferente; ele importa-se em demasia consigo mesmo. O indiferente não buzina. O indiferente não cospe. Mal e mal o indiferente vomita.

O indiferente é aquele cara do grupo no trabalho que chega atrasado quando o chefe que exige pontualidade já está na sala – ele entra com o cafezinho na mão, dá “bom dia” nem aí e leva uma eternidade para sentar e sossegar, enquanto todos prendem a respiração. O indiferente não sonha. O indiferente não grita, nem sussurra. É a esposa que compra um vestido caro no mês que as contas extrapolaram. O indiferente não tem marca favorita de desodorante. Nem de sabão para a lava-roupas.

Amar o indiferente é falta de autoestima – mas dizem que é doação de si mesmo. Porque é amar alguém que nem sabe que você existe, tem necessidades, alegrias e tristezas. O indiferente não pede, nem dá. O indiferente não faz serenatas. O indiferente não sua. O indiferente mal pisca.

O indiferente é quem solta o pum no elevador e nem ri – nem disfarça. É que ele não ri nem de si mesmo. O indiferente não gargalha, nem chora. É a guria que passa diante dos olhares mais cobiçosos e nem disso se dá conta. O indiferente é, vejam só, indiferente até a admiração. É indiferente até aos elogios.

O indiferente nem conta quantas fatias sobraram da pizza. Ele toma coca-cola ou pepsi e nem percebe qual é qual. O indiferente não pede a carne no ponto, mal ou bem passada. O indiferente nem lembra em quem votou nas últimas eleições – ou nem procura lembrar. O indiferente declara tudo corretamente no imposto de renda. O indiferente anda no ponto morto – mas não para economizar gasolina. O indiferente parece ter opinião, que ele só diz se solicitado. O indiferente nunca sabe quando estão falando dele…

O indiferente é amado pelos seus amigos – fácil entender porquê. Ele é sempre convidado para todas as festas. Muitos amigos tem, o indiferente. Na vida on line ele é sempre admirado, o indiferente. Nas discussões políticas também. Na hora de votar, então, mais ainda. Há até quem admire o indiferente em cargos de chefia. O indiferente é aquele cara que nunca pisa no pé dos outros. Nem lembra do aniversário de ninguém. O indiferente não fica em cima do muro. Ele pula para qualquer lado e nem percebe quem ele leva junto.

O indiferente não é meu amigo. Porque o indiferente é sempre amigo da onça.

Atire a primeira pedra

Atire a primeira pedra

Carregue consigo um saco grande, cheio delas

atire, também, as segundas e as terceiras pedras

atire a primeira pedra com gosto.

Infle-se de vontade

e atire-a com toda a força;

atire a primeira pedra.

Diante de pecadores

traidores e fornicadores

atire, claro, a primeira pedra.

Leve um caminhão cheio delas

empunhe uma a uma

e atire-as todas nos maus governantes.

Atire a primeira pedra

no teu pai, no teu avô

na tua irmã

quando descobrires que não são santos.

Atire a primeira pedra

na tua esposa

quando ela sorrir lábios carnudos vermelhos

para o moço da mesa ao lado.

Como bom pai que és

atire a primeira pedra

no teu filho com zero em Português

com as mãos sujas no almoço

que escondeu revista de mulher pelada

que respondeu pra professora

que bateu no vizinho pequeno

que chegou tarde da balada

que bebeu até cair

que engravidou a filha da costureira

atire, uma a uma.

Atire pela janela

a primeira pedra

no cara que estacionou no teu portão.

Guarde sempre algumas pedras

para algum caso de emergência

e não correr o risco

de ficar de mãos vazias.

Tenha pedrinhas guardadas

debaixo do teu leito

debaixo do banco da igreja

na gaveta do escritório

e, quem sabe, na cueca.

Atire a primeira pedra

e, em alguns casos, atire mais

todas que tiveres.

Não esqueça de ir ao riacho

pegar mais pedras

de todos os tamanhos.

Ao se deparar com larápios

assassinos, sonegadores

maus professores, vagabundos

e até alguns inúteis

não economize:

atire tuas pedras.

Quando elas acabarem

e deres as costas

sozinho então

estarás

e a dura lição

aprenderás

“vá e não peques mais”.

As goiabas

Por esses dias revelei uma daquelas verdades que temos para nós mesmos, mas que parece que existem só quando são formuladas em palavras para outrem – antes disso nem nós as conhecemos. Minha fruta favorita é a goiaba. A velha piada sobre encontrar meio ou um bichinho de goiaba inteiro é das filosofias para a vida. Gosto mesmo de goiaba. Sou louca por melancia, é verdade – e todo mundo sabe. Talvez, se perguntassem qual a minha fruta favorita, para as poucas pessoas que me conhecem, a resposta seria melancia. Sou doida por acerola, também. Dou um dedo por suco de maracujá. Mas a favorita é, certeza, a goiaba.

