Sobre teorias e extirpações

Faz mais ou menos um ano quando foi que eu ouvi a teoria do “e precisa?”. Naquela madrugada e em vários outros dias ao longo desse tempo todo eu matutei e matutei sobre isso. E precisa?

Além da confusão que instaurou-se nos pensamentos e, claro, levou dúvida ao sentimento, houve um desastre anunciado nas atitudes e relacionamentos. Pouco restou disso tudo. Aliás, pra mim, não restou nada.

Se tem uma coisa que eu não gosto nessa vida é que as coisas fiquem mal resolvidas. Principalmente quando se trata de relações com pessoas. Para quem tem tanta dificuldade com as pessoas, quando as coisas desandam já não é mais dificuldade, é impossibilidade. E se tem uma coisa que eu sei fazer bem, principalmente nessas horas, é cortar relacionamentos de vez. Pra que ou por que manter uma pessoa na tua vida se ela não faz mais sentido nela? Ou se ela não demonstra ter coragem para manter-se nela?

Não há como entender os homens. Eu formulei a seguinte teoria: se age como babaca uma única vez, já não é mais homem, então pra mim deixa de existir. A teoria pode ser aplicada nas pessoas em geral. Se foi capaz de te sacanear uma vez, se teve alguma atitude babaca, esquece.

Claro, alguém com uma boa memória como eu não esquece. Mas definitivamente sei cortar laços. Extirpo pessoas da minha vida. Em casos nobres até dou chance, mas se não tem como, esquece – ou risca da lista mesmo.

Homem que é homem não se deixa ser mandado por mulher – seja ela esposa, namorada, caso, amante, o que for. Nem mulher que é mulher obedece homem nenhum. Aliás, mulher que é mulher não manda no seu respectivo marido/namorado/caso/amante. Mulher que é mulher se garante e encara as coisas de frente.

Acho lamentável que existam pessoas que fogem do que sentem. Pessoas que se acovardam diante das possibilidades que o mundo lhes dá. Pessoas que não assumem seus desejos e dúvidas. Como diz aquela canção “É o amor agitando meu coração Tem um lado carente dizendo que sim E essa vida da gente gritando que não” mesmo quando não é amor, mesmo quando é só desejo, ou mesmo – e principalmente – quando não se sabe direito o que é e se é alguma coisa.

Esse tipo de pessoa é mais um que eu extirpo do meu (minúsculo) círculo de relacionamento. Em casos nobres que até reluto um pouco, dou uma chance e espero uma resposta. Vacilou de novo? É fim.

Tem quem prefira obedecer aos gritos de “não” que a vida dá. Azar. Eu não obedeço ninguém, muito menos no grito. Pessoas fantásticas, grandes amigos, pessoas inteligentes e interessantes podem simplesmente sair da minha vida porque tomam atitudes babacas. De babacas o mundo está cheio demais. Prefiro os casos mais extraordinários, nada vulgares.

Ps: Sobre a teoria do “e precisa?”, realmente quem a proferiu estava certo. Não precisa. A pessoa não precisa colocar roupa isso ou aquilo, a mulher não precisa rebocar a cara de maquiagem, saia isso ou aquilo, o homem não precisa passar a cantada genial, nem fazer mil convites e levar no melhor restaurante, ou qualquer coisa dessas que dizem que é o jogo da conquista. Não precisa nada disso. Para seduzir, conquistar, despertar sentimentos apaixonantes no outro não precisa de nada disso, basta ser quem se é. Isso sempre vai conquistar alguém. (e aí abrem-se mil poréns)

Borboletas, o covarde do tempo e a solidão de quem acredita

 

E é abril. E é outono. Eu sei, o mundo real bate na porta. A vida deve voltar ao seu curso.

 

Abril é a ressaca de março (e de janeiro e fevereiro, que são três dos melhores meses do ano) e o outono é a ressaca do Verão, ah! o verão! Meu bronzeado já deu adeus. Já voltei à cidade, passou o Carnaval, as festas…

 

Abril chega assim chutando a porta e exigindo respostas em forma de decisões e escolhas. Hein? Escolhas? Me mande comer bucho, mas não me mande fazer escolhas. Não, calma, não é para tanto. Sei lá, me mande gostar de futebol, mas não me mande fazer escolhas. 365 dias no ano e as coisas resolvem cair no mesmo dia. Caramba, Destino, já entendi. Não força a barra.

 

Então o humor se altera. A paciência diz que não vai dar as caras, como sempre. A rebeldia sacode o corpo. Para piorar tudo, instaura-se uma crise profunda de solidão. Aquela que não tolera o outro, que não quer ver gente, não quer falar com gente, que quer ficar só consigo, com os pensamentos, com a ficção, com as idéias e ideais. Talvez a mais grave desde aquela crise feia de muitos anos atrás. Pior que aquela impossível. Ou não.

 

E aí a solidão quer canto, casa. E a vida batendo na porta e na caixa de entrada do e-mail mandando ir pra lá e pra cá. Obrigações… e a rebeldia dando saltos mortais aqui dentro – e sobrevive a eles.

 

Eis que era para limpar a casa, arrumar e continuar a sessão desapego. Computador ainda para faz refaz desfaz backup, formata, instala, desinstala. Louça na pia, supermercado para ir. Filmes para assistir, coisas para escrever, contas para pagar. Ufa! Uma lista interminavelmente horrenda em vulgaridade.

 

Pra quê? Eu estava mal, ninguém sabia. Ninguém perceberia.

 

Me sacanearam e ainda me deram “bom dia”. Quem se importaria?

 

Crise de solidão. Sol. Dia lindo.

 

Joguei fora os planos para o dia (era uma ida solitária à Costa da Lagoa – aí penso, mas ali é para o leste, sem sol no final de tarde, não vale) e o cronograma oficial. Não faço planos, não sei seguir cronogramas.

