A colheita vai bem, obrigada…

Foi em abril ou maio que diante de encruzilhadas (decisões a serem tomadas, traduzindo) eu escrevi no meu mural: “O que te resta é ser feliz. Vá.”. Foi simples assim a maior lição do ano: vá. Se há isso ou aquilo, sim ou não, este ou aquele: vá. Ficar parada nunca foi uma opção na minha vida, sempre senti isso. E, claro, os pesares da vida volta e meia me fizeram não poder “ir”. Mas assumi assim, com riscos e chances, o “vá”. Foi assim que decidi meus caminhos este ano.

Depois de uns períodos difíceis, tumultuados, de revezes, comecei a viver alguns dos melhores anos da minha vida. E, não, nada nem ninguém vai me parar. Nada nem ninguém vai me fazer desacreditar – já disse, a fé é minha maior qualidade. Nada nem ninguém vai me fazer trocar o que tenho. O que eu tenho? Imóveis, carros, bens materiais? Não, não tenho nada disso. E nem me importo. Tenho o que sou e o que vivo.

Antes mesmo daquele dia já havia colocado em prática o “vá” e foi justamente por isso que eu titubeei. As escolhas têm pesos, têm preços. Deu medo. Deu receio. Porém, não é todo mundo que sabe ser feliz e percebi que deveria honrar este dom. eu poderia ter ficado, poderia ter lamentado, poderia ter guardado o vil metal, poderia ter reclamado, poderia ter encontrado culpados, poderia ter falado em vontades. Não, não… eu fui. Eu arquei com todas as responsabilidades e aceitei o “vá”. Aliás, responsabilidades têm se tornado o meu forte. Quem diria…

É mais ou menos sobre isso que eu quero escrever. Nem ia começar assim, mas desde a semana passada anotei o tema do post e todo dia leio meu recado no mural – acabei associando.

Eu pensei em escrever sobre três coisas: plantar e colher; paciência e que tudo se aprende. Na verdade, acho que a ordem correta seria de trás para frente. Veremos.

Os últimos anos foram sensacionais. Eu disse que duvidava que 2013 seria ainda melhor que 2012, acho injusto comparar, se for parar para pensar. Mas as coisas que aconteceram têm sua razão de ser, fizeram por onde, e foi sobre isso que fiquei pensando.

Não vou elencar conquistas, prazeres, felicidades, desejos. Não. Semana passada reencontrei uma amiga que não via há séculos, quando nos conhecemos pessoalmente (lá se vão dez anos…) nem éramos muito próximas, mas das pessoas que conheci naquela época, era das que eu respeitava. Travamos contato mais próximo pela internet, afinal ela mora em outro continente. E eis que depois de tanto tempo estávamos ali no Café Vidal do Mercado Público conversando sobre tudo o que deu tempo. Era bom vê-la. Era bom ver em alguém coisas que também encontro em mim. Não somos parecidas, não pensem isso.

Começando pelo final, ela me diz “o que sei é que estou feliz”. Simples assim, sabe? É essa a sensação: estou feliz. Não pensem que não temos dias ruins, não pensem que não temos problemas nos relacionamentos, não pensem que sorrimos o dia inteiro por aí. Não. É algo, recorrendo a um clichê, profundo. É aquilo que faz com que um imbróglio qualquer do dia, um atraso aqui ou uma dor ali não tomem proporções maiores do que as que lhes cabem. É estar segura de si, dos seus “vá”, dos seus caminhos. E, vejam só, nem chegamos aos trinta. E, vejam só, nem precisamos recorrer à muletas e seguros que nos extirpassem medos, dúvidas, apreensões.

Tenho me olhado no espelho e, pela primeira vez na vida, acho que envelheci. Nunca me dão a idade que eu tenho. Fiquei matutando se tudo isso junto não seria a tal maturidade. Talvez. Depois de uma velhice precoce, a maturidade não me cairia mal. (vou pular completamente a Fahya pirralha, palhaça, mimada, birrenta – essa não é para qualquer um!) Não sei exatamente o que, se uma serenidade, se os traços mais marcados, se o sorriso mais calmo… certo é que vejo o tempo no espelho. E, ao contrário do que eu temia, isso não me assustou ou me decepcionou. Aliás, me fez muito bem.

No meio da conversa falamos sobre paciência. Hoje temos paciência. Eu sempre quis tudo ao mesmo tempo agora. Eu sempre cheguei atrasada em tudo porque sempre achei que dava tempo pra tudo o tempo todo e porque sempre fiz questão de fazer mil coisas. Esse excesso dava significado pra minha vida – e me renderam cabelos brancos precoces. Eu me orgulhava de dar conta de tudo. Aliás, ainda me orgulho. Mas se tem uma coisa que eu aprendi, e falo sobre as coisas grandes e realmente importantes da vida, é a esperar. No meu caminho, nada é para agora. Nada é fácil. Tudo demora – às vezes, anos – tudo vai ser complicado, difícil, num longo e tortuoso caminho. Sei lá, uma coisa meio bíblica mesmo. Foi aprendendo a esperar que dominei a menina ansiosa e extremamente nervosa que um dia fui.

Já não quero amores urgentes… não quero sucessos repentinos… não quero consumir todos os dias… não quero excessos… não quero impulsividades… Quero o tempo, com quem sempre tive uma relação linda. É uma mudança e tanto. Desejei por anos a fio conhecer um lugar, ano passado tive o prazer de chegar lá. Naquele momento chorei. Pensei comigo: eu quero, eu posso, eu consigo. Minha vida se resume a conquistas. Eu sempre quero chegar a certos lugares. É o “vá”. Um dia, quando aos dezoito anos me vi sozinha numa cidade desconhecida, encontrei o cartão que minha mãe havia me dado na despedida: “Saber o que se quer Sonhar muito com isso E agir todos os dias Para atingir este objetivo É o segredo para chegar lá”. Minha mãe sabe das coisas e conhece minha principal qualidade.

Eu poderia terminar aqui. Este cartão diz o mesmo que minhas longas linhas. E é sobre plantar e colher. Tenho plantado arduamente. Já senti a exaustão, o cansaço, as dores de cabeça, o desânimo. Plantar é uma dedicação contínua, perseverante, cheia de altos e baixos. Nem tudo brota, algumas mudas demoram uma eternidade para dar frutos ou flores. E cada folhinha, cada botão, cada milímetro proporciona uma alegria sem igual, produz certezas diárias. E só com uma boa paciência desenvolvida para perceber essas belezas. Quem não está em paz com o tempo sai atropelando as coisas, não vê o valor de uma boa germinação, não atenta para as regas necessárias. Comecei a plantar faz muito tempo e confesso que já abandonei minhas plantações, já voltei a elas inúmeras vezes, já achei que tinha escolhido as sementes erradas, já deixei de regá-las – mas delas nunca esqueci. Eis que minha volta é definitiva. Sei que hoje, amanhã, daqui a anos elas continuarão a me dar alegrias sem fim.

Não confundam, porém, com ambição. Eis um baita defeito: não tenho um pingo de ambição nem sou competitiva (vai ver porque meu solipsismo é grande). Admiro e muito as pessoas ambiciosas – aquelas, as de bom coração – porque elas conseguem traçar caminhos mais objetivos, não dispersam com facilidade, vêem as coisas com mais clareza e não namoram as coisas mais difíceis. Acontece que não sou ambiciosa e ainda não encontrei motivos o suficiente para desenvolver esta qualidade – quem sabe um dia. E eu gosto de ter pessoas ambiciosas por perto – em certo sentido. (não vou explicar, mas cabem duplos, triplos e mais sentidos)

E aí eu cheguei ao aprender. Ouço tanto “não sei fazer isso ou aquilo” que já tenho uma metralhadora no automático com “não sabe, aprende”. Sempre fui muito apegada aos dons e inclinações como justificativas para tudo. Hoje não. As pessoas se camuflam atrás do “não sei” em vez de encarar e dizer “como faço?”. Na vida tudo se aprende. Podem faltar dons, qualidades inerentes, talentos, mas aprender todos somos capazes. Encarei melhor a vida depois de tomar isso como lema. Precisa uma carga e tanto de experiência para chegar aí, não duvidem.

Faz um tempo escrevi sobre muletas. Sobre as pessoas que se amparam nas coisas e nas outras para justificarem suas falhas. Perdi minha tolerância com elas. E foi pela experiência. Conviver com pessoas assim me fez perceber o quanto elas se enganavam. O mesmo aconteceu ao conviver com uma pessoa que reclamava demais, acabei achando aquilo tão chato e desagradável que me tornei uma pessoa melhor, moderei minhas reclamações (e olha que eu era campeã). Assim é a experiência. Mas esta também não é pra qualquer um. Experiência não é só vivenciar coisas e relações. É refletir sobre elas, é analisar impactos, é avaliar fatos e atos, é desenvolver-se a partir delas. Como dizem, pra viver basta respirar, mas estar vivo é outra coisa. E é com certa arrogância que eu lamento ver algumas pessoas que não adquirem experiência. Vejo pessoas que já passaram por tantos fatos dos quais poderiam ter apreendido a grandeza da vida, poderiam ter desenvolvido capacidades e qualidades fantásticas e… são os mesmos, infelizes, rancorosos por vezes, dependentes de vícios, discursos, muletas e coisas assim desimportantes e maléficas.

