Quero te desejar uma boa Primavera. Sei que me desejarias o mesmo. Sei, também, que isso não diz nada. Eu estava diante do mar de ressaca às 11h21 e garanto que nada mudou – nem o sol ficou mais quente, nem mais brilhante, nem surgiram flores pelos morros, nem o vento soprou mais sedutor. Nem eu, naquele instante, mudei. Sei, porém, que toda Primavera transforma a vida da gente. Repara. Não tenho estatísticas, não tenho provas. Mas, repara. Temos até a beirada do Verão para olhar bem. É preciso, porém, olhar de perto e com coragem. Coisa que não fiz com essas ondas enormes que hoje tomaram meus olhos a manhã toda. Às vezes, preferimos olhar de longe e com pontadas de covardia – ou seria medo?
O Inverno despediu-se com enterros. Levou-me um recente sossego. Levou-me a apatia de ser quem eu era há tanto tempo. Disse-me ele, com todas as letras: as coisas não se repetem, Fahya. Disse-me, também, enfurecido: de onde queres enganar-te a deixar o passado sobrevoar sobre o presente? Ele foi cruel comigo nas últimas semanas, arrasou-me, puxou-me as orelhas, disse-me cínico: não tens como continuar sendo a mesma, renova-te. Receio encontrá-lo daqui três Estações e ele me cobrar o que não tive forças para fazer. Ficaremos de mal, abraçados debaixo de casacos pesados.
Desejo-te uma bela Primavera. Que possamos esquecer – que mudar dá trabalho pra mais de uma Estação – um pouco quem somos. Desejo que ela nos prepare com calma para o turbilhão da próxima, quando é ainda mais difícil viver despidos das nossas fantasias. Quem dera a Primavera não tivesse sempre deixado suas cicatrizes e tatuagens na minha vida, obedeceria ao Inverno e jogaria o passado entre as rochas agora fustigadas injustamente pelo mar que vinga-se da sua saudade. Não foi de ontem para hoje que deixei de ter um passado, mas o Inverno sorrateiro tem toda razão. Como, então, despedi-lo, mandá-lo embora para a tumba fria da memória? Sei lá, será que já podemos almoçar e voltar a ver o mar?
Me ensinaram que só vivemos a repetição – das horas, dos dias, das Estações, dos mitos, dos fatos, das explicações, das datas tristes e festivas, dos arrepios e dos vícios. E o Inverno, sacana, me manda não pensar mais assim. Assim, de antes de ontem pra hoje. Levou-me pela mão até o costão e me explicou, deu exemplos, discutimos. Quase me convenceu. Lembrei que ele em breve partiria e resolvi não brigar mais. Prefiro despedidas com apertos de mão e sorrisos abertos. E hoje me sinto a aluna de férias com uma pilha homérica de tarefas a cumprir. Boa aluna que nunca fui, será que já podemos fingir que nada disso aconteceu e voltar para o sol com a missão do bronzeado primaveril?
Me conforta te dizer que, ao contrário do exigente e mandão Inverno, a Primavera é aquela amiga meio louca que nos empurra e apoia sem muita distinção. Ela deixa tomar banho de mar com a água fria debaixo do sol quente, sem se preocupar com a febre que virá de madrugada. Ela nos abraça e dança junto sob a chuva refrescante ao final do primeiro dia mais quente desde abril e está nem aí para os papéis importantes encharcados dentro da bolsa. Ela chega de mansinho, pedindo rouca que sintamos o prazer de andar descalço. Passa feito furacão guardando as blusas de lã, abrindo a garrafa de rum da geladeira. Ela não quer mais janelas fechadas, empurra tua mão para abri-las, sentir o vento na cara e nem ouses ligar ar-condicionado! Porque é só isso que ela quer: que tu sintas. E é assim que desejo sempre a Primavera: a sentir mais. Depois passaremos o sufoco das consequências de tanta ousadia – mas só no Verão.
Te desejo uma boa Primavera. Porque ninguém toma decisões nas Primaveras. Ela não nos julga – culpados ou penitentes. Ela busca encobrir nossos rastros de erros do passado. Vai, aos poucos, pedindo com jeitinho que a gente mostre o que existia adormecido no Inverno. Ela nos convida a vê-la, ao show que ela não deu às 11h21, mas que terá atrações todos os dias e madrugadas. Ela quer que a gente mude, pra melhor (talvez ela tenha ouvido minhas discussões acaloradas com o Inverno, não sei). Ela ri de mim, dessa ânsia aloprada em pegar tanto sol e estar com a pele em brasas antes da nossa hora marcada – talvez só o Verão saiba como gosto do cheiro do sol sobre a pele.