 

 

Fui. Daria um jeito. Chegaria lá.

 

 

O caminho parecia querer provar alguma teoria escabrosa. Só provei que sou, além de tudo, muito persistente.

 

Ali diante do mar, ondas calmas, sol lindo… sorrio. Tenho esbanjado sorrisos, como nunca (lá se vai um ano assim). Nem quando estive apaixonada das maiores paixões (que nem foram poucas até hoje) – não estou apaixonada por ninguém, vale ressaltar. Esbanjo sorrisos ao ver algo incrível, ao pensar em algo ou alguém, quando ouço uma música no mp3. Se me vir sorrindo por aí, lembre que tenho todos os motivos do mundo.

 

Mas a vida não havia mudado só porque diante de mim estava o divino mar e um pôr-do-sol digníssimo. Não. Eu só me encontrava mais em mim, assim envolta cegamente em pensamentos.

 

Eis que caminho ao longo da praia, pé na água… pra lá, pra cá… observo uma coisa ou outra e na verdade não estou observando nada. Até que me dou conta do que era aquilo que eu observava. Borboletas. Borboletas no mar.

 

(quando já ia embora da praia pensei que ver aquelas borboletas tão inusitadas me lembrou Cem Anos de Solidão, há alguma cena de borboletas saindo do banheiro ou algo assim – e de como foi difícil o começo da leitura dele, como sofri com a tal literatura fantástica que só vim nomeá-la depois, e quando simplesmente acreditei nela é que tudo fez sentido)

 

Talvez haja uma explicação científica. Talvez algum fato comprove a presença delas ali. Só posso dizer-lhes que em tantos anos de praia e de vida (dá no mesmo) eu nunca tinha visto aquilo, nem ouvido falar. Eram dezenas de borboletas mortas boiandos nas ondas. Dezenas. Ou mais. Eu olhava sem vê-las até me dar conta do fantástico daquilo. Olhei em volta buscando uma explicação que eu nem queria. Praia que traz coisas de alto mar por conta das correntes, mas borboletas não vêm do alto mar. Borboletas não se suicidam. Borboletas e mar, nada a ver.

 

 

Foi isso que fez, então, todo sentido. Eu acreditava, borboletas boiando no mar aos meus pés. Fiquei mais de hora ali com elas. Até resolvi fotografar algumas para que não me chamassem de louca. Agora até provas tenho.

 

Acreditar é o que faz sentido na minha vida. Só isso. Eu já sabia. Mas em meio à crise eu precisava ser lembrada disso. Nada mais lindo, fantástico, louco e inusitado para me lembrar disso do que aquelas borboletas surgindo aos borbotões a cada onda. Eu já não vivia aquela vida vulgar de obrigações e mês de abril de mais um outono.

 

Outono, o sol se pôs mais cedo (horário de verão, I miss you so much!) e atrás do morro mais alto. Abril, você também vai passar, deixando saudade ou não. Duvido que superes março, mas podes tentar.

 

Eu poderia ter ficado em casa. Poderia ter sofrido com a minha crise. Poderia ter limpado a casa. Poderia estar, agora, com tudo em dia. Não teria visto borboletas no mar. Aliás, eu jamais teria perdido a chance de ver borboletas no mar.

 

“Mira como corre, qué cobarde es el tiempo” pois que corra, eu não tenho pressa em acompanhá-lo. E como diz a outra canção, “eu vou sair nessas horas de confusão” porque confusão não se cura sufocando-a nem alimentando-a. Confusões e crises são curadas com o ar. Ou com borboletas ao mar, mas aí não é pra qualquer um.

 

(na hora do sol se pôr também surgiu um objeto não identificado à esquerda dele, ao sul, brilhante, pequeno, durou uns minutos e sumiu – sério que ninguém mais viu? as fotos não ficaram tão boas.)

 

Me demoro à beira-mar… volto aos pensamentos, fotografo pouco, redescubro certos cantos e olhares. Lasco o dedo do pé numa pedra e só vou me dar conta disso horas depois. Já tarde vou seguindo meu caminho. Sentam ao meu lado duas mulheres e um menino uruguaios. Querendo me deleitar com a fala deles tiro o fone de ouvido. “Tus amigos saben hacer el amor?!” eis que uma pergunta. Engulo uma gargalhada engasgada daquelas e me esforço por manter o rosto sem nenhuma expressão – finjo que não entendo o idioma. Presto atenção para entender o descabido da declaração e o menino, coitado, se esforça para explicar que já ensinaram na escola essa coisa de espermatozóide e óvulo e tal. Ao que a mulher quer detalhes se já falaram de pintos e vaginas, o coitado ri e diz que sim, mas que isso já sabiam. O diálogo prossegue com as duas indignadas de meninos de oito anos aprenderem isso enquanto elas só aprenderam aos doze, treze anos. Elas ainda insistem para que ele diga a reação dos colegas ao assunto tão interessante e motivo de piadas para aqueles que não o conhecem.

 

O ar tinha o perfume da Dama da Noite. O Rei começava seu show a uma ponte de distância de mim, as pessoas se arrumavam para ir para a balada, eu sorria volta e meia ao lembrar de alguma coisa ou ao ouvir alguma canção do mp3. Me deixem sem dinheiro, sem amigos, mas não me deixem sem mp3. Cantava Cazuza que queria alguém pois o cachorro já não o lambia, os pais não o entendiam e os amigos eram chatos: dispenso o alguém, amigo, mas no resto estamos na mesma.

 

Aliás, dispenso qualquer alguém na minha vida. Não sei até quando, já não entendo o motivo, mas acredito no meu coração quando ele me pede isso. Posso não estar na idade para paixonites (essas realmente dispenso), mas também não passei da idade para grandes amores.