Naquele espírito genealógico de investigação subjetiva das razões obscuras do ser (rá! Abusei, né?) eu diria que é porque sempre vivi com um pé de goiaba em casa. A mais antiga, a maior, a que ainda vive (mas adoeceu e deu pouco nos últimos anos) foi meu paraíso por muito tempo. Nela eu subia, imaginava mundos inesquecíveis e insondáveis aos outros, e comia os frutos enquanto sonhava. A goiaba não é para frescos, tem que ter bons dentes e trincar as sementes (vai dizer que você tira a semente da goiaba?!). Na casa do meu avô havia uma bonita, nova, que vi crescer e, mesmo pequena, me aventurava para comparar os mundos inimagináveis dali.

Elucidado o motivo do meu favoritismo, passei a analisar a goiabeira. Ô coisa fácil de se criar, dá em qualquer lugar, dá frutos em pouco tempo (algumas frutíferas exigem tempo e a doce paciência), tem boas safras. Qualquer semente jogada num terreno baldio já pega (reparei hoje que num terreno baldio da vizinhança tem um pé bonito e já quero pegá-lo antes que o cara venha cortar o mato). Os cachorros também adoram – e nem digam que eles puxaram a dona porque é a mais pura verdade. O tronco é lindo, de madeira clara que descasca e tão divertido tirar suas casquetas. Também é boa de subir.

Acho que só comprei goiaba no supermercado umas duas vezes na vida – e nem de longe tinha o mesmo gosto. E foi a goiabeira aqui de casa, que fica bem rente à cerca, que me levou a todas essas reflexões. A da frente é mais rara, é a branca, a de trás é mais nova e é vermelha. Ambas deram bem neste verão, mas da frente, curiosamente, colhi poucas. Sim, as pessoas passam na rua e roubam, os vizinhos (esses queridos) aproveitam quando não estou e fazem a limpa. Vejam vocês, uma árvore tão fácil de ter e os marmanjos preferem pegar dos outros, claro. Se tem vizinho que pula o muro e faz a limpa no limoeiro de outro vizinho, não é de se admirar.

Por que as pessoas fazem isso? Eu me pergunto. Sei que não é fácil cultivar – minha mãe, como aquele personagem, sempre diz “plantando, dá”. Eu pego na enxada sem frescura, tenho paixão por plantar, claro que não espero isso de todo mundo. Mas se a pessoa não cultiva, então que vá até a feira da rua de cima todas às sextas, né? A terra é tão boa, mas as pessoas…

Numa semana do verão o vizinho emprestou a casa para um casal e dois meninotes. E não é que choveu a semana inteira? Os meninos, coitados, tiraram coelho da cartola para aproveitar o tempo sem poder ir para o mar. A mãe entediou-se às tampas e volta e meia se agarrava no celular, o pai aproveitou a rede. Uma vez ou outra divertiam-se juntos jogando cartas. Os meninos pareciam de apartamento, tudo era encanto para eles. Um dia vieram à cerca e perguntaram se podiam pegar as goiabas da frente, dissemos que sim. Precisavam ver! Os meninos nunca haviam tirado uma fruta do pé. Era um desafio, planejaram quais pegar, o que precisavam fazer em conjunto para chegar aos galhos mais altos, tudo com uma seriedade e uma fantasia incomparáveis. Admirei a cena como a um espelho. As crianças sabem pedir, coisa que os adultos preferem ignorar. As crianças sabem transformar um pequeno gesto numa aventura.

O horário de verão se foi. Daqui a pouco as goiabeiras irão se preparar para o frio. Já me entrego à melancolia de não ver mais o sol às oito da noite, logo encerrarei a colheita. Em breve será tempo de se recolher, sem goiabas, mas alimentando as aventuras. Verão deixa saudades, pensamentos e paixões que, ao contrário do que vovó dizia, sobem a Serra, sim.