São essas pessoas que não conseguem, debaixo de sóis de Primavera ou tempestades de vento sul, dizer “o que sei é que sou feliz”. Não temos tudo, nem tudo o que queremos, nem o melhor emprego do mundo, nem os melhores relacionamentos, nem as melhores casas, ainda não vimos todos os lugares lindos do mundo, nem convivemos diariamente com as pessoas que amamos acima de tudo… e somos felizes. São pessoas que não aprenderam a plantar e não entendem como não conseguem colher ou querem sair arrancando frutos e flores de pés alheios. São aquelas que sempre têm um “não sei” engatilhado na ponta da língua preguiçosa.

Um dia li uma frase (acho, ou eu mesma a disse num diálogo solitário): surpreenda-se a si mesma. Eu gosto disso. Gosto de me surpreender. Gosto de me superar. E não faço isso por ninguém – faço por mim – nem deixo de fazê-lo por quem quer que seja. Aliás, outra lição fácil que a vida dá: fazer as coisas por si e para si – não pelos outros, seja lá quem eles forem. Escrever isso, publicar aquilo no FB, ouvir aquela canção, falar deste ou daquele jeito, frequentar um ou outro lugar, e todas essas práticas diárias por e para alguém que não seja o “eu”, não levam a nada bom. (não estou me referindo às boas ações e coisas do tipo, não confundam)

O meu “vá” não exige que eu chegue, mas é imprescindível ir.

Sim, há consequências… a arrogância eu já citei. Sabe, não quero falar delas. As consequências a gente tira de letra com as lições da experiência. Ou com um sorriso. Ou com mais uma semente. Tenho evitado remoer demais as coisas ruins, os problemas, os nãos, as faltas e as dificuldades simplesmente porque faz mal. (e é um desafio conviver com pessoas que têm nisso a razão da sua existência) Não deixo de pensar nelas, analisá-las, mas moderadamente e, de preferência, em silêncio.

De tanta coisa no que pensar, sobre o que refletir, pesar, decidir… as dificuldades do caminho vão ficando mais conhecidas, diria até mais leves. Não perdem seu charme, porém. Já havia escrito sobre plantar e colher em algum texto anterior (tenho esse problema de não lembrar do que escrevo, lembro bem pouco, é verdade, mas tenho exercitado ser leitora do que escrevo). Só posso dizer que sou fiel ao plantio e que as colheitas já se mostram interessantíssimas – um sorriso vislumbra o que posso esperar das próximas. Como diria a amiga, isso ninguém vai tirar da gente.

Entre lagartixas e begônias

 

Já faz um tempo. Não moro mais sozinha. Eu sabia, é verdade – mas “olhava para o outro lado” como a Jasmine do último Woody Allen. Percebi as evidências (e nem eram daquelas da canção do Wando) e depois de um segundo de pânico eu fiz que não sabia do que se tratava.

Vi uma evidência aqui, outra ali. Ignorei. Fingi. Fui levando a vida. Eu tenho trauma de não morar sozinha. De tantas coisas boas que fui aprendendo com a vida, eis a que o processo foi o inverso. Meu pavor de gente ao longo dos anos foi crescente e depois diminuiu. Tudo terapeuticamente tratado em auto-análises sem fim. Conviver acaba com qualquer relação – eis uma lição valiosa à qual me agarro. E as pessoas não entendem, mas gosto de ser sozinha, de viver sozinha e, principalmente, de morar sozinha. Minhas últimas experiências não foram nada perto de razoáveis para me fazer pensar diferente. Eu tenho problemas, eu tenho defeitos (aliás, uma amiga acabou de me jogar na cara um dos piores: sempre acho que tenho razão). Um dia quero escrever só sobre meus defeitos. Eu tenho dificuldades, e a maior delas é não conseguir me desarmar para apresentá-las. Pois é.

E ali estavam as evidências. Dia após dia. Eu não estava sozinha. Mas fingia. Ainda chegava em casa, ficava no escuro rebolando conforme a música do mp3 feliz com algum acontecimento ou corria pra varanda olhar para Vênus e tentar entender a vida. Tenho meus hábitos. Primeiro largo a bolsa na escrivaninha, aí tiro o calçado, tiro a roupa. Detesto roupa. Só uso por essas obrigações da vida. Se é noite, acendo o abajur da mesa de cabeceira. Se é dia, abro a varanda. Quando entro em casa, tudo tem que estar exatamente no lugar onde deixei. Tenho trauma de invadirem minha casa. Tenho trauma de entrar em casa e sentir que alguém esteve ali. É uma das piores sensações da vida.

E agora eu entrava e sabia que não estava sozinha. Quando nada mais dá certo, quando quero fugir da vida, do trabalho, dos pensamentos, me encastelo no sofá, apago as luzes e coloco um filme ou seriado para assistir. Naquela noite foi assim. Estava ali, balde de pipoca, tensão num seriado e… lá estava ela. Vinha do quarto e parou perto do meu cabide de bolsas da sala. Parou ali e eu grudei os olhos nela.

Tenho pavor de lagartixas. Já disse, todo mundo que me conhece sabe disso. Não tenho medo nem nojinho nem nada de rato, barata, cachorro, insetos de todo tipo (só pavor de uma certa mosca que tem numas trilhas da Ilha). Mas lagartixas. Não sei. A pele transparente, o olho inexpressivo, me lembram a morte. Os mortos, os cadáveres, os defuntos. E não gosto de corpos mortos. Elas são geladas também – mais próximas ainda dos mortos – e nem queiram saber como descobri isso. Quando há lagartixas eu me sinto oprimida, minha segurança de estar sozinha me abandona. Não é como se a morte andasse por perto, é pior.

Depois daquele dia só cheguei a vê-la mais uma vez, ao afastar uma cadeira ela passou correndo por trás da cortina. Eu sei que ela anda por aí. Por enquanto é só uma. Tenho mais pavor ainda das pequenas, dos filhotinhos, pois parecem mini-lagartixas e não filhotes. Não consigo achar nada bonito nos filhotes dessas criaturas. Não sei porque ela vive aqui. Não há mosquitos e pernilongos o suficiente.

Ela me faz viver com essa consciência de que não estou só. Depois de tantos dias convivendo com isso, cheguei a pensar que nem a presença de uma pessoa – que apagaria meu abajur, que não deixaria a louça no lugar, que penduraria a roupa de outro jeito, que deixaria suas coisas espalhadas pela casa, que soltaria pêlos pela casa toda, que não arrumaria a cama do jeito que eu faço, que desligaria o som para ligar a TV – seria pior. Porque ela está aqui – agora mesmo, neste instante – e eu não a vejo. Ela não muda a ordem das coisas nas prateleiras da geladeira, mas anda por todo lado durante a noite – enquanto eu durmo!

Tenho tentado conviver. Tenho tentado não entrar em pânico. Sei lá, já é hora de eu aprender a conviver com algumas coisas – inclusive com presenças. Não é fácil. O mundo lá fora já impõe tantas presenças, aqui era meu refúgio. E aí lembrei de algo que também me irrita nas lagartixas: a paciência. Elas ficam paradas por tanto tempo, não têm pressa, esperam suas presas. A paciência alheia me irrita. Como eu dizia para uma amiga esses dias, aprendi a ter paciência, é verdade. O passar do tempo tem coisas muito boas. Minha paciência com a maioria das coisas é como trato a presença dela: ignorar. Ignoro tanta coisa ultimamente… prefiro ignorar.

Eu não sei onde ela está agora. Mas sei que continua aqui. Mentalmente, ao vê-la correndo por trás da cortina, fiz um acordo aos gritos: você pode continuar aqui, só não apareça na minha frente! Talvez tenha funcionado. Já estou com tantos problemas, com tantas coisas sérias (ah! Como adoro fugir dessas!) no que pensar. Não penso nela. Mas não quero sentir a presença da morte naqueles olhinhos escuros parados na parede.

E eu pensava nos meus problemas quando fui arrumar os vasos da varanda. Esvaziei de terra minha mais recente tentativa com uma begônia vermelha. Era linda, grande, enfeitava a cozinha. Amo rosas, é verdade. Tenho uma longa tradição em cultivar rosas. Não digo que sejam minhas flores favoritas. Antes das roseiras eu cultivei bocas de leão, kalanchoes, cravínias e begônias em vasos coloridos. Era criança ainda. A noite perfumada lá fora pelo jasmim da varanda e dentro de casa pela primeira florada da orquídea que completou um ano. O kalanchoe laranja está enorme, já fiz três mudas dele e todas estão crescendo bem. O kalanchoe é assim, aguenta sol forte, pouca ou muita água, dias sendo ignorado, fica bem tanto dentro quanto fora de casa. Eu viajo por um mês e quando volto ele continua o mesmo. O kalanchoe é barato, você compra em qualquer supermercado. Não deixa, porém, de ser bonito com suas florzinhas pequenas. Vive sempre florido, tem uma variedade enorme de cores.