 

Borboletas. Acreditar. O tempo, esse covarde. Crise (profunda) de solidão. Abril e outono. Ressacas. Era para juntar tudo isso e dar em alguma coisa. E deu. Se tiverem explicação para alguma dessas coisas, por favor, não me contem. Dispenso explicações. Eu sempre prefiro acreditar. Sem isso não sou nada além do nada que dizem que a gente já é.

 

 

Eu preciso ter uma opinião sobre tudo?

Esses dias, observando algumas coisas, me perguntei: mas eu preciso ter uma opinião sobre tudo?

Já dizem as más línguas que opinião é que nem isso ou aquilo que cada um tem a sua. Eu dizia que opinião é uma merda, justamente porque cada um tem a sua. Mas cada um precisa ter uma opinião para tudo o que acontece?

Eu tenho essa relação de amor e ódio com a internet e redes sociais. (exceção o Twitter, pelo qual sou só amores) Aí fiquei pensando que os sentimentos de amor e ódio vêm do sentimento que eu nutro pelas pessoas. Tenho extrema dificuldade com as pessoas, todo mundo sabe. A internet e as redes sociais, principalmente, são feitas pelas pessoas. Talvez seja essa a explicação.

Tanto já se falou na superexposição, no excesso de compartilhamento da vida privada, do fluxo contínuo e caótico de informações e notícias. Não vou me alongar nisso. O problema é o que se faz com isso. Nenhuma rede social, desde o sucesso, entre os brasileiros, de um inóspito Orkut, vem com manual. Você faz o que você quer com a sua vida on line – e esse é um daqueles problemas e até perigos dos quais já tanto se falou e escreveu a respeito. Eu gosto muito do Foursquare, por exemplo. É uma rede social sobre lugares e muito já salvou minhas noites e fomes. Aí sempre tem aquele que diz que é perigoso dizer onde você está, blábláblá. Mas aí vai de você ter x número de amigos (“amigos” hoje, no mundo virtual, tomou uma dimensão conceitual diferente da qual estávamos – ou eu pelo menos – acostumados) na rede e de onde mais você publica. As ferramentas estão aí, nós fazemos dela o que bem entendemos. Ou não.

Etiquetas em redes sociais também são abundantes. Eu prezo etiqueta. Sou uma pessoa que foi educada e sigo até aquela coisinha linda de colocar a mão na frente da boca quando bocejo. Etiqueta em todo lugar é bom e faz bem. Por outro lado, sou amante da liberdade. E aí as coisas complicam.

Eu posso pensar o que eu quiser acerca do que eu bem entender. Nem por isso as pessoas precisam sair por aí jogando tudo o que pensam na cara (mesmo que virtual) dos outros. Eu sempre digo que ainda bem que as pessoas não sabem tudo o que me passa pela cabeça, melhor assim. Mas será que eu sou obrigada a ter opinião sobre tudo?

Você já deve ter reparado nisso. Eis uma notícia, um fato, um acontecimento. Em poucos segundos cai na internet e… todo mundo comenta. Trendings tratam justamente disso. Acredito que uma coisa é você comentar o programa de TV que você assiste, ou o jogo do teu time, ou a morte de alguém que foi importante pra você. Outra coisa é você se obrigar a comentar coisas das quais você não tem o mínimo conhecimento ou que não te interessam em nada.

Foi assim com a escolha do Papa. Eu acompanhei pela TV, eu sou católica. A escolha de um Papa me diz respeito de alguma forma. Eu conheço várias coisas a respeito das práticas e da história da Igreja Católica porque ela faz parte da minha vida. Fiz comentários sobre o acontecimento que foi televisionado ao vivo. E eu vi comentários, piadas, idiotices sendo postadas afú por pessoas que não têm relação alguma com a Igreja, e na vida das quais existir um Papa não faz absolutamente diferença nenhuma. Vi uma protestante escrever coisas de um nível tão ignorante (e é professora!) sobre o Papa que fiquei curiosa. Dias depois a mesma pessoa publicou uma imagem com dizeres sobre não importar a religião da pessoa, mas sobre ser chato. Hein? Eu acho chato quando as pessoas comentam coisas sobre as quais não lhe dizem respeito. Ou, principalmente, sobre as quais elas não têm conhecimento algum.

Choveram comentários de ateus sobre a escolha do Papa. Achei tão, mas tão, sem noção que me esforcei por ignorar. Pô, o cara não é ateu? Por que diacho se preocupa com o Papa? Deve ser algum trauma mal resolvido, só pode. Sobre o incêndio em Santa Maria, por exemplo. De um segundo a outro todo mundo parecia amar aquela cidade lá no meio do Rio Grande do Sul. Todo mundo parecia compartilhar uma dor que a imensa maioria das pessoas sequer vai passar perto durante toda a sua vida. De uma hora para outra todo mundo entendia até de espumas isolantes e saídas de incêndio.

Isso me lembrou um pouco aquela piada futebolística sobre os milhões de técnicos que a seleção brasileira tem. Não sou nenhuma entendida em futebol, mas um dia tive que perguntar o que isso queria dizer e me parece ter uma relação próxima. Mas o torcedor, pelo menos, conhece, acompanha, entende daquilo que fala.

E é aí que mora o segundo problema. Opinião é uma coisa, proferir a sua ignorância aos quatro ventos é outra.

Opinião não é, ao contrário do que eu tenho visto, uma coisa vazia, sem fundamento, incoerente. Eu formulo minha opinião através de informações, conhecimento, que eu possuo de algo ou alguém. Fora isso, é pura ignorância – e você resvala em expor seus preconceitos, problemas pessoais e coisas piores. Se você é ignorante acerca de algo, você não é a melhor pessoa para falar sobre. Eis que as redes sociais e a internet foram contaminadas por esse excesso de ignorância. Não é nem eu ser obrigada a dar minha opinião sobre tudo (às vezes eu também caio nessa burrice), mas eu falar ou escrever idiotices sem fim. Já diziam minha avó e minha mãe que religião, gosto e futebol não se discutem. Discordo, acho que tudo é passível de discussão. Levando-se em conta que discussão não é briga e que se deve usar de argumentos. Discussões são sempre bem vindas. Ignorância não.