Desejo, a nós, uma inesquecível Primavera. Não esqueça, não se distraia: repara. O Inverno é pai das certezas; nem só de repetição é feita a vida, e o presente de passado se sufoca.
22 de setembro, 12h. Hora de almoçar e voltar para a praia.
Eu não sei bem as razões que nos levam a querer tantas explicações. Natural do ser humano, diriam. De uns tempos pra cá talvez eu tenha deixado de ser tão humana, então. Saber é um vício, ou um simples exercício, ou, ainda, problema de ególatras. Fui deixando de querer saber… Nem sei quando isso começou. Nem o “curiosidade mata” me impediu de ser uma criança que perguntava tudo, que queria saber de tudo, e que incomodava muito. Eu lia a Barsa da casa dos meus avós e a dos meus pais, por exemplo. Não tinha Google e era divertido. Lembro de me admirar “nossa, a Barsa tem tudo!”. E quem é que dá bola pra Barsa, Fahya?
Não sei porque sempre queremos saber – estaria eu, agora, querendo saber? Tivemos um colega na graduação de Filosofia, aluno mediano, envolveu-se com o mais morto que vivo centro acadêmico do curso (que, aliás, sempre me lembra de outra história – quem dera eu nem lembrasse mais), frequentava as festinhas do CFH. Não era amigo próximo, mas vez ou outra conversávamos entre a roda de amigos. Eis que um dia uma moça (não lembro se era caloura da Filosofia ou de outro curso) morreu no Campus no meio da madrugada. Digamos que foi uma história chocante na época. Nós sabíamos que os dois estavam juntos de vê-los pelos corredores (ah, se aqueles corredores falassem! – Deus queira que eu nunca os ouça) e o burburinho correu solto. Uma moça foi encontrada morta e os fatos eram nebulosos.
Lembro de ter visto na TV as imagens das câmeras. Foi depois de uma festinha no campus, um prédio novo em construção (da Química, se não me engano, atrás do estacionamento do centro de Direito e Sociais), os dois subiram as escadas – as câmeras mostraram tudo – e no alto, meio que num impulso, ela sobe o parapeito e cai – ou se joga. Além da comoção, lembro de ter ficado bem próxima da convicção de que ela havia se jogado, talvez um pouco inconsciente (sob efeito, talvez, sei lá do quê) das suas ações. Ele sumiu por algum tempo, nem sei se terminou o curso. Acho que fiquei, à época, um pouco obcecada pela história. Surgiram boatos de que eles haviam brigado e como os jornais gostam, deram o prato cheio da tragédia, não deram muita bola para as consequências e exposição dos envolvidos.
Até hoje eu não sei como terminou a história. Os amigos mais próximos dele também não tiveram muito contato, muitos de nós não queríamos julgá-lo. Ou seja, é uma história incompleta. E eu me descobri obcecada por histórias incompletas. Por isso mesmo que, esses dias, lembrei desta história e fiquei me perguntando o que teriam pensado ou sentido os pais da moça (não lembro o nome dela por nada deste mundo). Se o nosso colega, afinal, era culpado ou não. Ou, ainda, se existem culpados numa situação dessas.
Minha obsessão por histórias incompletas se vê até nos filmes e livros que abandono. Só semana passada foram uns quatro. Fiquei uns minutos imaginando como seriam os finais daquelas histórias – umas, aliás, de tão óbvias e quadradinhas, estou certa que não errei (redundante isso, não?). Quando alguém conta uma história, nós queremos ouvi-la toda. Se a pessoa interrompe a narrativa, ou se termina de contar sem ter um final, nos frustramos (ou ficamos revoltados). É essa sensação de completude sobre os fatos, os eventos e as narrativas que sacia as pessoas. E eu não sei bem quando foi que perdi isso…
O caso desta moça foi pouquíssimo tempo depois do meu irmão ter se suicidado. E foi bem naqueles dias que todo filme que eu ia assistir tinha, obviamente, um suicida. E foi quando eu não sabia mais se saber de tudo é tanto assim da natureza humana. E foram essas experiências que me fizeram mudar – apesar de ter, por algum tempo, me incomodado com histórias incompletas, se não por mim, pelos outros. Talvez as pessoas realmente precisem de explicações. Talvez elas precisem saber porquês, comos, quandos e ondes. Eu já sei que a vida é muito curta para perder tempo com filmes ruins e livros chatos. Ou com pessoas que não trazem alegrias pra tua vida – ou que você não pode fazê-las felizes.