Ah, mas as begônias… as begônias não suportam amor demais. Elas morrem se você sufocá-las com tanta preocupação. O caule começa a ficar escuro, elas vão amolecendo, perdendo as flores e folhas. Raramente há volta. Mas é curioso… se o seu desespero em perdê-la for maior do que o seu excesso de zelo, há chances de recuperá-la. Se você atentar para os primeiros sinais de que amou-a demais e cuidar cada segundo para que ela volte, é possível tê-la novamente. Porém, o menor descaso fará com que ela se vá. Ela é complicada, diriam. Eu diria que a entendo. Excesso de amor e de zelo nos sufocam – a falta deles quando é necessário nos matam. Não vejo nada complicado ou complexo nisso. As begônias são meu desafio na vida. Desde criança volta e meia me desafio a cultivá-las. Por alguns períodos abri mão completamente de tentar. Me convencia de que não sabia amá-las. No último verão tinha uma, era ela e o kalanchoe. Por um descuido meu, alguém que ignora os amores das begônias deslanchou seu cuidado excessivo. Ela começou a morrer, foi aí que provei que já a conhecia bem e consegui salvá-la. Mas, mais um descuido meu, e lá foi outra pessoa a enchê-la de cuidados. Sou cercada por pessoas que amam demais, cuidam demais, se preocupam demais. As begônias não são para essas pessoas. Talvez, também, não sejam para mim. Já consegui progressos, é verdade. Já aprendi com elas. Porém, é preciso mais. Não posso me descuidar. Não é somente aprender a amá-las na medida. É preciso tudo isso junto. O kalanchoe continua lá, vigoroso que é, altivo, independente, fácil, sem frescuras. É sempre fácil cultivar kalanchoes. Begônias, não. Por muito tempo deixei de ter kalanchoes justamente pela facilidade. Eu aprecio desafios. Eu aprecio desafios amorosos. Eu aprecio aprender. Aprecio me desafiar a não ser como sempre fui. Eu vou voltar a cultivar begônias.

E ontem foi Ação de Graças. O do ano passado foi especialíssimo. O deste ano também. Eu achava que 2013 não superaria 2012, me enganei. Eu quero duvidar que dezembro conseguirá superar novembro (nem acabou e já foi o segundo mês mais especial deste ano, só perdendo para março – mas setembro e outubro estão em boa cotação também!). Em março do ano que vem comemorarei um ano fantástico. 2013 me deixou sem palavras – mas com pensamentos demais. Aqui em volta, lagartixas e begônias. Talvez 2013 seja isso, lições e desafios. Só digo que estou abraçando tudo. Tudo mesmo – dizem que todos também. Disse que duvido que dezembro conseguirá superar novembro justamente para desafiá-lo. Meu temor eu jogo para debaixo da cama. É preciso ignorar as lagartixas. Um dia isso teria que acontecer. E tão logo consiga, comprarei mais uma begônia. Não acho que seja hora de desistir, de novo.

Os homens da minha vida – Temos todo o tempo do mundo: o sotaque dançante entre possibilidades

Foi mais ou menos assim.

Ela já o conhecia. Ela estava no balcão do bar da vida, alheia como era de costume, feliz demais com seus trabalhos, fazendo festinha em si mesma com tantas alegrias que encontrava pelo caminho. Ela é responsável. Ela é sozinha. Ela é feliz. E ela acreditava, pobrezinha, que tudo continuaria assim.

Ele apareceu ao seu lado no balcão. E como havia sido tantas vezes, o corpo dela despertou. Ela reparou nele. Nos traços, nas pernas, nas mãos. Mas ela é cautelosa. Observa e faz de conta. Ela não gosta de ser objeto do interesse dos outros, ela prefere interessar-se. Um redemoinho se formou. O balcão do bar estava mais movimentado. Ela saiu dali sentindo uma euforia estranha, era parte satisfação, parte alguma outra coisa. Ela não queria crer – mas crer era tão ela.

Ela partiu mas voltou àquele balcão. Voltou algumas vezes. Já não havia como negar. Ele a fazia rir – e sorrir. Ela se pegou pensando há quanto tempo alguém não conseguia fazê-la rir e sorrir. Diziam que aquele bar ia fechar em breve. Ela tinha pouco tempo. Ela já acreditava que ele retribuía o interesse muito menos veladamente do que ela.

Como diz a canção “Primeiro foi a música A canção fez você sorrir E logo à primeira vista O mundo girou pra mim”. Foram as músicas, disso não há dúvida. E foi o jeito, a proximidade, as confissões, as coxas, as mãos. E foi ter sonhado com ele na noite que ela havia saído do balcão com sensações que ela não usava havia tanto – mas tanto – tempo. Meses antes ela havia escrito – ela tem essa mania de escrever – sobre um caso marcante da vida dela: “As palavras, o jeito de andar quase cowboy, o rosto de ave de rapina, a expressão sorridente alegre, o sotaque dançante, o meio sorriso divertido. A sinceridade. Eu estava apaixonada.”. Ninguém entenderia, ela se apaixona em segundos. Ela se apaixona pelas palavras (as estima muito), pelo jeito de andar, pelo rosto, mas mais ainda por sorridentes alegres, sotaques dançantes (ela tem prazeres especiais por sotaques) e pela sinceridade. Ela se apaixona.

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Era o último dia que ela iria até aquele bar e ficaria horas ali naquele balcão. Na verdade, ela ficaria pouco tempo, mas inventou algo para ficar ali mais tempo. Era despedida. Ela gosta de despedidas. Queria uma especial. E eis que no meio de tanto barulho, de tantas conversas, ele veio com mais uma canção (ele não se cansava de cantar para ela, até nos momentos mais inesperados). Ela não deu muita bola para a canção, é verdade. Ela penitenciou-se inúmeras vezes depois por ter feito isso. A canção, aquela, e ela só soube dizer “ah, sim, daquele filme”. Mas ele queria dizer mais. Ele disse que era a canção do momento atual da vida dele. Ele citou o vácuo. Nos balcões dos bares da vida nós falamos dessas coisas. Ela não entendia porque ele a havia escolhido para abrir assim o coração. Ela perguntou o signo dele. Ela disse que estava no mesmo “momento” da vida, que também entraria no vácuo – os dois concordaram que viam a mesma saída para o futuro. Estavam no vácuo, poderiam sair do mesmo jeito, era proximidade demais. Ela disse que ele era muito sério, muito certinho. Ele não gostou. Fez de tudo para dizer que não era, que também detestava a rotina. Ela se gabou das conquistas do passado. Ela jogou umas iscas, ele mordeu. “Até o tempo passa arrastado Só preu ficar do teu lado” já diz aquela canção que ela ouviu mil vezes depois daqueles dias. Eles ali, naquela bolha no meio da multidão barulhenta, trocando confidências, olhando nos olhos, atropelando palavras e sentimentos querendo dizer tanto.

E ela foi pra casa. Ressoavam os trechos da canção à qual ela não havia dado muita atenção. E foi então que ela colocou-a para tocar. Sentou-se abismada. Ele queria dizer muito mais do que ela fora capaz de entender. “Todos os dias quando acordo Não tenho mais o tempo que passou Mas tenho muito tempo Temos todo o tempo do mundo” e ela via passar a conversa anterior, sobre idade, o tempo, a força da vida que nos leva…

Ela estava apaixonada. Mas nunca mais o veria. Não voltaria mais àquele bar. As circunstâncias assim o determinavam. Ela iria viajar. Passaria um tempo longe. Aquela história teve seu começo, seu meio e seu fim. Ou não.

Ela ouviu aquela canção todos os dias, pela manhã e à noite. Ela estava lá longe, no meio do quase nada e não deixou de ouvir. Talvez lamentasse não ter dado a devida atenção. Talvez sofresse um pouco por saber que não teria a chance de viver aquele amor. Talvez tanta coisa. E ela era sozinha. Era feliz. Entre passeios e trabalhos exultava feito pinto no lixo. Talvez aquela fosse a realidade dela: azar no amor, azar no jogo, sorte na vida. Ela não teria mais amores, era isso. O Destino a fazia resignar-se. Ela ouvia aquela canção e uma outra, pois por uns dias ansiou deveras declarar-se a ele – dizer sem rodeios e apostar na sinceridade que era sua marca, estava apaixonada. Porque ninguém entenderia, também, que ela ama sem exigir nada em troca, sem nem esperar ser amada de volta. E assim ela começou a deixar de ouvir aquelas canções… mas o player, nas longas horas de estrada, suspirava ao seu ouvido. Talvez ela já estivesse esquecendo-o. E isso era muito bom.

Entre russos e hollywoodianos a história caminhava para um fim típico dos primeiros. Ela poderia ter acabado aqui. Porém, em dias chuvosos, num lugar especialíssimo, entre coisas de tantos séculos passados, ela pensou nele. Pensou em como gostaria de levá-lo lá, como seria passear com ele por aquelas vielas, ficar no alto observando a imponente serra que cercava a região. Eles já sabiam que tinham certos gostos em comum. Ela sabia que ele iria gostar dali. Ela ansiava tê-lo. Ela criava diálogos, fantasiava abraços, ouvia risadas, esboçava sorrisos.

É preciso abrir um parênteses. Ela tem sérios problemas. Ela finge o tempo todo. Ela é forte – a vida fez isso com ela e ela não vai mudar, como diz aquela outra canção que, por sinal, ele também cantou para ela. Ela usa – o tempo todo – uma máscara para esconder sentimentos. Ela é extremamente desconfiada – com tudo e com todos. Ela é fechada em si mesma e não deixa ninguém se aproximar. Por isso é tão difícil saber o que realmente se passa com ela, é tão difícil entender suas ações, seus homéricos desvios de humor. Nem os mais próximos conseguem. Eu só posso falar porque vejo tudo de um lugar privilegiado – mas até eu me confundo, às vezes. Só narro tudo isto para tentar ajudá-la. Pois, me parece, ela precisa de ajuda. Mas, acreditem, ela jamais pediria ajuda.