Então eu, alheia a futebol, vejo ali a notícia sobre o time tal que perdeu porque fulano fez uma falta clara e já saio escrevendo sobre isso em todos os lugares. É tipo aquela pessoa que quando vai conversar só sabe falar sobre as últimas notícias, sabe? (acho mortificante) Não tem assunto, não tem interesses, não tem hobbies, não tem nem as (famigeradas) especializações: gira em torno do corriqueiro.

Não defendo aqui censura às publicações até porque isso seria impossível. Cada um pode fazer suas censuras (sem seus “amigos” nem ficarem sabendo) nas redes sociais como bem entendem. Me preocupa e incomoda o excesso de ignorância presente nas tais opiniões. Eu gosto de ler as opiniões alheias. Mas opiniões, no sentido literal, que tenham conhecimento e fundamentos. Por que diacho eu escreveria sobre o que está acontecendo com os índios de não-sei-aonde sem ter conhecimento nenhum ou baseada em um vídeo que todos estão publicando? Por que diacho eu escreveria sobre a novela das oito, a qual eu nem assisto, nem que seja para dizer que acho chata e por isso não assisto? Não pareceria excessivo? Por que diacho você escreve sobre o Papa se você não é católico e existir um nem faz diferença na tua vida? Não sou obrigada a viver dando uma pseudo-opinião sobre tudo. Nem nunca fui das mais ligadas em notícias. Também não sou daquelas alienadas (nem pretendo ser) que só vivem para o seu umbigo – aquelas que é tão fácil perceber que também não têm opinião nenhuma porque não têm conhecimento sobre nada.

Sei, e já disse isso aqui, que fiz o juramento de “libertar as pessoas da ignorância” lá na Filosofia. Ainda hoje não entendo porque nosso juramento diz isso. Nós nos libertamos da ignorância por vontade própria, o que não impede que sejamos auxiliados quando temos esta iniciativa.

Já diria meu pai (que sempre deve ter achado que eu tenho muitas opiniões…) que em boca fechada não entra mosca. As redes sociais às vezes parecem tão cheias de moscas que mal consigo vislumbrar qual é o prato do dia.

Porque aquele que nunca ouviu uma música do Charlie Brown Jr ou nunca tinha assistido um programa da Hebe, ao ver a notícia das suas mortes aciona sua metralhadora giratória de idiotices e dispara ignorâncias sem fim.

Eu só diria: não se obrigue a isso. Não desfile a sua ignorância pelas TLs da vida. É chato, fica feio, a gente até desiste de ser amigo no sentido real – porque no virtual, em dois cliques, você já estará oculto. Eu respeito, porém, quem fala com propriedade de algo, concordando ou não com o que é dito. Agora, respeitar a ignorância foge às minhas forças.

Eu não preciso ter opinião sobre tudo pelo simples fato de que eu não tenho conhecimento o suficiente para isso. Nem eu nem ninguém.

Perguntas e respostas

 

Pés molhados, gelados, maxilar dolorido, tudo fora do lugar e isso aqui era para ser sobre perguntas e respostas.

 

Perguntas que deixei de fazer quando deveria e respostas que não dei quando pude. Relutância? Talvez. Alguma atração irresistível pelo mistério? Duvido.

 

Desculpem o piscianismo de hoje, mas o assunto é sério. Piscianas não gostam de “não saber”. Isso que elas são as adoradoras dos mistérios da vida.

 

Mas ficamos naquele meio de campo entre a dúvida e a fantasia. Ou corremos para a fantasia e lá nos alojamos sem previsão de saída, ou instauramos a dúvida e nos agarramos tanto a ela que certeza nenhuma (nem o seu grito mais verdadeiro) nos fará largá-la.

 

Perguntas que ficam sem respostas pelo simples motivo de que não foram pronunciadas. E nem todos conseguem ler nossos pensamentos. Ah, alguns conseguem… e esses são os que me tiram o sono. Diz lá a canção “eu não sou difícil de ler”, que interesse dá pra ter por alguém assim?

 

Respostas que não foram dadas porque ficaram engatinhando na garganta, na dúvida de se entregar assim tão rápido e direto para alguém que não sei se merece ter algo de mim, nem uma mísera resposta. Mas respostas que eu queria ter dado, estendido uma trégua, uma palavra de abertura. Porque pisciana é assim, fechada atrás do seu muro de pedra. Não são só coisas boas que existem lá dentro. E isso é sempre bom deixar avisado.

 

Esse exercício que a gente fez quase um pacto: tentaremos ser mais carinhosas, mais “abertas”. Ou algo assim. Lutaremos com essa natureza ríspida, direta, verdadeira, sincera. Não lutaremos contra isso, mas tentaremos uma abertura mais táctil (para quem merecer, é claro). Não gostamos de qualquer um. Não gostamos dos que gostam de qualquer uma.

 

Saturei minhas semanas de perguntas que giram na minha cabeça porque não foram feitas. De respostas que não dei, ou não dei como poderia. Preciso, em palavras ou, de preferência, em gestos ter algumas respostas. Na verdade, só uma. Quis o Destino que não fosse hoje. Nem será nessa semana. Uma resposta que não me deixa dormir há meses, não gostamos de não saber. Eu mesma detesto casos mal resolvidos.

 

A relutância em tomar as rédeas das perguntas e respostas se deve, no meu caso do momento, à fantasia. Encontrei um lugar confortável ali e não quis sair. Mas, idas e vindas, aquele trajeto de táxi, conversas, pactos, análises sem fim e eu quero me obrigar a sair.