Lá no começo do mundo

Lá no começo do mundo não existia asfalto; porque não existia carro e nem o homem tinha pressa. Bem que já havia um ou outro com espírito desbravador, mas eles apreciavam bem mais o trajeto do que a chegada. Lá bem no comecinho, pra onde se olhasse havia comida em abundância e sobrava entre os bichos e as gentes; ainda ninguém sabia o que era fome. Tinha também aquelas pessoas que trocavam o que lhe sobrava com o que sobrava ao próximo; e todo mundo ajudava quem estava em falta. Eram outros tempos, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo as pessoas viviam lado a lado nas redes e taperas, e não umas sobre as outras sufocando falta de espaço entre grades, paredes e muros. É que, também, nem tinha tanta gente assim. Bem, mas já lá no começo do mundo cortavam árvores e destruíam a natureza, eram menos e o dano era menor. Lá no começo do mundo ninguém se importava muito em registrar o que fazia, onde ia, o que comia, com quem estava – e só de vez em quando faziam uns rabiscos nas paredes das cavernas que era mais pra se entreter em dias de tédio e chuva. Lá no começo do mundo chovia, uns poucos – sempre esses loucos – tomavam banho de chuva, e a chuva dormia o ânimo em todo resto. Nem tudo era tão diferente assim, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo rolavam umas drogas, uma folha amassada aqui, uma casca de árvore fervida ali, não tinha contraindicação nem foto de doença pra assustar quem consumia – e todo mundo ria, caía na folia e, talvez, de vez em quando alguém morria. Lá no comecinho tudo começou com o veneno e aí o mundo caiu em pecado – que ainda não há quem não goste. Pelos primeiros dias do começo do mundo, Deus deitou na rede, olhou o nascer do sol sobre o mar e pensou “vou ali criar o leite condensado que é pra fechar com chave de ouro esse Meu mundo” e aí o mundo foi mais feliz e mais gordo e assim será. Já era tudo tão bom, lá no começo do mundo.

Lá, lá no começo do mundo nem se ouvia falar em dinheiro; porque todo mundo era esperto e pra que estragar o paraíso? Quem sabe se lá no começo do mundo o mais rico e invejado era quem mais sorrisse? Mas isso era lá no começo do mundo… Lá no começo do mundo as cobras sobre duas pernas plantavam seus rumores e tumores pelos quatro cantos – talvez isso não tenha existido lá bem, bem, bem, no comecinho. Sabe como é começo, ninguém sabia direito o que fazer e as consequências, então o povo abusou de uma bobajada que deu no que deu – as más práticas são mais fáceis de serem copiadas. Nem tudo eram flores, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo não tinha luz nem água encanada – nem dá pra pensar como viviam sem isso. Nada que uma fogueira, uma moita e um riacho não dessem jeito. Lá no começo do mundo era mais fácil se esquentar com peles de animais e os corpos uns dos outros do que se refrescar no calor dos infernos – nem é preciso lembrar que não tinha ventilador, quem dirá ar-condicionado. É que lá no começo do mundo se resolviam as coisas da forma mais simples. Bem lá no comecinho a vida era difícil, mas com o mundo diante dos olhos os problemas foram se resolvendo aos poucos. O peso era leve, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo ninguém vivia sozinho. A experiência era pouca, ainda, e os perigos (até os mais bobos como cair num buraco e não existir corda para o resgate) muitos, então todo mundo sabia que era melhor viver junto, uns dependendo dos outros, todos ajudando todos; e o principal eram as noites à beira da fogueira, quando uns narravam aos outros como estavam conhecendo o mundo. Aprender era questão de vida ou morte até em saber o que podia comer daquele mundaréu de folhas e plantas e frutos e o que se aprendia guardava na memória, que não tinha bloco de anotação. Se apreciava a sabedoria, lá no começo do mundo.

Lá no começo do mundo também as gentes morriam. Desde então tudo já tinha começo, meio e fim. Ou, às vezes, não tem muito meio, só começo e fim, isso é certo. As gentes adoeciam, as gentes eram abandonadas, as gentes brigavam e se matavam ou morriam. Os que ficavam choravam, lamentavam, sofriam e lhes restava a saudade. Desde o começo, quem diria, havia fim. De todo o resto o homem foi evoluindo, foi piorando, foi lutando pra ser dono do que não lhe pertencia; mas no começo e no fim ele nunca meteu o dedo. Deus, ali da rede, diria “mas o mundo é Meu, filho” e os homens já não ouviam. Lá no começo do mundo se sabia que não haveria chance para outro começo. Lá no começo do mundo ninguém se arriscava a olhar para trás. O fim havia, lá no começo do mundo.

O teu segredo

Tem um segredo

escondido no teu quarto

a cada hora que cai

se derrete mais o teu peito

segredo que não contas

ao veneno do vento

que tens envolto

num lenço de quatro pontas

teu segredo deixa o ar frio

te consome em chamas

de medo e apreensão

te afoga no denso rio

Eu sei onde escondes

o teu segredo.

Na luz apagada

na porta fechada

no silêncio estático

a alma acesa

os olhos abertos

a pele trêmula.

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