Eu não lembro mesmo o nome da moça. Não sei se o nosso colega falou com os pais dela, quais foram as últimas palavras dela – para os pais faz diferença. Eu nunca dei meu apoio explícito a ele (ainda tenho cá guardada a convicção de que não houve culpados), mas lembro que deixei claro que não fiz julgamentos – e, naqueles (como em tantos outros) corredores, isso é raro. A história, vocês me desculpem, fica assim incompleta. (talvez um google aí os ajude, as Barsas certeza que não se atêm a essas minúcias da vida mundana – não somos nenhum Napoleão)
A mãe traz na memória o retrato do sorriso do filho quando da primeira vez que o viu nos seus braços depois do parto. O fanático descreve cada passe daquele gol fantástico que definiu o campeonato para o seu time. O cirurgião, toda vez que entra na sala de cirurgia, lembra do leve tremor que sentiu na primeira vez que segurou o bisturi. São as lembranças, mais que lembranças, são aquelas fotografias, mais que fotografias, pois têm cheiros, sensações, sons, arrepios, que todos temos e que volta e meia rememoramos. A mãe que perder seu filho o terá sempre ali diante dos olhos, o primeiro sorriso, o som da voz, as marcas pesadas que a vida deixa na gente.
Elas podem ser boas ou ruins – mas hoje, nem esta semana, eu não quero falar de coisas ruins. Fiquemos com as boas. Eu guardo comigo uma risada, o som e a beleza de uma especial risada – da qual sinto muita falta. Eu reparo muito na risada e no sorriso das pessoas, considero os melhores cartões de visita. Ou é só porque eu gosto de rir e fazer rir. Fazemos essa coleção memorativa sem nem perceber, sem catalogar, sem hierarquizar – bem, alguns não. Quando a gente se dá conta, está aí com álbuns inteiros preenchidos. Dizem que as primeiras vezes a gente não esquece (e eu não concordo muito). O primeiro beijo de um grande amor, ou daquele namoradinho mesmo, que o amor acabou, o relacionamento acabou, mas aquele beijo… ah! Ele ficará.
Talvez por essas traquinagens (desculpem, eu preciso usar esta palavra hoje) da memória que existem as canções que embalam os nossos momentos. Foi quando nos encontramos naquela festa e o teu olhar cruzou o meu que tocava tal canção – nunca entendi muito isso, pois atenção dispersa por natureza, dificilmente eu saberia o que tocava no momento que me deparei contigo (pois antes do riso eu preferia o olhar…). Mas dizem que é assim. O sabor da polenta da vó, no aconchego do calor do fogão a lenha, que nunca ninguém fará igual – nem a tua esposa escolhida a dedo. O perfume das damas da noite nas longas caminhadas pelas madrugadas. Ou aquele abraço, de quem você menos esperava, no momento que você mais precisava.
Não sei se vocês param, às vezes, para repassar toda essa coleção. Sei lá, num domingo de manhã que é a hora que tanta coisa nos faz falta na vida. E só deliciar-se com reviver cada lembrança, sem motivo. Porque somos vítimas da memória a qualquer instante. Elas voltam quando você passa por alguém que usa o mesmo perfume do teu ex, quando você vê a cor favorita da tua amiga, quando qualquer bobagem do mundo real e frio é um túnel para a bagunça das lembranças.
E é esse calor incerto… esse sol sedutor, esse guardar pantufas e cobertas e aquecedores. Eu quis esquecer tudo de ruim das últimas semanas. Eu quis sobreviver a elas. Eu quis ter esperança. E me agarrei à inominável lembrança que tenho de colocar os pés na areia. Afundá-los, mexer os dedos até sentir o arranhar impiedoso e glorificante da areia sobre a pele macia. Sentir a água gelada do mar enterrar meus pés ainda mais na areia… me agarrei a esta sensação – jamais esquecida – para contar as horas e os dias. Nunca passei tanto tempo sem senti-la. Nunca. E, por isso, algo por aqui está triste, importa-se menos com tudo e com todos. Vejo-os e suas fotos de praia (feriados e finais de semana) e vejo-os de tênis e nas calçadas. Entro nas fotos sem pedir licença e no meio do caminho tiro o chinelo e enfio meus pés na areia. Mas, cá estou na poltrona e pés gelados.