 

Se as pessoas não lêem nem livros, poucos são os que perdem tempo lendo pessoas. Lendo gestos, pensamentos. Lendo as perguntas que não fiz.

 

Fiz promessas de colocar as perguntas em dia. As respostas já são mais difíceis, afinal, as perguntas passaram. Mas eu acho que dá tempo de consertar, de disfarçar o receio.

 

Perguntas e respostas devidamente feitas são tão necessárias, mesmo que evitemos tanto. Porque no nosso mundo a fantasia machuca mas é sempre mais linda que a realidade. No nosso mundo não damos explicações e achamos que as pessoas lêem pensamentos.

 

Piscianas amam a liberdade. Nunca confunda isso com qualquer outra coisa. Não me deixe livre porque eu não vou saber o caminho de volta. Piscianas dificilmente voltam pelo mesmo caminho. Piscianas querem respostas sem fazerem perguntas. E querem que você já saiba as respostas.

 

Apaixone-se

Sopra o Outono:

apaixone-se.

Reverberam as ondas do mar:

apaixone-se.

Grita o pôr-do-sol:

apaixone-se!

 

Apaixone-se.

É Outono

Quando você sempre se apaixona.

Nunca foi no Verão

Nem no inverno

Nem na tua tão amada Primavera

Apaixone-se.

Já era hora.

A cigana lhe avisou

Os astros previram

As cartas anunciaram

Apaixone-se!

 

O Destino se impôs

Você aceitou-o.

Agora, apaixone-se.

 

E se for o certo?

Jamais esses bons tempos?

De solidão, diversão, confusão?

E se for o errado?

Voltarão as ilusões a caírem por terra?

De novo a dor, o cansaço?

 

Eis que nunca saberemos.

Quantas vezes você ainda vai pensar?

Vai analisar? Ler e reler?

Procurar em vão explicações?

 

Você não pensa. Você sente.

Apaixone-se.

 

Os dias, as noites, as canções

Todos lhe dizem a mesma coisa:

apaixone-se!

 

É Outono. Apaixone-se.

Decidi

Quis ser romântica

ser mãe

ser amante

 

O coração esqueceu

Entrei pra luta

Agarrei com as unhas

Desci do salto

Não pintei o cabelo de loiro

 

Decidi desejar

E não mais ser só desejada

Pagar a conta

E ser servida

 

Me pagaram menos

Passaram a mão na bunda

Me espancaram

Quando eu disse “não”

Me violentaram

Na alma, no corpo

 

Só me chamam

Pra bancada do jornal

Pra comercial de produto de limpeza

Pra cantar rebolando

No trio elétrico

Ou ser a protagonista

Sofredora das oito

E a heroína submissa

Do best seller

Apresentar um programa culinário

Ou desfilar na semana de moda

 

E pensam que somo iguais

Nos admiram

E não valorizam

Não respeitam

Ainda dominam

O discurso, a imagem

 

Quis ser romântica

ser mãe

ser amante

 

Decidi ser romântica

Ser mãe

Ser amante

Lutar

Não usar salto

Pintar as unhas

Jamais ser loira

Desejar

Assumir as contas

Ser servida

Não ser só uma imagem

Ganhar mais

Pensar.

Todos os motivos do mundo

 

Devo pedir desde já desculpa pelos longos períodos de ausêcia e pelo silêncio repentino que se farão por aqui (e em outros lugares e meios) este ano. Eis que é uma dissertação, é a volta ao estudo, o trabalho, as viagens, mas, acima de tudo porque devo acrescentar um in/m ao que 2013 me reserva: indescritível. E é por isso que não consigo vir aqui dizer quais foram as coisas das últimas semanas que mudaram minha vida. É por isso que não consigo vir aqui dizer o que foi a sensação de trancar a garganta e não chorar até o dia seguinte, a sensação de “não quero que acabe” que tomou conta de mim uma noite dessas. Não consigo hoje, ainda, escrever ou descrever ou sequer contar certas coisas como porque fiquei sem voz e sem ouvir direito dia desses.

 

Entreguei de vez minha vida nas mãos do Destino. Sim, já fiz isso algumas vezes antes. Dá medo. Dá uma puta ansiedade. Dá uma certeza absurda. Aliás, sempre fui muito nervosa e ansiosa, aí criei mecanismos para controlar isso e há anos tem dado certo. Explodi o mecanismo e voltei a sentir ansiedade. Que saudade que eu estava disso! Todos os sintomas de ansiedade me assaltaram e fiquei feliz pra caramba! Ansiedade me faz um bem danado! O medo? Necessário, mas eu nunca fui medrosa, então passo por ele com facilidade. O segredo é não deixá-lo me congelar. E a certeza… ah! a certeza! Eu acredito. Tenho esse dom da fé e isso me basta. Quem manda aqui, agora, é o Destino. E nada mais me importa.

 

Se 2012 foi tão definitivo e profundo, mas eu ainda com as rédeas às cegas, agora as rédeas não estão mais comigo.

 

E foi assim que saí hoje para caminhar, pensando na vida. Obviamente com o fone de ouvido, viro a primeira esquina e toca uma música muito (muito!) emblemática na minha vida e eu lembro de alguns episódios ligados a ela: um sorriso fica ali dançando no meu rosto. Fui caminhando assim sorrindo… distraída, como sou e como a marca do Destino no meu nome já previa. Meio sem entender reparo que um senhor, um velhinho alto e magro, vem caminhando no sentido contrário retribuindo o meu sorriso e faz um meneio de cabeça. Distraída estava a ponto de não ter me dado conta que eu andava sorrindo pela rua… sorrio de volta, engasgo um meneio em resposta e ele passa adiante. Seria um conhecido? Não. Algum amigo do vô ou da mãe? Talvez. Mas aquele sorriso era uma resposta ao meu sorriso. Comecei, então, não mais a sorrir, mas quase rir da situação. Voltei a sorrir mais algumas vezes, conforme o random do mp3 mandava.