Ela pensou abrir seu coração para alguém próximo. E o fez. De nada adiantou. Ela pensou abrir o coração para alguém ainda mais próximo, tinha certeza que seria julgada e condenada. Ela decidiu guardar tudo ali dentro, com a força que ela conhecia e com um carinho que ela jamais vira igual dentro de si. E assim ela voltaria da viagem, voltaria a outros balcões de bares, seguiria os caminhos promissores que com tanto empenho ela havia desbravado.

Não cabe aqui enumerar as tantas idas e vindas na crença e descrença dela sobre o futuro. Nem ela saberia descrever tudo o que pensou – nem o diário foi atualizado adequadamente. Ela pensava e repensava, esquecia, quase nem lembrava. Os bares foram alternando-se, era tanta coisa ainda para dar conta. Eram prazos, dias, viagens ainda, novas conquistas. Às vezes, num mesmo dia, ela nem sabia que estava apaixonada e em seguida se contorcia de vontade de que ele sentisse orgulho dela por algo que ela havia feito, pelos elogios que ela havia recebido. Parece doentio, eu sei. Talvez quase fosse.

“Todos os dias antes de dormir Lembro esqueço como foi o dia Sempre em frente Não temos tempo a perder” dizia lá a canção que ela já nem ouvia mais. Talvez tenha pensado sobre “A tempestade que chega é da cor dos seus olhos castanhos” com aquela dúvida gigante. Era o que ela realmente pensava? Ela pensava demais? Mas preferia lembrar dele com o “Temos todo o tempo do mundo Somos tão jovens”, se a vida deixasse, numa oportunidade ela diria isso para ele. Ela também acreditava nisso. Por mais que os outros não pensassem isso deles, ela só queria dizer para ele o quanto os versos também faziam sentido para ela.

E ela voltou. Voltou à vida. Voltou aos bares. E numa reviravolta do Destino ela o veria novamente. Ficou fora de si. Sentiu a ansiedade devorá-la. Recorreu ao álcool. Ela agora combinava os brincos com o colar – e ninguém perceberia. Quis transformar a ansiedade em atitude. Mas aquela outra canção foi mais forte “Esse caso não tem solução Sou fera ferida No corpo, na alma e no coração” e mais uma vez, infelizmente, ela abraçou-se a isso e calou-se dentro de si – como era de costume.

Não soube dizer o que se passava. Lá estava ela – que nem parecia ela – naquele mesmo balcão, naquele bar, e o máximo que fez foi observar com afinco as mãos dele. As mãos. Aquelas mãos. Não pensava nele, não se deu nenhuma esperança, não tomou nenhuma atitude. Só olhava para aquelas mãos. Esqueceu de onde estava, não ouvia o burburinho, só via e pensava naquelas mãos.

Chegou em casa desiludida com ela mesma. Frustrada. A alma, a parte que ela mais preza, e o corpo haviam exilado-se com o coração. Destino desconhecido, não deixaram rastros nem bilhetes. Ou seja, ela era só cabeça – que, sim, tem funcionado excepcionalmente muito bem. Eles ainda não sabem conviver, pelo jeito. Era a conclusão. Ela voltaria àquele bar – tinha uns dias para decidir mas já sentia que voltaria lá. No caminho para casa viu-se com as mãos entrelaçadas sobre o peito segurando a bolsa. Ela nunca fazia este gesto. Pensava com afinco em como ela sabia lidar tão melhor com o “nunca mais” do que com o “(para) sempre”. Não era sábio aceitar o convite para voltar àquele bar. Contudo, era quase uma questão de honra. Ela havia falhado, novamente. Talvez tivesse falhado porque a canção está certa, não há solução. Talvez ela queira dar a si mais uma chance. Talvez ela só queira observar aquelas mãos novamente. Talvez ela queira mostrar que é forte. Talvez… ela queira encontrar como dizer tudo o que há para dizer com duas ou três palavras e um olhar. Talvez ela só pense em como não estragar tudo, sabendo que não há como não fazê-lo.

Ontem uma taça de vinho não foi o suficiente para suprimir o desejo por ele. Sim, agora ela o deseja. Isto é novidade. E talvez seja isso que mova os moinhos. Não é nobre, mas ajuda. Ela não tem nenhuma forma de contato com ele, nem uma foto para a qual olhar antes de dormir. Ela tem memória. A taça de vinho não foi o suficiente para fazer com que ela não tivesse decorado na imaginação aqueles traços finos dos lábios, o corte rente do cabelo, o sorriso ponto final, os olhos curiosos, as longas pernas de coxas grossas, as mãos… as largas mãos morenas com unhas bem tratadas e inquietas, o sotaque… ela sorriu tanto ontem, durante o dia, ao lembrar o sotaque. O sotaque, o jeito de andar, mais ainda o jeito de sentar. Aquela espreguiçada que ele deu numa legítima auto-propaganda.

Ela ouve canções que dizem tudo. Ela pensa nele. Ela deseja ardentemente o “nunca mais” porque é tão mais fácil. Nunca mais vê-lo, nunca mais ouvir aquele sotaque, nunca mais aquelas mãos sobre o corpo dela. Nunca mais. Ela tem pouco tempo e nem sabe o que fazer. Ela frequenta outros bares, veste suas fantasias, não tira a máscara em público. Talvez ela esteja tramando algo, uma armadilha. Mas ela sabe que ele é arisco. É preciso, talvez, pensar. Talvez ela não queira nada disso porque deseja falar de desejos, abolir as palavras e resolver tudo com a sinceridade, um sorriso e um olhar. Talvez ela saia perdendo. Talvez não. E ela aprecia muito mais as possibilidades do que as certezas.

Perna torta

Passei a tarde olhando a mesa de perna torta. Quatro pernas – mesa tem perna? – e uma, só uma, torta. Torta. E a mesa está lá, em pé, firme. Firme? Não sei. Parece que sim. Uma perna: fé. A outra: esperança. A última reta: amor. A torta: coração. E a mesa em pé. Talvez firme.

Ao seu Napoleão, negro, neto de escravos, oropretense

 

Se eu dissesse que certas pessoas, ou certos encontros, mudam a vida da gente, diriam que estou recorrendo a um clichê. Mas, recorrendo ainda a outro, o que seria da vida sem clichês? O senhor, Napoleão, mudou a minha. Eu acredito em Destino, o senhor também? Talvez o senhor, pelas labutas da vida, pela sua vista mal acesa, já não acredite em tanta coisa. Certo é que o senhor me escolheu ali naquela meia escuridão. Devo lhe chamar de senhor? Se a coisa desse brecha nunca nem saberia seu nome. O senhor chegou, falou, falou, sorriu de prazer com dentes alvíssimos, falou. Contou-me histórias. E já dizia aquele, que não basta termos boas vivências, nem sermos bons personagens, temos que ser bons narradores. E o senhor, Napoleão, é dos narradores que narram vidas, tempos, detalhes que seus olhos já não veem. Quando me disse para olhar para o teto, lá vinha mais uma história cheia de riquezas, de ouro, de detalhes e significados, seu pescoço alquebrado o deixou ali dócil com os olhos ao chão. Eu via o teto, meus vinte e poucos ainda me permitem malabarismos do pescoço e da coluna, e o senhor mal enxergando o chão me dizia mais sobre o teto do que eu conseguia ver.

Seu Napoleão, eu lhe ouvia e aquelas paredes e tetos e entalhes já se enevoavam diante das suas histórias. O senhor, corpo pele e osso, a sacolinha-mochila murcha nas costas, os poucos fios na cabeça, as mãos… as mãos finas e longas com unhas grossas e bem aparadas. As mãos apontavam, retorciam-se. A camisa xadrez já bem usada, os sapatos grosseiros. O senhor nem percebia minha atenção e já me guiava para o próximo santo. Se seus olhos escureciam, suas palavras eram cristalinas.

Eu não mudei nada na sua vida, seu Napoleão. Para o senhor eu era mais uma pessoa das milhares que por ali passam querendo ver e saber mais de tempos idos e de coisas que vão se perdendo. Fiquei matutando sua idade. Mais de oitenta? Não quis perguntar. Mistérios criam bons narradores. Eu poderia ter começado isso aqui dizendo que o senhor era negro. Negro neto de escravos. Agora eu quero lhe contar uma história. Quando eu era criança, seu Napoleão, minha avó tinha uma empregada negra, a Marta. Ela gostava muito de mim. Quando diziam “a negra, aquela negra” eu me doía e gritava já quase entre lágrimas “de cor!”. Ela gostava de mim e eu a via com encanto. Ela era negra. Foi a primeira negra que vi na vida. Ela tombava minha curiosidade. As palmas brancas, seu Napoleão, desafiavam minha compreensão de meninota. E meu avô um dia, seu Napoleão, fez a piada dos negros preguiçosos que quando Deus mandou tomarem banho, só lavaram as palmas e plantas dos pés. Nunca amei menos meu avô por isso. Nós dois, seu Napoleão, ali naquele templo de mais de duzentos ou trezentos anos atrás, com mais ouro que quase todas as outras do país e o que eu via era o senhor, sua cor, sua pele, seu avô. Seu avô que tirava as noites para construir o outro templo onde não podia ter ouro. Seu avô que não podia entrar aqui neste templo, o de pessoas com pele como a minha assim branquela, como a Marta não podia sentar-se à mesa de jantar conosco. Quando a via sentada na mesa da cozinha eu temia levar uma bronca mas sentava com ela. Tentaram, seu Napoleão, me fazer temer o senhor, a Marta, o seu avô. Quanto mais tentaram mais me aproximei de vocês. O senhor e eu ali parados diante do altar e nenhuma das suas histórias dizia que tudo aquilo havia sido construído por vocês. O senhor não se orgulhava do trabalho do seu avô, não ostentava suas obras.