Eu começaria dizendo que todos já sentiram a mão gelada, dura e fétida que nos agarra o tornozelo numa manhã qualquer e nos submete ao desejo de não sair do escuro do quarto e do peso das cobertas. Mas não há nada que valha para todos (além da morte?). Há pessoas que nunca sentiram nem sentirão esta mão que nos puxa sem força e com convicção. Felizes os que têm motivo para levantar-se todas as manhãs. Ou, ainda: felizes os que saem todas as manhãs da cama, sem o menor motivo para fazê-lo. Eu mesma já senti várias vezes esta mão. Acho até que tivemos uma amizade duradoura e simpática. O mundo, o real, o das idéias, o da ficção – danem-se todos – nenhum deles por vezes me interessa. Quem entenderia, não é mesmo?
E essa mão aparece quando quer – mas a gente sabe quando ela tem suas razões. Não nos ensinam a fracassar. Não nos ensinam a não ter a vida que almejamos. Fracassar é uma bala azeda presa na garganta. Só há uma saída: conviver com os nossos fracassos. Mas ninguém fala em fracassos. Preferem dizer que não era a hora, que os outros é que estão errados, que não souberam valorizar o nosso trabalho, se Deus fecha uma porta Ele abre uma janela, e tantas baboseiras afins. E, na verdade, a gente fracassa e pronto. Não somos tão bons assim e ponto. E de manhã a mãozinha subirá pelo canto do colchão, agarrará o teu tornozelo bem na hora que você costuma acordar e dela não há escapatória. Talvez você fique ali uns minutos rememorando porque ela apareceu – aquele instante que a fuga dos sonhos te impediu de remoer os últimos acontecimentos e, bem, abrir os olhos é sempre colocar a memória em dia.
Você pode ficar jogado na cama o dia inteiro – a despeito do lindo nascer do sol que você poderia testemunhar, a despeito do relógio das obrigações a tocar. Você pode pensar em se matar. Você pode ligar e inventar uma doença. Você pode o que você quiser. Desde que você queira algo que caiba na vida que construiu até aqui. Senão, deite mais fracassos e frustrações aí junto da coberta e tenha mais razões para ficar jogado na cama preso à mãozinha. Você pode, também, mandar tudo à merda – não adianta nada nem muda nada, mas dá um alívio passageiro. E alívio, provavelmente, é o que a gente mais precisa nessas horas. É lícito, meus amores, não querer sair da cama. Um dia ou outro, ou vários dias (seguidos, inclusive). Paremos de problematizar isso. Deixe a mãozinha amiga ficar ali. Ela te entende melhor do que muita gente por aí, eu garanto.
A mãozinha é tão compreensiva quanto os bichos. Não sei, talvez você aí leitor seja um desapegado dos amores caninos e felinos e etc.. Mas minha longa experiência me dá respaldo para dizer que os animais entendem mais os nossos sentimentos do que outros seres humanos. Eles não precisam de um termômetro para saber quando você está mal, nem que você abra o coração aos prantos sobre suas últimas decepções e fracassos. Eles sempre estarão lá. Eles aparecem na hora que você precisa. Ao contrário dos seres humanos que você pode se jogar na frente, dar bandeira, pedir ajuda e o escambau e: nada. É provável, certeza quase, que o ser humano ainda consiga piorar (e muito) as coisas. O ser humano não é compreensivo nem muito habilidoso com a empatia. Os animais são superiores nisso, enquanto o ser humano só consegue ver o mundo a partir de si mesmo – e é cada espelho quebrado que tem por aí.
As pessoas gostam de se vangloriar – até das piores merdas. As pessoas não assumem que não são tão boas assim, que perdem muito mais do que ganham, que caem e ralam feio o joelho. Às vezes caem de penhascos e demorarão muito a se reerguer. Já caí muito na vida e sei que chega uma hora as manhãs eternas na companhia da mãozinha duram menos dias. Ela aparece, claro. Sempre. Colecionar fracassos é ter o plano B na mesa de cabeceira. E, se ao final nada der certo, danou-se. É o fim mesmo, não?