 

Enquanto caminhava lembrei de uma frase dos muros do Canto da Lagoa que dizia algo que expressava a situação com o velhinho. Não lembro exatamente a frase, mas lembro onde ela se encontra. Era isso de dar ao mundo o que você quer de volta. Ou como diz lá a canção do mundo que lhe sorri e você não sorri de volta. Ficarei devendo a frase (quando passar por lá vou lembrar).

 

E é assim que o Destino faz viver… na certeza mais inescrutável, com sorrisos que lhe brotam dos lábios e que geram sorrisos de volta. Talvez eu nunca mais veja aquele velhinho, talvez ele nem pense no que aconteceu hoje. Mas eu recebi um sorriso de volta sem explicação, sem motivo, pelo simples fato de ser uma resposta ao que eu dou ao mundo.

 

Por um mundo com mais sorrisos contra sorrisos pelas ruas. Ou só eu ando sorrindo por aí? Cheguei a pensar que o velhinho talvez estivesse tão acostumado com pessoas carrancudas pelas ruas e só por isso retribuiu um sorriso que nem era diretamente para ele. Talvez.

 

Eu poderia começar um papo muito zen aqui sobre coisas boas que só vêm para quem está de bem ou coisa que o valha. Mas, não.

 

Se você me encontrar sorrindo por aí, saiba que tenho todos os motivos do mundo… e, se quiser, retribua. É sempre bom.

 

 

Change mine

 

I was watching a movie and Redford said to his girl: You want to change the world. Change mine.

Just like that: change mine.

I´m always thinking about movie´s dialogues. I don´t know if it´s because my work or just because I love the words too. I only know that I always do it.

And then I was thinking about how many worlds I have changed. Because I´m one of those who wants to change the world. And I know for sure I´ve had changed others worlds. I´m talking about guys, schoolchildren, friends and anyone else.

So I asked myself: does anyone changed mine?

I don´t think so.

Oh, yes, some people did the difference in my life, of course. But no one changed my world.

Have I met someone who wants to change the world?

This is the right question. I´m quite sure that the answer is negative.

I need someone who wants to change the world. So this one should change mine.

I´m a little bit tired of changing others worlds. But I´ll never be tired of wanting to change the world.

I realized that I want to look into his eyes and say almost the same words of Redford: You want to change the world. Me too. But change mine first.

A velhice, o aniversário do Garcia Márquez e os exercícios do tempo

 

 

Justifico minha ausência devido a compromissos acadêmicos… ou “prazos” acadêmicos seria mais adequado. Na verdade escrevi muito nas últimas semanas, enquanto matutava sobre tantas coisas e criava aquelas pautas imaginárias para o blog. Estava com saudade disso aqui. Não daquela escrita injuriante de quem falou o que e o que eu posso dizer disso. Cansa. Cansa uma pessoa como eu tão afoita por matutar…

 

Foram algumas pautas imaginárias, textos mentalmente escritos durante os banhos… a maioria disso tudo nunca passará por aqui. Tenho um imediatismo e uma inconstância que determinam isso.

 

Mas hoje em especial algumas coisas me fizeram lembrar de uma matutação que fatalmente viria parar aqui.

 

A morte. Eu tenho essa espécie de fascinação pela morte. Eu sei os motivos. Mas não é ela que me motiva escrever aqui.

 

Lembro de já ter contado que eu e meu irmão quando bem novos tivemos a mesma idéia, de que seria melhor morrer ou matar-se antes dos quarenta anos porque envelhecer é um espetáculo para quem tem estômago. E lá na tenra idade não queríamos nos ver em decadência física e mental. Bem, ele teve o privilégio de não se ver diante do peso do tempo. Eu? Eu não escapei e tenho a nítida sensação, hoje, de que durarei muito tempo por aqui ainda e verei muitos irem antes de mim.

 

Aquela história de que somos uma máquina e que uma hora a coisa começa a pifar aqui e ali é uma baita verdade. Por isso que digo que para assistir à decadência e à velhice é preciso estômago.

 

Para quem não é próximo dos pais e avós ou é do tipo ingrato e desnaturado (não é o meu caso) o texto não fará sentido.

 

Chega aquele momento que você se dá conta que o quem cuida de quem se inverteu. Você percebe que não importa se você tem paciência ou não, você terá que fazer exercícios diários e constantes dela. Aquelas coisas que você tanto admirava neles e que te inspiraram já não são mais como antes. Os dons que eles tinham foram desmoronando e você precisa estar ali para dar conta do que eles nem lembram mais como se faz. Aliás, a memória será um espinho a te cutucar a todo momento. Eles terão certeza de coisas que nunca aconteceram, discutirão incansavelmente sobre coisas que nunca disseram. Te perguntarão dezenas de vezes a mesma coisa. O óculos? Esquecerão em todos os lugares e você vai precisar dirigir quando eles não forem encontrados, ou ainda ler as placas e preços no supermercado. Você se tornará algo assim como os olhos e ouvidos deles. E em alguns casos as pernas e braços. Aquela manha de gritar do quarto “mãe, traz sorvete?!” não será mais ouvida – e não, eles não estão te ignorando só porque querem te fazer perder a manha, eles já não ouvem mais como antes.

Você vai se irritar. Vai perder a cabeça. Vai achar que eles estão beirando a loucura e que você já deve ter se contagiado. Você vai explodir em algum momento – principalmente quando os teus problemas estão tão grandes e não há ninguém com quem contar, agora você não pode contar nem mesmo com eles – dirá coisas que não deveria, rolarão as lágrimas e um estremecimento fará com que eles se sintam culpados. Você terá a profissão de fé diária de mostrar para eles da forma mais leve possível que eles não são um fardo. E se arrependerá muito por ter deixado escapar uma frase qualquer que deu isso a entender.