Seu sotaque me impregnou, seu olhar vagava pela semi escuridão do templo. No meio da conversa o senhor se apresentou. Napoleão. Napoleão? Aquilo sim me deixou curiosa como as palmas das mãos. Napoleão. Nome para personagem. Negro, neto de escravos, Napoleão, oropretense de nascimento.

E o senhor ainda veio me perguntar de onde eu era. Tive vergonha. A mesma vergonha que eu sentia sem querer quando desafiava as regras e falava com a Marta. Eu sou do sul, seu Napoleão. O senhor sabia que lá estão brigando porque querem tirar o feriado do dia dos negros? O senhor sabia? Enquanto o senhor me dava copos cheios de vida, histórias e delicadezas, lá eles não querem perder dinheiro com um dia – unzinho só – dedicado a vocês. Lá não temos templos como esses. Não tivemos ouro. Mas tivemos muitos como seu avô e temos muitos como o senhor, seus filhos, netos. Por lá querem, ainda, fazer que vocês não existem. Ainda querem que eu não fale com a Marta. Querem que eu dê gargalhadas da piada sobre lavar as palmas das mãos. E um clichê me cai bem, novamente, ao dizer que não quero ser como eles. O senhor, seu Napoleão, já está impresso na minha história. Como a Marta. E vocês nem têm idéia disso. Quando nos despedimos, seu Napoleão, meio às pressas para ainda dar tempo de ver o outro templo, o de vocês, com quase nada de ouro e pinturas belíssimas, o senhor falou na promessa de um casal do sul de na próxima levar um vinho para o senhor experimentar. O senhor também disse que faria de tudo para dar tempo de ir até uma mina – de ouro, escavada por escravos – comigo, que seria um prazer minha companhia. Prazer, seu Napoleão, é saber que o senhor existe. E desejo que meus conterrâneos aqui do sul possam, da próxima, levar um bom vinho acompanhado de notícias de um mundo menos rancoroso, seu Napoleão.

Instruções para esquecer

Tenha uma boa memória. Daquelas cinematográficas. Aliás, não. Mais. Porque cinema não tem cheiro. Guarde tudo, imagens, gestos, decore as vozes das pessoas, lembre detalhes daquele natal trágico de 1998, a sensação de andar descalça na areia pela primeira vez, o som dos sinos daquela cidadezinha onde nunca mais você vai passar. Lembre quem mais te fez sorrir na vida. Enquanto estiver na sua maior crise de choro, pense nela, a observe para poder guardar cada segundo. Lembre de tudo. Da lista do supermercado, de onde seu velho pai deixou os óculos, de quanto foi a conta da noitada com as amigas, do prazo para enviar aquele trabalho. Lembre do nome do teu mais novo primo, daquele tio que já casou pela quarta vez, lembre, também, do nome de cada uma das esposas dele. Memorize nomes de ruas, saiba os caminhos mais frequentes do teu dia a dia nessa e naquela, e naquela outra cidade. Saiba todas as datas: quando fulano morreu, o aniversário de todos os amigos e parentes, o ano em que vocês foram viajar, quando ficou desempregado por muito tempo, o ano em que mais choveu na cidade. Ah, saiba também as datas dos feriados. No começo do ano já dê uma olhada no calendário e depois passe o ano sendo consultado “que dia da semana vai cair o dia das crianças?”. Orgulhe-se disso. Esnobe aos quatro ventos a sua excepcional memória. Quando todos falharem ao lembrar qual foi o prato principal do aniversário do irmão caçula ano passado, sorria triunfante e “foi moqueca de peixe, lá na praia”. Faça disso a sua mais marcante característica. Decore fórmulas de química para gabaritar provas, lembre frases de teus autores favoritos sem nunca tê-las anotado. Confronte aqueles que dizem (homens, na maioria) que não lembram muito das coisas com as atitudes e palavras deles. Lembre horários e compromissos sem nem se dar conta. Nunca esqueça nada quando arrumar uma mala para viajar. Nunca esqueça a carteira, nem as chaves, nem o celular, nem o guarda-chuva. Irrite-se toda vez que alguém se enrolar ou te prejudicar porque a memória dele falhou. Lembre qual era a cor da casa da amiga da tua mãe que agora pintou-a de rosa. Lembre nomes, rostos, paisagens.

Passe uma grande parte da tua vida sendo assim. Preze sua memória articulada, superior.

Até que, um dia… tua irmã vai dizer que você está errada, que ela estava na Argentina e não no Chile quando você quebrou o pé. E você vai cismar com aquilo. “Eu não posso estar errada” a memória tem lá no catálogo a imagem certa, as informações, era Chile. E depois dessa, uma outra e outra. Sem perceber você nem vai mais alardear suas capacidades memoriais, as pessoas deixarão de te consultar sobre qualquer dúvida do passado depois de alguns “não sei” e de ruas trocadas.

Você vai insistir, vasculhar seus recônditos, e tentar lembrar. Quando foi minha primeira comunhão? Quantos anos durou aquele namoro? Por que aquele amigo deixou de falar comigo? Em quais bairros eu já morei? Ficará sem respostas. E aí você vai começar a esquecer. E vai começar a ser feliz.

Chegará a dar vivas aos bloqueios da tua mente. Você já não lembra mais de tudo. De certas noitadas já não lembra de quase nada – mas lembra do vinho. Vai se preocupar menos, se importar menos com os outros e com o que eles te fazem. Vai lembrar do vinho, do sorriso e do dia e mês do teu aniversário – o ano pra quê? Quando falarem de um episódio triste da família, você vai sorrir “nem lembro”. É verdade, você vai achar que está doente, passará pelo desespero de pensar que há algo de grave acontecendo. Começará a praticar exercícios para a memória. Voltará a ter aquela memória curta e necessária do dia a dia. E não quererá mais.

Vai abraçar seus bloqueios. Não vai lembrar o diretor daquele filme. Passará dias sem saber onde colocou aquele colar especial. E vai descobrir o prazer de reencontrá-lo no lugar mais óbvio. Redescobrirá novas alegrias, prazeres imensos e sorrirá mais.

Chegará o dia que você nem vai mais lembrar que um dia teve uma memória excepcional e poderá ver e rever os seus filmes favoritos, as fotos das viagens, poderá ler e reler os livros mais apaixonantes e se surpreenderá frequentemente com as pessoas.

(inspirado em Cortázar, Instruções para Chorar)

Crônica de um fim de semana na casa dos pais

 

Casa dos pais, depois que se é adulto, é aquela coisa de sentir-se fora do lugar e rememorar bons tempos idos. Depois de mais de mês sem aparecer por aqui e da última vez ter engordado um quilo em três dias comendo a melhor feijoada do mundo, vim. Pais pressentem as coisas no ar. E por aqui somos todos diplomáticos, ninguém fala nada – nem de dores nem de amores. Confesso que mesmo já tendo passado por tantos problemas por causa disso, prefiro assim. É o sangue inglês, é a curitibanidade. E aqui não lavo louça, não tiro o lixo, é o paraíso.

Como eu dizia, pais pressentem as coisas. E, bem, deixo as coisas na superfície, as que podem ficar por ali. Não sou fácil de ler, não confundam, não sou essa coisa Marisa Monte de ser.

Ontem o cachorro comeu o óculos (para longe e perto) do meu pai. Aí este passa por mim, depois de ter ficado o dia inteiro no jardim (e eu no quarto, coisa, aliás, que muito me lembra minha adolescência), e exclama como estou linda. Meu pai, aquele que nunca repara em nada. Eu disse nada? Pois então, em NADA. No domingo, começo da noite, ele passa de novo por mim e diz “como você está linda, filha!”. Não sei se ele nem lembrava que disse isso ontem (memória não é o ponto forte dele), ou se conseguiu admirar-se duplamente. Com a auto-estima de alguém apaixonada-ainda-não-correspondida-atolada-em-estudos-acadêmicos-depressivos quase respondi: o que umas horas no salão de beleza não fazem, né, pai?

Se tivesse sido num dos meus momentos de euforia-tenho-a-lua-em-sagitário-tô-apaixonada-indo-viajar-por-três-semanas-e-a-vida-é-linda eu já teria respondido: pô, pai (e lembraria do Popeye, como sempre), mas sou linda desde que nasci!

 

Sim, seria exagero, recém-nascidos não são lindos.

 

E no almoço de domingo, lasanha feita pela mãe (a única pessoa que realmente abala minha dieta tão rigorosa), falando da viagem ela me olha séria e diz: você só volta noiva de Goiás. Eu, apaixonada-por-alguém-que-nem-sabe-e-que-mora-na-Ilha-e-que-está-longe-de-ser-um-partidão, olho arregalada pra ela. Pode parecer normal, está cheio de mãe por aí que empurra a filha para um bom casamento, “bom” no sentido financeiro mesmo. E vocês sabem que desse tipo de partido Goiás está cheio – é só encontrar um usando uma bota de couro de jacaré. Mas minha mãe nunca foi assim. Nunca empurrou os filhos para casamentos, aliás, até empurrou contra casamentos e coisas do tipo. Minha mãe nunca nem incentivou nada dessas coisas. E agora do nada quer me ver noiva (eu, noiva?!), e com um “bom” partido. Ela já não notou que sou adepta dos desvalidos? Pois sou. Também, nunca me vi casada. Noiva deuzulivre. Respondo que não sou dessas coisas, ela sabe com quem está falando?!