O dia amanhecerá, a mãozinha querendo ou não. O sol brilhará – a não ser que você esteja em Joinville –, o vento trará nova poeira sobre a vida. Os bichos precisarão ser alimentados. Os problemas conhecem o teu endereço. A saída é seguir com o próximo plano que estiver à mão. Se não tiver nenhum, falha sua, então fique em companhia da mãozinha até encontrar algum. Você não é tão bom quanto imagina – a despeito dos elogios, do que a sua mãe pensa de você, de sucessos e conquistas. Mas, de vez em quando, livre-se de tudo – e a mim, no momento, só interessa a previsão do tempo para a semana que vem. Só não esperem que eu diga que fracassar é bom. Se tem uma coisa que sei é que insistir é burrice – e desistir é digníssimo. Ninguém me ensinou, porém.
É tempo de crise
E
Seja “Fora, Dilma”
Ou “Fora, Temer”
Sei que esqueceram
a vírgula
A pobre vírgula
Mais abandonada que o teu
Amorzinho da semana passada
Na crise a gente ama
No sábado a gente se diverte
E se a cabeça toda hora volta para o moço
É que aí tem coisa
Tem desemprego, tá caro o almoço
Tem quem tá sozinho
Beber a gente vai
Não ajuda a esquecer
Não resolve
Não é promessa de tarot
Que traz a pessoa amada em três dias
Mas tem malzbier
Tem desespero, tem leite a preço de ouro
Tá cheio de cafajeste em pele de cordeiro
A negação passou
Tá todo mundo no mesmo barco: tem crise!
Para adiar as mágoas tem malzbier
Pensar, de novo, no moço não desfaz
O encanto de querer feijoada
No meio da madrugada
Amanhã não será outro dia
Salvo qualquer engano
Hoje ninguém manda
E quem dera
O moço… – melhor não satisfazer
Escolha bem a carta do tarot
Não falte à entrevista de emprego
Economize na gasolina
E eu sorrio
Pra mais uma garrafa de malzbier
Quase cinco, saiu mais cedo do escritório na ânsia de aproveitar cada segundo do feriado no meio da semana. E as filas já na garagem da firma. No primeiro sinaleiro, quinze minutos parado. E atravessou a cidade no triplo do tempo de um dia normal. Todo mundo quis sair mais cedo. Quase chegando em casa a esposa liga pegou a mãe na rodoviária?, um palavrão e não, não tinha lembrado da sogra. Por que ela veio agora, num feriado, a velha não faz nada, está aposentada! Pra ficar mais tempo com as crianças, amor, não fala assim dela e lá foi ele, filas e filas até trazer a sogra reclamando que ficou esperando na rodoviária. Por que ela sempre viajava com um travesseiro e uma coberta, até no calor, até numa viagem de meia hora? Eram as dores, meu filho, quando chegar na minha idade! A velha era profética, ainda. Duas horas depois do horário normal de chegar em casa, a pirralhada toda feliz pelo sofá esperando a avó. A esposa cansada da faxina, imagina a mãe ver a minha casa suja! E ele deu a vez às duas no banheiro. E caiu na cama tarde e correu a mão debaixo do lençol pela perna da esposa e foi subindo e nada. Nem ele nem ela. Dormiram. Merda! Seis da manhã, despertador, que merda, esqueci de desligar! A esposa acordada, opa, volta a mão da noite anterior, rápida na bunda, vem cá! Tá louco?! A mãe está aqui do lado, imagina se eu vou fazer isso com ela aqui, deve estar acordada, sempre acordou cedo! O convincente, Amor, quando namorávamos fizemos coisa muito pior debaixo do nariz dos teus pais… A mão leva um tapa, ela pula da cama, E tu acha que eu sou o que hoje? Pronto, um bom começo. No café a algazarra, mesa cheia e ele esperou pra ser o último. Quem sabe passear? A mãe está cansada. Um filme? As crianças querem assistir TV. Almoçar fora? Não, quero fazer o prato favorito da mamãe. Ele lembrou com asco que o prato favorito da velha era língua com ervilhas. Odiava língua. Odiava, ainda mais, ervilhas. E o barulho insano que aquelas crianças produziam em grupo. Mofou no sofazinho do