Você vai mudar muita coisa na tua vida, na casa, na tua rotina por causa deles. Eles talvez nem percebam… mas você não vai jamais comentar isso. Eles vão precisar de você quando você estiver precisando de você mesmo, mais do que nunca. E você vai se colocar em segundo plano. Porque você os ama e já brigou muito com eles, já bateu de frente nos arroubos da juventude, já foi a filha rebelde e desobediente, já fugiu de casa, já deixou de telefonar – e agora nada disso mais importa: eles são tudo o que você tem. Vai ser aquele papel que ela derrubou e não conseguiu ajuntar, aquele peso que ele foi carregar e não conseguiu. Você vai se ver fazendo tanta coisa já no automático, sem nem perceber que virou parte da tua vida. Desde as menores coisas até as grandes decisões.

 

Quando eu via meus pais, achava que eles seriam daquele jeito pra sempre. O tempo, porém, foi chegando… se encostando ali, se ajeitando aqui… e chegou o dia de hoje quando percebi que eu já estou mais para o lado de lá do que para o lado de cá das manhas e rebeldias. Sabe, eu encontro um olhar que me chama para aquela fuga e na hora lembro da data da próxima cirurgia. Me peguei pensando se eu não estava usando-os como muleta para fugir de alguns chamados do Destino. Já não sei ao certo. Eu posso romper e deixá-los à própria sorte por alguns dias… e que eu aguente o estrago depois.

 

Ao mesmo tempo, eu ganhei a liberdade de ditar algumas regras. Numerar prioridades e imposições. Aí fica engraçado ver os momentos de teimosia deles e os silêncios diante da proibição de dizerem qualquer coisa sobre o que eu faço. Aliás, teimosia… e que teimosia! Só piora, definitivamente. Sim, eles vão insistir com você no A quando você cansar de dizer que é Z e aí chutar o balde e decidir pelo D. E você vai se pegar pensando: será que eu era assim teimoso quando criança? (porque aí talvez a vida tenha sentido e tudo se justifique: estou pagando meus pecados)

 

O mês de janeiro foi lindo e numa bela madrugada eu peguei um daqueles romances de banca de revista para me fazer companhia. Nunca pensei nisso de me identificar com nenhuma personagem literária, afinal não sou magra, alta e loira ou ruiva sardenta. Sempre foi mais fácil cobiçar os mocinhos e vilões. Quem acompanha o blog sabe que eu falava por aqui em fazer uma lista comentada sobre os personagens da ficção pelos quais sou apaixonada. Comentava isso com umas amigas quando uma delas disse que faria uma lista das personagens com as quais ela se identificava. Eu fiquei sem conseguir citar uma. Eis que me lembrei da protagonista desse romance que eu havia lido fazia poucos dias. Sim, eu me via nela – e não era só porque ela tinha sonhos eróticos com o Marco Antônio (e o Marco Antônio dela nem era o Purefoy). Era porque ela tinha cansado de relacionamentos que não entendiam que ela se doava para todos que ela amava e isso incluía a família, ela não podia fazer uma escolha entre ele ou a família. Aí ela só buscava sexo. Vivia com a mãe mas escondia isso e escondia a real situação de saúde da mãe. Por quê? Porque ninguém entenderia. Quando surgia um convite para um jantar ela declinava com uma desculpa qualquer porque tinha que ir correndo pra casa dar a janta pra mãe. Ela já havia desistido de acreditar que quem entrasse na vida dela teria que entrar de vez e corria o risco de não ser prioridade em alguns momentos.

 

Quando eles precisam de você mais do que quando você precisava que trocassem as tuas fraldas é que você entende a complexidade do envelhecer. Não é um envelhecer no sentido mental: eu sou velha no “modo de ser e de pensar”, várias pessoas dizem isso de mim, eu mesma digo já faz bastante tempo. É o envelhecer mecânico mesmo. E eu fatalmente lembrei do que eu e meu irmão pensávamos. Eu tenho alma de velha, mas só por agora é que a idade começou a mostrar as suas malditas limitações depois de uma sucessão de doenças. Elas felizmente passaram, mas os seus danos não. E eu não tenho mais quinze anos para ficar “nova de novo”. O pior do declínio é não conseguir aceitá-lo. É teimar em não acreditar no quadro que vê a sua frente. Para quem está ao lado neste momento é um exercício de choque e paciência sem fim. Com todas as letras e sem poesia: envelhecer é uma merda.

 

Quando eu soube que o Chorão morreu fiquei pensando que era um bom momento para falar disso, porque ele me fez lembrar, por vários motivos, meu irmão. Mas aí lembrei que hoje era aniversário do Gabriel Garcia Márquez, dia seis de março, mais um ilustre pisciano. Gabriel que me levou pela mão numa literatura difícil, desconhecida, apaixonante e que, posso dizer, mudou um tantinho a minha vida para sempre. Pouco conheço da vida dele, pouco li a seu respeito ou vi entrevistas. Amei as suas histórias com devoção de amante casta. Me entreguei a elas. Hoje, quando faz oitenta e tantos anos, Gabriel está senil, com algum tipo de doença degenerativa. A vida é uma merda. O homem que escreveu aquelas doçuras, que fez e faz parte da vida de tanta gente, que abriu horizontes de quem ele nem faz idéia, está vivo mas não pode mais, mesmo que a cabeça quisesse, escrever suas histórias. A idade, a velhice, a decadência chegam para ficar. Lembrei também do belíssimo filme E se vivêssemos todos juntos, francês. Delicioso, agridoce, pueril, doloroso. Nunca antes eu havia me visto rindo e chorando ao mesmo tempo durante um filme. Eu ria, eu chorava, eu me angustiava… não se escapa da morte, mas podemos escapar do fim despedaçante com a morte.