 

Pais pressentem as coisas. Ou é a minha idade (a qual não aparento e isso é um baita problema do qual pretendo escrever sobre). Ou minha vida amorosa-errante. Ou seria amorosa-perigosa. Não sei. Vai que querem me ver mesmo casada. Seria porque tenho falado em filhos? Quero adotar, quero um ruivinho, um indiozinho e um árabe. Se Jolie pode, por que eu não?

Passei o dia jogada no quarto, remoendo distâncias e desamores, enquanto estudava com a cabeça sei lá onde. Tão adolescência isso. Mandei e-mails e mensagens para alguns nobres amigos. Só para lembrar que apesar de estar aqui, não estou morta. Por muitas vezes é a sensação que tenho quando fico um tempo aqui, a da morte.

Amores vêm e vão, casamentos não vêm, felizmente. Estudos, sempre, mas volta e meia acho que não é pra mim. Amigos sempre os tenho. Para cá sempre volto. Pais são para sempre e todo o sempre – e eles dizem que me conhecem, pero no mucho. Esse estado de anti-dieta, casa cheia, tanto tempo no quarto, sempre me faz rememorar, relembrar, me rever – no melhor sentido. Gosto de me rever. Não dizem que tenho a idade que tenho, mas, vejam só, deve ser porque continuo exatamente a mesma – remoendo as mesmas coisas. Nem crise tenho por ver amigos casados, com filhos, descasados e por pensar que na minha idade meus pais já tinham casa, filhos, emprego, diplomas, tudo. Acho que nunca quis tudo. Quero check-ins. Passagens de ida e ida e ida e uma de volta. Se eu não voltar não poderei ir novamente.

Voltarei para contar como foram as viagens, os cursos, as compras, quem conheci, os sorrisos que dei, os lugares que amarei eternamente, as fotografias que tirei. Voltarei para saber se ainda amo – se é que amo – e para rever os amigos.

Porque era domingo e levei três lambidas no queixo, fui afofada uma dúzia de vezes, brinquei de juba de leão com a gata laranja, ri da crise do meu cachorro diante das asas do passarinho – aquele pequeno ser pode voar, veja só, ele me dizia com os olhos. A lasanha de espinafre estava ótima, o amendoim com chocolate também. E me controlei. Malas quase prontas. Vida acadêmica em caminhos tortuosos.

Quem sabe depois de uns vôos, algumas horas de estrada, tantas coisas novas para os olhos e a cabeça o coração volte renovado. Quem sabe? Falta é aquela coisa que a distância consegue preencher bem.

É noite de domingo. Ligam a TV. Uma gata dorme em cima da minha blusa de lã preta. A outra faz piquete na mala vazia. Os cachorros aparecem na janela da cozinha pedindo biscoitos e pitangas. Eu ainda tenho que pintar as unhas, escrever mais uma meia dúzia de páginas, enviar uns e-mails, ler dezenas de páginas. Mas, como bom espírito adolescente, suspiro e coloco Belchior e Alejandro para tocar.

 

Você não preferiria saber que alguém lhe ama do que ficar sem saber?

Quando ela sente que vai se apaixonar, acorda cedo e troca os móveis de lugar. Passa um dia inteiro em silêncio e só, trata logo de limpar cada grão de poeira espalhado pela casa. No dia seguinte, caminha à beira-mar, encontra pessoas, come camarão – diriam até que trocou de sorriso. Ela não queria, nem pensou nisso, mas é que na noite anterior sonhou com ele. E não foi desses sonhos quaisquer, nem daqueles para maiores de dezoito anos. Foi aquele sonho. Sonhou que eles eram um, como se tudo fosse tão natural. Sonhou que estavam ali, como quase sempre se encontram fora dos sonhos, e um contato que a faz acordar sorrindo e com o susto de que ele não está realmente ao lado dela na grande cama onde ela, sozinha, tanto ama se espalhar. É assim que ela passa a vê-lo. E por isso insiste nos móveis, na limpeza, faz sessões de descarrego de coisas velhas e não usadas. Ela sabe que não vai mais olhar para ele como olhava antes. Ela sabe que vai sofrer. Ela sabe que precisa dizer para ele o que sente, assim sem mais, sem artimanhas e com um “não me leve a mal” no final da frase. Dizer o que sente não é o mais sensato – lhe afirma a razão. E a razão, ah! a razão!, vai fazê-la meter os pés pelas mãos logo mais. Não há como dizer que o coração tem sido ouvido – ele ouve as canções açucaradas, procura livros com parágrafos suspirantes, até assiste às novelas para encontrar redenção. Novelas são muito sábias nessas horas. Sem ela perceber, seu coração – o calado até então e por enquanto ainda será um tanto ignorado – faz as vezes de personagem, calcula artimanhas, prevê obstáculos entre mocinhas e vilãs. Então talvez seja melhor recorrer aos filmes, pois nessa história os papéis de mocinha e de vilã não estão bem definidos. Nas novelas, tanto vilãs quanto mocinhas amam (sempre fica a impressão de que vilãs amam mais e mais apaixonadamente), porém, só as mocinhas viverão felizes para sempre. Ela ainda não sabe se quer ser feliz para sempre. Ela ainda está sentindo, pela primeira vez, a falta que ele faz. Ela decide e desdecide, várias vezes ao dia, declarar-se. Mas declarar-se é imprescindível! Caro leitor (homens são mais vaidosos e irresponsáveis que mulheres), você não preferiria saber que alguém lhe ama do que ficar sem saber?! Dizem por aí, aqueles que o descobrem, que amar é bom, mas ser amado é ainda mais sensacional. E você, leitor, pense em uma declaração de amor surpresa na sua vida e imagine mil implicações e problemas decorrentes dela. Ainda assim você quereria ouvi-la? Vejam que a situação dela é digna de ternura. Não se apaixona há séculos. As últimas vezes nem foram assim, foram bem mais diretas, simples e livres – apaixonou-se pelo caminho e só. Ela já nem queria mais se apaixonar. Tentou, é verdade, uma vez ou outra. Não teve êxito. Já pensava que seu coração, o mudo, resolvera viver com outras paixões menos vivas e menos dependentes. Andava tendo sonhos pesados com o passado, como se precisasse relembrar tudo de ruim que pode acontecer com quem se apaixona. Eis que naquele dia sentiu que o sonho poderia ser revelador, ela poderia apaixonar-se novamente. Entre resistência, grãos de areia sugados metodicamente pelo aspirador de pó, pôr-do-sol e mar, ela abraçava com carinho a idéia de apaixonar-se novamente, toda noite quando puxava a coberta, ligava o ventilador e desligava o abajur. Era neste único momento, sozinha em completo silêncio, que ela avaliava a beleza do sentimento tão puro, divertido e nobre que ela sentia nascer aos poucos dentro de si. Ali ela aceitava. Ali ela assumia. Ali até deixava-se crer correspondida ao analisar minuciosamente gestos e falas. No resto do dia, suspirava e sorria. As pessoas reparavam, ela sorria mais. Ela chegava em casa, com as luzes apagadas caminhava até a varanda e ficava lá observando as nuvens passeando sobre os morros à beira da praia. Havia se entregado totalmente às canções. Não ouvia mais nada nem ninguém, é verdade. Nem revolta sente, não tenta bravamente trocar as lerdezas do amor por horas de trabalho a fio. Gosta do tempo. Acredita que foi ele que a jogou tão exatamente nesta barca. Ela apaixonou-se, vejam só, talvez já seja fato. Ela pode escolher viver assim por algum tempo até decidir guardá-lo com ternura no lado direito do peito – o arquivo morto, como todos sabem – se a vida, as coincidências ou até, quem sabe, o Destino (que nem deveria ser citado) não lhe pregar mais nenhuma peça. Ela já fez isso algumas vezes. Ela acha que ninguém é obrigado a saber que é o protagonista dos seus sentimentos. Talvez, vejam só, ela guarde coisas demais para si. E, menos suposição e quase certeza certa, seja o mais importante elo entre ela e ele: ele a faz tirar as coisas de dentro de si. Fato notável, tenham certeza. Isso a desconcerta. Porque ele também lhe mostra o que traz na alma. Isso, enfim, a desconcerta ainda mais. E é por isso que ela está pensando e não pensando tanto se deve declarar-se. Ninguém percebeu, mas ela voltou a ler os russos (lê escondida, não comenta, não cita). É mau sinal. Os russos sabem que não há finais – quem dirá finais felizes – para essas histórias. Ela aprendeu essa dor com eles. Quem dera ela tivesse recorrido aos filmes, aqueles das fórmulas prontas. Ela estaria planejando uma declaração sincera, direta, com o “não me leve a mal” e imaginaria os beijos e abraços que se seguiriam. Os russos… ela não deve estar imaginando uma boa recepção à declaração se entregou seus pensamentos a eles. E, assim, ela não quer perdê-lo de vez. Eis, talvez, a única parte mais certa de toda a história: nem o “não me leve a mal” pode salvar um possível afastamento total. Pensando bem, caro leitor, ela está entre perder de vez e perder de vez. Só ocorre que numa das opções ela terá dito que se apaixonou, sem culpa, sem desejo. E é esta opção que pode abrir mais caminhos – sejam russos ou hollywoodianos. Além de provavelmente inflar o ego amorístico de um homem que talvez mereça isso. Caso ela insista em não declarar-se apaixonada (como se já não fosse evidente para as pedras da praia, para as árvores da estrada, para as malas mal arrumadas) não descortinará possibilidades e o frágil caminho que há, em pouco tempo (sem metáforas aqui), se fechará de vez. E aí só restará o arquivo morto um pouco mais adiante. Há quem não goste ou não reflita por alguns segundos ao se ver como protagonista do apaixonamento de alguém? Há? Ela queria ter esta certeza. Ela pensa na razão que ajudou-a a, de verdade, apaixonar-se. Foi esta amiga que fez com que ela visse com ele que as coisas têm seu momento exato na vida. Não seria, então, um abuso calar o seu estar apaixonada se isto lhe acontece justo agora? Poderia ter sido mês passado, poderia ser só em março. Não foi. Talvez ela queira ouvir conselhos. Talvez ela queira prostrar-se diante de alguém em quem confia e contar que está apaixonada. Como um teste, talvez. Tirando pela reação das pessoas ela será induzida a declarar-se para ele, ou não. Caro leitor, não sei a sua sugestão, mas deverias induzi-la a não fazer isso pois as pessoas são muito mesquinhas quando atentam para os sentimentos alheios. Ninguém prestaria atenção no mais sincero pedido do coração dela, o “não me leve a mal”. E aí ela se consumiria em acreditar que ele também não levará isso em conta. Pode haver um grande mal em declarar-se apaixonada, sim. Mas, russos e hollywoodianos hão de concordar que ninguém fica imune a uma declaração de amor. Digam isso a ela, por favor?