quarto. Depois do almoço, quem sabe, teria paz. Amor, vamos no supermercado? Ué, tua mãe não está cansada? As crianças querem que ela faça os bolinhos, precisamos dos ingredientes. O supermercado, num feriado, no meio da semana, mais lotado que as ruas da véspera. Voltaram às seis e meia, ele louco pra tomar uma cerveja e ver TV. Era a hora sagrada da novela delas. Desistiu. Sentou. A velha fez o tal bolinho, jantaram, e a esposa olhou pra ele A louça é tua, quem não cozinha, lava! Toda felizinha. Como pode alguém sujar tanta louça pra fazer um maldito bolinho sem gosto?! Quando terminou, todos haviam tomado banho, as crianças na cama, a velha deu seu boa noite. A esposa fresquinha Tô cansada, apaga tudo quando for deitar. Mais de onze da noite, tomou um banho, abriu a cerveja, sentou no sofá. A TV a cabo sem sinal. Meia hora e nada. Desistiu. Levantou. Deitou e ouviu o suspiro leve da esposa. O corpo fresquinho. A mão direto no peito, Pára, amor, que saco. Virou, verificou se o despertador estava ligado. Pensou no dia seguinte: sair de casa antes das crianças acordarem, ficar a manhã toda vendo vídeo no youtube escondido do chefe, esperar pela hora de ir ao refeitório da firma, almoçar bastante ouvindo e contando piadas com os colegas, descansar meia hora no banco do carro. Trabalhar um pouco à tarde, pra não deixar atrasar o serviço, terminar às cinco pra sair às seis em ponto. Chegar e as crianças de banho tomado cansadas demais do judô inglês ballet natação irem direto pra cama. Assistir sossegado ao jornal da TV esparramado no sofá. Desligar tudo, tomar banho e ir deitar. A mão correr pela espinha da esposa e torcer para que o cansaço e o sono dela sejam tão grandes que não consiga negar e impedir as vontades dele. Sonhou com o amanhã.
Recentemente li Uma página de amor, do Zola. Que eu lembre, foi o meu primeiro Zola. Um crime, certamente, dirão os literatos. É engraçado isso, quando as pessoas esperam que eu já tenha assistido a todos os filmes do mundo, assim como lido todos os clássicos. Não. E sei que alguns desses só quando eu estiver velhinha, antes disso, sem chance (Joyce, estou falando com você). Fiquei muito apaixonada, mas mais ainda impressionada pela destreza do autor. Fico especialmente deleitada quando encontro um livro de literatura de ficção que ocupe meus pensamentos mais do que qualquer realidade. Lembro de uma época que, dentre mil leituras obrigatórias e nada ficcionais, perdi o interesse por obras de ficção, cada um que eu começava achava-o desinteressante. Lembro, inclusive, qual foi que me resgatou para a velha leitora de ficção que eu sempre havia sido: Areia Pesada, do Anatoli Ribakov, num distante Verão quando eu ainda virava noites insones (na cama, lendo, é claro).
Sábado à noite? Sempre virei a noite. Lendo. Ou assistindo filme, sozinha. Eu sei, as pessoas saem, vão pra balada e tal. Nunca me atraiu. E por um período, quando acordava de madrugada para estudar Kant (não consigo imaginar nada mais solitário, pois ele um solitário), quase abri mão da literatura de ficção. Mas como uma criatura como eu viveu sem a ficção? Desconfio da resposta, mas jamais saberemos.
Conheço pessoas que nunca leram um livro de ficção. E vivem bem, podem ter certeza. Com a minha dificuldade para viver no mundo real, por muito tempo não sabia como essas criaturas viviam. Morei muitos anos sozinha e não tinha percebido como, da porta de casa pra dentro, o meu mundo era ficção e só ficção. Eu chegava, tirava sapato e roupa, pegava comida e mergulhava na ficção. Telefone no silencioso e e-mail fechado, aliás. Quando deixei de morar sozinha percebi a diferença. Entro no quarto, fecho a porta, ligo a TV ou abro o livro (e ai de quem me interromper).