 

A morte nos poupa de ver tudo se esvaindo… de ver quem fomos ruindo aos poucos diante de um eletrocardiograma ou de um aparelho para surdez. A morte é aquele ponto final digno para a indignidade que nem dá mais para chamar de vida, em alguns casos. Por essas e outras que acho digno o suicídio. E quando alguém vem com aquela “tanta gente lutando pela vida e tem quem se mata” eu nem respondo, só penso cá com meus botões: lutando por qual tipo de vida? Lutando por quê? Se não morrer hoje, morre amanhã. O suicida toma as rédeas desse caminho sem volta. Não tem volta, mas tem fim. E o fim é nobre. Muito mais nobre do que chutá-lo raivosamente ou espernear diante dele.

 

É pensar no fim que torna tudo tão mais difícil e complicado. Você tira paciência e tempo sabe-se lá de onde, você esquece as horas de sono, você troca teus programas… porque o que te move é mais forte… e é isso que te impede de pensar no fim. Porque você sabe que tem a recompensa daquele sorriso quando você lembra de um detalhe que eles sentem falta, porque você já os conhece tão bem que nunca erra nos mimos, porque dar presente não precisa de data e parece tão natural pensar neles antes de pensar em você. Será que ser mãe é assim também, mas com muito mais angústia? Tudo me apavora. Mas eu sempre vou lembrar de trazer uma bomba de chocolate, umas sfihas, uns doces de damasco, dar um tênis de dia dos pais, comprar todas as corujas que aparecerem pela frente e lembrar das xícaras e chaveiros para a coleção. Só porque descobri que ser filha é muito mais do que eu imaginava.

 

 

O que eu aprendi com o nissin

 

Tentarei ser breve porque as coisas por aqui me cutucaram e senti como se fosse um soco no estômago. Não é simples quando a gente descobre que quer ser feliz. Descobri isso faz tempo, mas as últimas horas e os últimos pensamentos… bem, deixa pra lá.

 

Não sei porque eu e meu irmão começamos a gostar e comer nissin. Já faz um bom tempo, é claro. Mas minha mãe sempre foi excelente cozinheira e nem víamos comida pronta em casa. Sei que quando ainda morávamos com ela descobrimos o nissin (provavelmente pelas propagandas), depois ele foi um bom companheiro quando fomos morar longe de casa. Fato é que de vez em quando fazíamos nissin.

 

Minha mãe sempre serviu o almoço e sentávamos todos juntos para almoçar na cozinha. Era sagrado. Mas janta era cada um por si, um tempo depois até comíamos em frente à TV. Faz um tempo minha mãe pegou o costume do café-da-tarde (por influência da vó). Eu, como sou boa de garfo, almoçava em casa, tomava café na vó e jantava em casa depois. Pior, fiquei com todos os costumes… eu sou uma embolada de costumes.

 

E eis que toda vez que eu abria o pacote do nissin fissurava no medo de derrubar o sachê do tempero na panela com água fervente. Toda vez. Tipo doentio mesmo. Devo comer nissin há um tanto mais que dez anos (com uns intervalos quando não podia nem ver um na minha frente – tenho disso – qualquer dia falarei mais sobre meus interessantíssimos hábitos alimentares) e sempre e sempre fissurava no medo.

 

Semana passada me deu desejo de comer nissin, eu estava na praia e não tinha nenhum. Nenhum. Assim só para aplacar o lanche começo de madrugada de uma solitária imersa em pensamentos, trabalho e ficção.

 

Hoje fui ao supermercado e comprei nissin e espigas de milho. Só. Aliás, eu tenho essa mania de observar o que eu e as pessoas compram. Acho algumas compras muito interessantes. Fico observando os carrinhos alheios, confesso. Traço um perfil da pessoa só pelo que ela coloca no carrinho. Faço o mesmo com o lixo alheio. Bem, são outras histórias.

 

Aí fui fazer um nissin para comer enquanto assistia alguma coisa ou pensava na vida. Água fervendo, abro a embalagem em cima da panela, coração travado na fissuração e… cai o sachê na panela. Reflexo rápido (sim, eu tenho e ele é muito bom), puxo o garfo e saco o sachê do afogamento. Nem me queimei. Não é época de queimaduras, é época de caneladas. Sim, tenho épocas para desastres físicos. E é inferno astral, então…

 

Primeira conclusão rápida: o sachê é feito de algum material que é bem resistente à água fervente. Eles devem prever que isso pode acontecer.

 

E eis que me peguei pensando em quantas coisas eu fiz com o coração angustiado, medo?, para evitar alguma outra consequência não desejada e… não tive o gosto de descobrir que o medo era infundado? Quantas? Quantas?

 

Quantas coisas eu deixei de fazer porque rondava aquela tensão do que poderia “dar errado” e… o errado poderia ser tranquilamente nada desastroso? Quantas?

 

Tem sempre alguém pensando e prevendo que eu posso errar, fazer alguma bobagem ou ter um lapso qualquer e, por isso, fazendo embalagens resistentes à água fervente? Terá sempre esse alguém olhando para os meus temores?

 

Foi assim que o nissin e, depois, tantas coisas deram voltas na minha cabeça e nos pensamentos sobre se eu quero mesmo ser feliz. E por que diacho eu tenho tanto – mas tanto – isso de pensar demais nas coisas e nos atos e calcular cada gesto, cada palavra, para não expor os meus temores como fraturas expostas que realmente são? Se mesmo assim me machuco tanto, que diferença faz assumi-los e que caia o sachê, que derreta, que eu coloque fogo na cozinha. Às vezes não me reconheço. Porque eu já coloquei fogo na cozinha quando menos esperava.

 

 

Blog no WordPress.com.

Acima ↑