Desafio: falem bem de mim

 

Minha mãe sempre diz uma coisa (e coisa que mãe diz a gente deve levar a sério) que já reparou em como pais falam mal dos próprios filhos. Ela conversa com alguém e lá vem a pessoa (de alguém praticamente desconhecido até o parente mais próximo) a falar mal do próprio filho. Ela fica indignada com isso. Sempre a ouço dizer que ela nunca fala mal dos filhos dela para quem quer que seja. Bem, não queria dizer nada, mas ela nem tem o que falar mal dos filhos dela. Minha mãe tem excelentes filho (sim, advogo em causa própria) e tem mais dois pontos super positivos sobre o causo: não fala mal das pessoas e ama os filhos. Era sobre isso que eu pensava em escrever quando me veio essa análise que ela faz: falar mal dos outros.

Todo mundo diz que é errado, mas quantos andam por aí fazendo exatamente isso? Digo falar mal mesmo, por maldade, não digo criticar ou ater-se a fatos. Inventar ou destilar veneno por seus recalques, por exemplo.

 

Sempre me acusaram de excesso de sinceridade. Mas, gente, sinceridade é uma coisa em si, não há como ter “excesso”. E, sim, não me falta sinceridade. Já chegaram a me dizer que é bom o jeito como eu sou, sincera, mas que não precisa ser “tanto”. Tanto? Mas se eu for “menos” sincera estarei, ainda assim, sendo sincera? Claro que não. Não falto com a sinceridade. Doa a quem doer (inclusive a mim). Aliás, pensava nisso esses dias sobre as respostas que as pessoas me dão. Por favor, sejam sinceras comigo. Não inventem, não digam por dizer, não tentem agradar. Se eu faço uma pergunta, não diga “sim” querendo dizer “não”. Fico muito revoltada com isso. Sério. Custa tanto assim ser sincero ou as pessoas já nem sabem mais o que é ser assim? Será que elas andam por aí trocando sins por nãos para evitar isso e aquilo que já nem se dão conta da diferença que há? Pois eu queria que as pessoas fossem mais sinceras comigo. Simples assim. E é aí que a sinceridade entra na questão do “falar mal”. Falar mal dos outros pelas costas é, sim, faltar com a sinceridade. E, consequentemente, é falta de caráter.

 

Escrevo alguma novidade? Pra mim, não. Porém, acredito que muita gente por aí não pode nem ouvir falar nisso – imersas que estão nesse mundinho de redes sociais virtuais e reais nas quais se prestam ao papel de falar mal dos outros.

 

Entrar na minha vida é fácil (muito fácil), seja num encontro qualquer num ônibus, num tropeço no cinema (vocês já viram a propaganda da Cinemark?!), no mundo virtual, nas ruas de tantas cidades, na aula, no trabalho. Basta me encontrar e com alguns gestos ou palavras (ou com os dois) você já terá entrado na minha vida. Dificílimo mesmo será manter-se nela. Garanto que não é nada fácil, requer muitos princípios, qualidades, paciência, disposição e tantas e tantas outras coisas. Por isso, falar mal de mim por aí (como tanta gente faz redundantemente) é facílimo. Quero mesmo é ver você destacar-se do senso comum e falar muito bem de mim. Aí eu quero ver.

 

Sempre achei engraçada essa relação do fácil e do difícil. O povo gosta do primeiro, vai correndo pra ele, beija, abraça, já puxa a poltrona, liga a TV e sente-se confortável. Eu gosto mesmo é do segundo. Não sou muito chegada no comodismo, bem se vê. E sabe qual o abismo que há entre os dois? Pensar. Pensar sempre te leva para o caminho mais difícil. Ignorar-se, evitar pensar e atrelar-se aos pensamentos alheios é o convite do “fácil” – tanta gente aceita. Deprê, né? Eu acho. As pessoas preferem não pensar, juntam-se a uma orda de gente que faz tudo igual, vão pelo mais fácil, ficam aí pelos cantos falando mal dos outros, cometendo maldades, esquivando-se de prestar contas dos próprios atos.

 

Eu? Eu tenho a consciência tranquila. Sinto a incapacidade de fazer mal, ou sequer desejá-lo, a quem quer que seja. Também tenho uma lista – bastante povoada, é verdade, desde pessoas que nunca me dirigiram a palavra até parentes bem próximos – de gente que já me fez muito mal, me prejudicou diretamente, me sacaneou, e aos quais eu poderia desejar todo o mal do mundo. Não o faço. Não sinto nada dentro de mim que me permita desejar mal a quem quer que seja. É só uma incapacidade mesmo – alguns até dizem que eu deveria “dar o troco” e essas coisas. Simplesmente tiro-as da minha vida. A vida é coisa boa demais pra pesar com gente desse tipo. Por isso eu disse que é fácil entrar na minha vida, dificílimo é manter-se.

 

Hoje até prefiro que me chamem de arrogante – prefiro a arrogância à ignorância.

 

Eu faço tanto bem às pessoas (vide inúmeras declarações que ouço constatemente), desperto coisas tão boas nelas, faço com que elas vejam a vida de outro jeito, que não tenho porque perder tempo da bela vida fazendo o mal – nem que seja só falar mal. É um dom que eu tenho, faço bem às pessoas. Ninguém pode me acusar de ter tido falhas como profissional, como parente, como namorada/caso/affair, nem de ter sacaneado ninguém, passado a perna, essas coisas. Podem me acusar de ter deixado uns corações partidos (ou desejos não saciados) por aí, é verdade. Quando falam mal de mim é por algum tipo de recalque, dor de cotovelo, problemas psicológicos, sei lá. Nem vou me alongar em imaginar porque as pessoas escolhem o caminho mais fácil e vazio – a escolha é delas.

 

Está lançado o desafio: quero ver andar por aí falando muito bem de mim. Quero só ver.

Prefiro sofrer em Florianópolis

Estava conversando sobre a próxima tatuagem (voltei de viagem com uma especial para fazer e ainda falta a anterior) com a amiga e ela disse que sempre estranhou eu não querer nenhuma relacionada ao mar, pelo tanto que gosto dele. Fiquei surpresa, nunca tinha pensado nisso. Matutei a idéia… mas tatuagem relacionada ao mar? Mais algum verso, quem sabe. Golfinhos nem pensar, tenho horror a tatuagens de golfinhos (quando fizer um post sobre tatuagens prometo que explicarei). Aí vinha pedalando lá da Lagoa (a da Conceição) no fim de semana e entre sorrisos e canções sem fim tive a idéia. Farei uma com o traçado do mapa da Ilha. Porque todas as tatuagens que tenho são por motivos de amores especialíssimos e não há como negar meu amor por este pedacinho de terra encontrado no mar. No mesmo dia, no intervalo do trabalho fui procurar um livro para ler… lembrei que tinha passado na UFSC algumas semanas atrás e comprado alguns do Flávio José Cardozo, achei que era uma boa pedida. Fui me deliciar com linhas leves e divertidas sobre esta Ilha que também adotei. Nada mais perfeito. Já tenho na manga um livro que estou escrevendo sobre a Ilha, as palavras são, de algum modo, a forma pela qual expresso meus amores (além das tatuagens, das fotografias, do prazer). Ler o Flávio, no qual me encontro tanto e que foi quem me deu um “ar” da Ilha antes de eu vir morar aqui, fez muita coisa retomar seu sentido.