Conheço (muitas mais) pessoas que nunca leram um livro de Filosofia. E vivem melhor ainda, é certo que sim. Há quem diga que Filosofia é um outro tipo de ficção – inimigos até ela tem. Sempre impliquei com o uso que as outras áreas (do conhecimento) fazem da Filosofia. E vejo de perto como muita gente sequer teve boas aulas de Filosofia. Aos meus alunos eu frisava que era essencial que eles dominassem a sua Língua, soubessem escrever, ler e falar bem e corretamente. Defendia que desde cartas de amor até entrevistas de emprego dependem e muito do quanto você consegue se comunicar, expressar, compreender. Na sala de aula tive contato com casos assustadores do tal analfabetismo funcional (e também vi isso na graduação, colegas que mal sabiam ler e escrever). E como uma professora de Filosofia se faz entender e entende os seus alunos sem o uso correto e pertinente da Língua? Expus isso para algumas turmas e tornei-me uma professora de Português também, pois corrigia e ensinava. Uma das coisas mais tristes que já vivenciei: o aluno inteligente que sabia se expressar, mas tinha uma escrita péssima.
Um exemplo simples: assisti a um capítulo do X-Factor Brasil. A maioria esmagadora cantou em inglês (por vezes sofrível, por vezes incompreensível, todos covers de sotaques e entonações). E um ou dois falavam corretamente o Português. Acompanho o X-Factor UK e é muito raro você encontrar participante, mesmo que de recônditos do país, que fale errado. Uma amiga esses dias comentou sobre um rapaz bonitão da academia que mandou mensagem de Whatsapp pra ela (que quase o considerava o príncipe encantado): não havia uma única frase compreensível. E o cara é graduado em Engenharia (engenheiros, os eternos sonhos de consumo da mulherada), faz isso e aquilo, tem tal carro. Ela desanimou consideravelmente.
Eu sei, todo mundo comete erros. Errar é uma coisa, não dominar é outra. Estou quase terminando de lapidar a idéia de que na escola básica deveríamos aprender só Filosofia e Português. É o que basta para entender o mundo. Sem partido, obviamente, mas só no plano ideal, pois a escola é feita por seres humanos e, sim, somos incapazes de imparcialidade. Dominar Filosofia e o nosso idioma faria do mundo um lugar melhor – que mundo o que, se fizer o nosso país melhor está de bom tamanho. E o que a ficção tem a ver com isso?
Quando lemos um livro de literatura de ficção sabemos que é ficção, certo? Deixemos a discussão para o pessoal dos Estudos Literários. Mas, sim. Não precisamos comprovar a veracidade dos fatos. E, contra fatos não há argumentos. Fatos são fatos, mas nem jornalistas nem advogados conseguem ser fiéis a eles. Porque, como disse acima, são seres humanos. Esperar imparcialidade de um jornal é como esperar que eu saia para a balada, queridos. E talvez eu devesse ter começado o texto falando de como sinto falta de um crítico do nosso tempo. Alguém que pondere sobre pessoas que tiram dez selfies por dia (passo mal quando vejo a “selfie no carro”) e, sim, a publicam em redes sociais. Alguém que traga a discussão da ficção X realidade para as timelines do nosso dia a dia. Por que hoje construímos quem somos através de posts tão bem (ou nada) calculados? Por que eu preciso dizer onde estou, com quem e quando? Ou, pior, por que preciso publicar uma foto de um determinado lugar, quando não estou lá, mas para que pensem que estou? São tantos os casos… Ah, mas tem gente pensando sobre essas coisas. Tem, sim. Mas não se fazem mais filósofos como os dos séculos passados.
Os filósofos foram aquelas pessoas que pensavam o seu tempo. Quando você pega um texto atual sobre algum assunto e o cara desenterra um filósofo que se referia a um outro momento da humanidade, há alguns problemas evidentes. Muitos são os problemas, aliás. Enfim, a discussão é longa e, bem, se ainda hoje defendemos com unhas e dentes a Democracia, é sinal de que a poeira do tempo desceu sobre nossos olhos.