Desde criança quis morar numa Ilha (eu dizia muito isso, mas acrescentava um “deserta”). Vim pra Ilha com uma mala de roupa e uma caixa com alguns poucos livros e meu aparelho de som. Mal a conhecia, estive umas duas ou três vezes alguns anos antes, a famosa beira-mar norte, as dunas da Lagoa da Conceição e da Joaquina, um lugarzinho rural ali pelo Sul, o centrão do shopping e da praça em frente ao Hippo (quando ainda era Santa Mônica), o mirante da Lagoa. E mesmo com tão pouco e praticamente nenhuma foto, eu lembrava muito bem de tudo. Foi onde andei a cavalo pela primeira vez. Anos depois, com dezoito anos na cara, sozinha, muita coragem, boa vontade e independência eu vim. Eu havia decidido e pronto. Cá estava eu, na Ilha, com tantos compromissos e olhos inquietos a observar tudo – tudo e muito mais. E nós fomos nos conhecendo, ela me deixava ver como ela era, eu me expunha cada vez mais. Aqui já me apaixonei e desapaixonei, já me iludi e desiludi (ah! as desilusões!), já errei e acertei muito. Já conheci pessoas muito ruins e também pessoas excepcionalmente boas. Já me perdi – e definitivamente me encontrei. Já me perdi pelos morros, já me perdi pelas ruas (principalmente no centro), já me perdi no meio do mato entre sufocos e risadas, já me perdi espiritualmente, já perdi meu coração numas curvas, já saí de mim em deliciosos banhos de mar, já fiz coisas inconfessáveis, já tirei toda a roupa na Galheta (e em outros lugares), já pesquei na Barra e no Pântano do Sul. Ela tem esse charme com o qual já tentei explicar aos outros como fui seduzida, um charme especial de cidade pequena com ares de cidade grande – visto que não sou adepta do interior mas também abomino metrópoles. Tem quem diz “dinheiro não traz felicidade mas prefiro sofrer em Paris”, ou algo assim. Eu prefiro sofrer em Florianópolis. Até ficar triste ou sofrer é melhor aqui. Já passei por momentos ruins nesses anos todos. Mas sempre tenho algum lugar muito especial para ir quando estou assim. Ou simplesmente poder ficar quietinha no meu canto – assim a “ilha deserta” se concretiza. Florianópolis é um lugar-passagem para muita gente, fiz amigos que hoje estão espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Até eu cogitei planos de ano que vem ao completar a marca de dez anos de Ilha me mudar. Pelo simples apreço de chegar do nada num lugar com uma mala de roupa e uma caixa com poucos livros. Tenho sérias dúvidas de que a experiência seja tão fascinante quanto foi por aqui. E a Ilha é assim, não é ciumenta nem possessiva, eu vivo viajando e ela nem reclama – só me recebe com dias nublados de vez em quando. Tenho isso de, por essa época, esperar o patriotismo dos seus morros pintados de verde e amarelo-guarapuvu. Ah, se eles soubessem quantas vezes já me fizeram sorrir. Há exatamente um ano eles foram protagonistas de uma superação marcante. Já fui testemunha da existência dos duendes, e não só daqueles dos morros da Lagoa da Conceição, mas daqueles ali do Ribeirão também. Já vi a lua nascer esplendorosa atrás da Ilha do Campeche. Já vi o sol nascer atrás do morro da Mole. Já vi o mais belo pôr-do-sol da Ilha ali na praia do Forte. Já nadei com pinguins nos Ingleses. Já bebi até cair na Armação (e no Estreito também, não quero deixar o continente com ciúme). Já vi golfinhos na ponta do Rapa e em Naufragados. Já prometi um dia ir morar na Daniela. Já subi e desci algumas vezes o morro das Sete (suspeitas) Voltas de bicicleta e à pé. Já tomei banhos de cachoeira até esquecer do mundo. Já comi os mais deliciosos camarões. Já fugi para o cinema em tantas terças-feiras difíceis. Já fiz passeios fantásticos (literalmente) de carro pelas madrugadas assombradas da Ilha. Claro, já passei maus bocados também. Já fiquei sem ônibus inúmeras vezes nas greves anuais dos motoristas e cobradores. Já fiquei horas e horas em hospital esperando pra ser (mal) atendida. Já fiquei algumas horas parada em filas para atravessar as pontes. Já fiquei sem sinal de TV, rádio e celular porque os morros criam áreas de sombra. Já enfrentei primaveras chuvosas demais. Já tive que evitar certos lugares pelo tipo de gente que os frequenta. Vejam só, esta lista é bem menor. Nem vale a pena falar dela. Coisas ruins e problemas existem em todos os lugares, o certo é fazer um balanço entre as ruins e as boas para ver quais prevalecem. E, sim, pensando no mar do Campeche que fica aqui ao lado eu sei que as boas extrapolam em muito as ruins. Aliás, já morei no centro, na Carvoeira (verdadeiramente Saco dos Limões), na Trindade e agora no Campeche – porque preferi um mundo distante. Desprezo essa gente que mora na Ilha e só considera a existência da região central (ali, do centro até a UFSC, no máximo Itacorubi até a UDESC e redondezas), a Lagoa (da Conceição, bem entendido) e, sei lá, como praia, os Ingleses talvez. Desprezo essa gente e muitas gentes que não conhecem nem querem conhecer a Ilha, que não a respeitam e não têm olhos para tudo que há além das belezas. Por aqui fui aprendendo na marra a lidar e conviver com as pessoas. Os vizinhos, por exemplo. Aqui mesmo já tive que denunciar maus tratos aos animais, a Lei Maria da Penha e maus tratos infantil. Tenho uma vizinhança divertida. Quem manda ser tão observadora. Sou apaixonada pelos manézinhos. Aliás, quero que meus filhos sejam manézinhos, vai que levo sorte e poderei ouvir o sotaque lindo deles o resto da vida (se não forem como eu que nasci sem sotaque). Amo o sotaque manézinho. Quem diz que italiano fala alto é porque nunca ouviu uma manézinha legítima. Mas também nunca vou entender a bananinha, a bacia com louça lavada para secar ao sol, os quintais cimentados (ou com piso), o pão de trigo (ainda sofro com isso), a falta de ambição, o prazer pela negação e a seriedade inabalável. Não conheço tanto da sua história nem dos seus personagens nem todos os seus nomes e recônditos. E amo-a mais por isso. A cada vez que vejo uma curva nova, um horizonte descortinar-se, renovo meu amor. E foi isso que me fez relembrar o quanto sou apaixonada por esta Ilha e como ela me faz tão bem – até quando estou mal. Nem os condomínios do Ribeirão para a nata alternática, nem os prédios feios fincados na Brava, nem o mau gosto arquitetônico de Jurerê Internacional (afinal, até eles precisam ter seu espaço na Ilha), nem o futuro hotel de luxo do mirante, nem o shopping sobre o mangue, nem a chata limitação de acesso à base aérea (parece que ela vai realmente ter fim), nem o gosto desenfreado do povo ilhéu por tudo que é modismo (vide os sushis, os MiniCooper, as leggings Dits), nem as casas em área de preservação permanente, nem os palmiteiros, caçadores e trilheiros de fim de semana me fazem amar menos esta Ilha. Aqui eu acho tudo perto. Em trinta minutos ou uma hora (tanto de ônibus quanto de bicicleta e à pé) eu chego nos lugares mais lindos. E é um pouco por isso que ser feliz e ser triste aqui é tão bom. Ela é enorme. Posso passar meses sem ver o farol da Barra lá do alto do Maciço, ou o pôr-do-sol do alto do morro das Aranhas, ou sem caminhar pelas dunas entre a Joaquina e o Campeche, ou sem subir o caminho da praia do Saquinho até minha pedra favorita, ou sem ir comer um camarão na Costa, ou sem ir caminhar pelo Ribeirão, ou sem boiar na Lagoa do Peri como se não houvesse amanhã, ou sem ir fotografar as praias e pontas da Cachoeira. Eu posso, na verdade, variar. E não há nada mais imutável nos meus desejos do que o desejo de variar. Sobre a má fama de ter fobia aos que, como eu, vêm de outras terras, não tenho nada a dizer, bem pelo contrário. Sempre fui muito bem recebida. E ainda quando me perguntam de onde sou e digo que sou curitibana mas catarina de coração desde bebê ouço (como ontem ainda me disseram) que fiz bem. E fiz mesmo. Não trocaria ser catarina de coração por lugar nenhum da Terra. Por isso nunca vou entender o preconceito e a dor de cotovelo que existe à beira do Rio Cachoeira com a sua Ilha-Capital, e dos quais felizmente não fiquei com nenhum ranço. Quando criança, pelo tanto que eu ouvia, Florianópolis parecia um lugar de pessoas vagabundas, de orgias, de leviandade – um perigo a ser evitado, principalmente pelas almas fracas. De certo modo, devo concordar. A luxuriante Ilha desperta a lascívia, a sedução, os prazeres. Daí a concordar que isso é ruim e deve ser evitado, já é demais pra mim! (seria eu uma alma fraca? sim, confesso minha fraqueza pelas coisas boas da vida!)

Leio Flávio com um sorriso nos lábios. Me divirto toda vez que saio, nem que seja só pra ir até a academia aqui perto, ou numa tarde de revolta ir até o Floripa me acabar num fast-food. O livro que estou escrevendo não vai contemplar todo esse amor nem todas essas paisagens, personagens e desincronias que por aqui existem. É só mais uma declaração de amor e talvez meu dia de “fico”. Posso até ser feliz em muitos lugares, mas eu prefiro sofrer em Florianópolis.

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