Na Literatura, criticam muito os Naturalistas. Como se fossem autores de “obras menores”. E não sei de onde eu gosto tanto deles – apesar de, confesso, já ter pulado ou lido distraída as eternas páginas descritivas de paisagens. Neste livro do Zola, por exemplo, eu me transportava para Paris vista da janela da protagonista – nunca pisei em Paris e tenho uma memória imagética fraca da cidade, pois além da Torre Eiffel são poucas as referências. Um dia quero ir a Paris e não fotografar a Torre. Pois bem, poucos livros de ficção que eu li alcançaram uma veracidade em sensações como A Carne, do Julio Ribeiro. (pulei algumas páginas eternas das cartas, se não me engano? Sim.) A ficção vai mudando seus padrões e convenções, coitado do escritor que hoje se debruçar a esmiuçar o vôo de uma borboleta. Ou um diretor que esculpa o tempo como Tarkovski. E todos têm suas políticas a exibir mascaradamente.
Então, entendemos que o mundo é real (Platão discordaria) e o resto é ficção. Ficção mesmo, queridos, são meus sonhos dormindo. Todo o resto pode ser bem real. Mas, a falha que há ao compreendermos o mundo (a falta da Filosofia, do domínio da Língua) nos afasta do mundo da ficção que nos faria, por sua vez, compreender melhor as relações humanas, o mundo e suas traquinagens. Eis aí o megassucesso de filmes de super-heróis e afins, inclusive (argumento em processo). Mesmo na ficção há “níveis”, pois há a ficção engajada, a que traduz visões e sensações e sentimentos, há a ficção de puro entretenimento, etc.. Passei muito tempo abraçada à certeza de que a ficção era meu “mundo paralelo”. E de fato é quando leio A Carícia do Vento ou A Máquina do Amor (sim, foi ontem que me corroí de vontade de lê-lo novamente de novo mais uma vez e RESISTI bravamente pois ocupadíssima com coisas importantes – não sei se resistirei na próxima vez). Porém, sempre cito aqui filmes e séries, por exemplo, que desencadeiam reflexões e críticas, que fazem pensar sobre nosso modo de agir e tal. Não são exclusivamente um mundo paralelo para onde fujo. Esta, aliás, minha grande briga sobre as novelas de televisão, sempre desprezadas como obra artística e social, são grandes intérpretes de sociedades e pensamentos (brigarei toda vez que alguém quiser falar mal de novela).
Julgo que a ficção nos diz muito mais do que a realidade. Pobre daquele que vive na veracidade dos fatos. O documentário que acompanhou o impeachment da Dilma nos dirá mais ou menos do que se uma farsa fosse escrita, cheia de metáforas e hipérboles? (está aí essa febre chata de memes que apoia meu argumento) Saí do convívio com os historiadores ainda mais (muito mais…) crente de que as narrativas, as imagens, os discursos ficcionais servem mais à humanidade do que o sempre incompleto cientificismo deles. Sem jamais ignorar: somos seres humanos, com visões restritas, interpretações limitadas, e não lemos todos os livros do mundo, né?
O que, afinal, eu queria dizer? Nada, necessariamente. São pensamentos incompletos de quem está imersa num mundinho paralelo de novas e deliciosas reflexões. De quem está com um filme desenho animado de animais que falam e pensam e se pergunta: por que eu vou assistir isso? (desenvolvi uma dificuldade com filmes de bichos humanizados, desculpa) De quem tem pouco tempo para fazer muita coisa, daquelas importantes para a tal vida real, mas prefere parar para pensar e escrever – e depois se torturar que tem coisas por fazer. Tenho tempo pra tudo. Talvez até para reler A Máquina do Amor. Amanhã à noite, quem sabe.
* não quero usar mais a palavra “selfie”; usei-a para otimizar a compreensão do texto.
* não citei os filmes catárticos com a Keira Knightley nem as duas séries que assisti de uma vez só e me fizeram crer que o mundo “real” nem existia – sempre uma dificuldade e inconformidade a parte voltar destes mundos. Assunto mal resolvido por aqui. (rindo muito)
* talvez, apenas talvez, na próxima eu me atenha a refletir sobre o mundo da veracidade, porque enquanto ele for essa coisa que vocês pensam que é una, que existe A verdade, e o pessoal deveria ser imparcial está difícil.
* talvez, apenas talvez, eu ainda fale dessa coisa de achar que escritor escreve o que lhe vai pelo coração, acreditar em dom e inspiração e tals; pensei nisso antes de escrever, mas ficou de fora; como eu disse, pensamentos incompletos (ainda). Era isso, aliás, que eu queria usar para justificar a mudança de blog para site. Fica para uma próxima. Apenas uma preocupação conceitual.